A carreira de administrador de empresas dispensou 26.244 profissionais em apenas um ano (Free Images)
 A carreira de administrador de empresas dispensou 26.244 profissionais em apenas um ano A carreira de administrador de empresas dispensou 26.244 profissionais em apenas um ano (Free Images)

Desemprego castiga os mais qualificados

Demissão de funcionários com curso superior completo saltou 10,8% nos 12 meses até março; corte chegou a 1 milhão de vagas

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2016 | 23h42

RIO - Os profissionais mais qualificados são os alvos prioritários da deterioração em curso no mercado de trabalho. A demissão de funcionários com curso superior completo saltou 10,8% nos 12 meses encerrados em março, o que significa um corte de 1,014 milhão de pessoas com alto nível de instrução no período de um ano. Os dados são de um levantamento exclusivo feito pelo economista Fabio Bentes, da Divisão Econômica da CNC, a pedido do Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado.

O movimento segue na contramão das demais faixas de instrução. Todas registraram recuo no total de demissões. Entre os empregados analfabetos, as demissões recuaram 9,3% em relação a março de 2015; na faixa com fundamental completo, a queda foi de 13,3%; e com o ensino médio completo, recuo de 4,0%.

“Quando você coloca a lupa no pessoal que precisa efetivamente do diploma para trabalhar, o estrago é monumental. Não está resistindo nenhuma profissão ligada ao aumento da produtividade. Pelo contrário, são essas que estão sendo cortadas”, alertou Fabio Bentes.

O levantamento, com base em informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho (Caged), considera apenas os empregados demitidos sem justa causa ou que tiveram o contrato de trabalho rescindido. Dessa forma, o estudo consegue excluir os desligamentos, que normalmente são voluntários, principalmente por conta da migração dos profissionais de uma empresa para outra.

Entre as carreiras que exigem diploma de nível superior, as mais atingidas foram as de administradores de empresas; professores na área de formação pedagógica do ensino superior; engenheiros civis e afins; programadores, avaliadores e orientadores de ensino; advogados; engenheiros industriais, de produção e segurança.

“É o filé mignon do mercado de trabalho, são aquelas ocupações que exigem formação superior. Isso tudo está ligado à queda nos investimentos”, avaliou o autor do estudo.

Ranking. No topo do ranking (veja tabela ao final do texto), a carreira de administrador de empresas dispensou 26.244 profissionais em apenas um ano. No mesmo período, 17.623 engenheiros civis perderam seus postos de trabalho, assim como 10.616 advogados e 3.672 arquitetos, entre tantos outros profissionais qualificados.

“Isso só vai se reverter com uma mudança de humor dos empresários. Enquanto os investimentos continuarem derretendo, essa turma vai continuar perdendo o emprego. Quem está mantendo a contratação é o emprego de baixa qualificação. As demissões estão direcionadas ainda para pessoas mais qualificadas”, apontou Bentes.

A recessão econômica está por trás do resultado, porque aumenta o número de estabelecimentos fechados e leva à postergação de investimentos. Os novos projetos são adiados, os que estavam em andamento acabam congelados, e as empresas tendem a manter apenas os serviços essenciais, como limpeza e segurança, lembrou Roberto Saldanha, responsável pela Pesquisa Mensal de Serviços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A prestação de serviços técnico-profissionais recuou 8,5% em março, ante março do ano passado. A categoria inclui serviços de consultoria, engenharia, jurídicos, auditoria, publicidade e propaganda, contabilidade, arquitetura, urbanismo e design, entre outros. Não por acaso, várias dessas especialidades estão na lista dos que mais dispensaram funcionários.

Investimentos. “Os serviços técnico-profissionais, que são os mais qualificados, dependem muito das decisões de investimentos das empresas e do governo. Os serviços de engenharia têm sido os mais afetados, os que dependem de projetos, principalmente no setor de óleo e gás”, apontou Saldanha. “Com certeza, isso se reflete em demissões”, acrescentou.

Parte desses profissionais provavelmente acaba migrando para funções que não exigem nível de instrução tão alto ou qualificação específica. O professor da PUC-Rio José Marcio Camargo, economista-chefe da Opus Investimentos, pondera que é necessário olhar com cuidado os dados para entender o que está acontecendo no mercado de trabalho.

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'Tem muito profissional bom no mercado que está sem emprego’

<strong>Marcelo Lobo, publicitário, formado em Comunicação Visual</strong></p>

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2016 | 23h49

RIO - “Houve um grande corte na agência de publicidade onde eu trabalhava, no Rio de Janeiro. Era uma multinacional, perdemos algumas contas importantes, então mandaram cerca de 70 pessoas embora. Eu acabei nessa leva, em fevereiro de 2015.

Sou casado, tenho dois filhos, de 16 anos e 10 anos. É difícil largar a sua família, a sua casa e ir trabalhar em outro Estado. Havia um problema na economia, todo mundo esperava que a situação ficasse ruim.

A princípio consegui um trabalho como freelancer, por um mês, numa agência em São Paulo. Trabalhei bastante, e esse trabalho de um mês acabou se prolongando por quase 10 meses. Fiquei muito feliz de ter sido contratado em janeiro deste ano. Nesse período morei em seis lugares diferentes, na casa de amigos, dividindo apartamento. A ideia agora é trazer toda a família.

A crise para mim foi um momento de oportunidade, que eu soube aproveitar. Saí da zona de conforto, tive que deixar a família no Rio, mas está sendo uma experiência positiva. Mas acho que sou uma exceção do que está acontecendo para muita gente. Tenho visto muito profissional bom que não está conseguindo voltar ao mercado de trabalho.”

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‘Tentei me recolocar na área em que atuo, mas não consegui’

<strong>Verônica Anchieta, engenheira metalúrgica, com mestrado </strong></p>

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2016 | 23h55

RIO - “Eu trabalhava numa empresa que prestava serviços para o setor de óleo e gás, na fabricação de plataformas. Quando a empresa começou a não receber pelos serviços que prestava para a Petrobrás, ela parou de participar de novas licitações. Hoje a empresa só atua em um projeto. Assim como eu, muitas pessoas foram demitidas.

Tentei me recolocar na minha área, mas não consegui. Está todo mundo no mesmo barco. Acho que tem muita gente que tenta se aproveitar da situação difícil para reduzir os salários. As poucas vagas que encontrei abertas não eram interessantes.

A área de engenharia é muito dependente da Petrobrás, que gera uma demanda direta e indireta muito grande. 

Quando a obra do Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, que teve as suas obras paralisadas assim como outros empreendimentos da estatal) parou, quantos pequenos empresários não fecharam as portas? Até donos de restaurante. Nosso maior problema hoje é depender de um cliente só.

A gente saiu há muito pouco tempo de uma oferta muito grande de emprego. Ninguém saía de um trabalho sem ter outra vaga já engatilhada.”

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Uma das saídas é trabalhar no exterior

RIO - Diante de um mercado de trabalho em deterioração, com a fila do desemprego aumentando a cada mês, uma saída encontrada por alguns profissionais muito qualificados tem sido mudar de Estado ou até sair do País.</p>

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2016 | 23h59

Formado em ciência da computação, Marcelo Benites foi surpreendido com uma carta de demissão assim que voltou de férias, em fevereiro. 

Ele trabalhava numa startup em Porto Alegre, especializada no desenvolvimento de softwares para o varejo. A dispensa foi motivada pelo anúncio de que o principal investidor da empresa não apoiaria mais o desenvolvimento de novos produtos. Além de Benites, foram cortadas as outras duas pessoas da equipe que eram igualmente qualificadas em ciência da computação e desenvolvimento de software.

No entanto, o profissional passou apenas um mês e meio desempregado. Já em abril engatou num emprego em Portugal. Atualmente, Benites trabalha remotamente, de Porto Alegre, desenvolvendo softwares para uma loja de aplicativos para celulares e tablets, mas já está de passagens compradas para Portugal, aguardando apenas a emissão do visto. Ele chegou a ser sondado para funções semelhantes na Alemanha, Irlanda, Suécia e até Nova Zelândia.

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