Athree23/Pixabay
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Case: A esperada promoção na empresa não veio. O que fazer?

Funcionário bem avaliado pelos chefes aguardava ascensão na carreira, mas viu colega ser promovido; especialista em gestão de pessoas explica como reagir nessa situação

Izabela Mioto*, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 09h00

Após quatro anos de empresa, Luís Fernando esperava a tão almejada promoção. Seus resultados oscilaram, nos últimos dois anos, entre dentro e acima do esperado e os feedbacks que recebia eram ótimos. No entanto, quando surgiu a possibilidade, quem recebeu a promoção foi um dos seus pares. 

Ele foi tomado pelo sentimento de frustração e até mesmo certa raiva do seu gestor. No dia seguinte, a vontade era de não se levantar da cama para encarar o dia de trabalho. No café da manhã, não teve coragem de contar para a esposa que não havia sido dessa vez. Com meia hora de atraso, ele respirou fundo e seguiu para a empresa. 

Ao chegar no trabalho, encontrou o colega que havia sido promovido, mas não conseguiu lhe dar os parabéns. Os dias seguiram e Luís foi tomado por um desânimo sem precedentes. Ele, que sempre chegava pontualmente às reuniões, começou a se atrasar. A qualidade de suas entregas e seus impecáveis relatórios também já não representavam mais seus bons feedbacks. Nitidamente, sua performance estava caindo. Algumas vezes, ele até chegou a ter falas ríspidas com o seu gestor. Com essas atitudes, a promoção ficava cada vez mais distante. 

Existia um fato nessa história que Luís Fernando não sabia, pois ainda era confidencial: uma nova área seria aberta na sua diretoria e ele era o mais indicado para ocupar essa nova posição. O tempo passou e suas atitudes fizeram com que, de novo, ele não fosse o escolhido. Dessa vez, ficou sabendo no dia do seu feedback anual que era a preferência de seu gerente e diretor, mas que suas atitudes mobilizaram uma decisão diferente. 

O que aconteceu com Luís Fernando reforça o que tenho visto acontecer com alguns profissionais e gostaria de trazer alguns pontos de reflexão para que situações como essa tenham desfechos diferentes. 

Stephen Covey, autor dos Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, enfatiza a importância de atuarmos no nosso círculo de influência e não no nosso círculo de preocupação, dirigindo as nossas atitudes ao que, de fato, intencionamos. Quando nosso personagem não foi promovido, sentiu raiva e frustração. Nesses momentos, é muito comum sermos tomados por emoções negativas, mas o problema é quando somos ‘sequestrados’ por elas e nos desviamos daquilo que nos é importante.

Não conseguimos controlar as circunstâncias e nem as atitudes de outras pessoas, mas temos o nosso 'espaço de governabilidade' e é a partir dele que podemos ter atitudes sustentáveis em relação aos nossos verdadeiros propósitos. De maneira inconsciente, e na maioria das vezes tomados por emoções negativas, nossas atitudes nos desviam dos nossos objetivos. 

Não fui promovido: como lidar com a frustração?

Vamos refletir: o que Luís Fernando poderia ter feito de diferente e que estava em seu ‘espaço de governabilidade’ para não se desviar do que ele realmente almejava? A primeira coisa seria encarar de frente o fato de que estava frustrado e com raiva, ter conversado com a esposa e exposto os seus sentimentos. Assim, teria um espaço para que pudesse se reorganizar, minimizando a carga emocional. Poderia ter cumprimentado o colega de trabalho promovido, continuado a fazer seu bom trabalho e solicitado uma conversa verdadeira e respeitosa com o gestor, com o intuito de expressar o que estava sentindo, mas também de elucidar os pontos que necessitaria desenvolver para ser promovido.

As nossas atitudes são observadas o tempo todo, assim como a coerência delas, ou não, em relação ao que almejamos. A promoção poderia ter vindo da sua própria área, mas também de uma outra área da empresa ou de um colega de trabalho que mudou de emprego e indica Luís Fernando pelo seu perfil impecável. Ou, como descrito no caso, ele poderia ter sido o escolhido para ocupar a posição na nova área que seria aberta na diretoria. 

Boa parte das pessoas tende a julgar que o gestor não deu os feedbacks adequados, que a empresa não tinha uma política coerente e justa de promoção. Mas, em casos como esse, uma atitude de vitimização não nos conduz para nossos objetivos. O tão falado protagonismo na carreira tem a ver com não nos paralisarmos quando as situações forem contrárias ao que desejamos, mas empreendermos esforços, por meio de atitudes que sustentam o que realmente queremos.

Vivemos em um tempo no qual as pessoas são tomadas pela ansiedade, sem compreender que as coisas têm o seu tempo para acontecer e o melhor que podemos fazer é preencher o nosso cotidiano com atitudes coerentes. Em alguns momentos, ajudará bastante fazermos as seguintes reflexões: 

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Quais são as minhas intenções? As minhas atitudes têm sido direcionadas para aquilo que eu realmente desejo? Eu fiz tudo o que está em meu 'espaço de governabilidade' ou ainda há algo a se fazer?
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Susan David, no livro Agilidade Emocional, nos provoca a pensar se temos lutado ou dançado com a vida. Percebo que, ao transpor as adversidades que irão surgir em nossas carreiras com consciência e mais controle emocional, não perdemos de vista nossos propósitos e somos capazes de compor uma coreografia leve, da qual possamos nos orgulhar quando tivermos a possibilidade de inspirar nossos netos a partir de nossas trajetórias profissionais.

*Izabela Mioto é Mestre em Psicologia pela UNESP e pós-graduada em Administração de RH pela FAAP/SP. É sócia co-fundadora da Arquitetura RH e coordenadora da pós-graduação em Gestão de Pessoas da FAAP.

** Luís Fernando é um personagem fictício.

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