Instituto Alpha Lumen
Instituto Alpha Lumen

'A tecnologia é solução para ampliar e democratizar oportunidades', diz educadora

Para Nuricel Villalonga, é importante fomentar o conhecimento de múltiplas habilidades nos jovens, sem estigmas de humanas ou exatas

Entrevista com

Nuricel Villalonga, cofundadora da escola Alpha EdTech

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2020 | 05h00

Certa vez perguntei ao meu filho se ele queria uma herança ou um legado e ele optou pela segunda opção. Larguei tudo, inclusive o meu emprego como coordenadora de uma grande rede de ensino na capital paulista, para fundar a ONG Escola Aberta, em São José dos Campos (SP). Usei o que tinha aprendido, toda a minha bagagem, para ajudar a desenvolver estruturas que fossem acessíveis”, lembra a educadora Nuricel Villalonga. 

O projeto cresceu e, com o passar dos anos, se transformou no Instituto Alpha Lumen, que, entre seus mais de 30 projetos nacionais e internacionais, lança nesta sexta-feira, 6, a Alpha EdTech, uma nova escola de programação que irá pagar para o aluno estudar.

Em sete anos, já passaram mais de 70 mil jovens pelo Alpha Lumen e parceiros, como pesquisadores da Universidade Brown (EUA), MIT Brasil, Nasa, Câmara de Comércio Brasil Florida e Instituto Confúcio. Já a Escola do Instituto coleciona mais de mil medalhas em Olimpíadas nacionais, tem 98% de aprovação em universidades, sendo 30 internacionais, e ocupa a 103º posição no Enem, no Brasil.

Física, astrônoma e mestranda em Tecnologias da Inteligência Digital, Nuricel acredita que a tecnologia é uma importante solução para ampliar, interagir e democratizar as oportunidades. Confira a seguir trechos da entrevista.

 

Qual o foco de ensino do Instituto Alpha Lumen?

O Instituto Alpha Lumen é uma ONG, que conta com uma escola, e desenvolve projetos educativos para os jovens e crianças. A ideia começou porque existem muitas pessoas com altas habilidades e superdotação. São cerca de 10% da população, o que representa mais ou menos 5 milhões de estudantes. A maior parte deles nem é percebida e, muitas vezes, como são críticos e exigentes, são taxados de problemáticos. 

Mas, na verdade, poderiam ser a solução para o Brasil, caso tivessem oportunidade de trabalhar o potencial. A nossa ideia é tentar descobrir e alcançar esses jovens, principalmente aqueles que estão em situação de vulnerabilidade, e viabilizar oportunidades e suporte para que possam utilizar o talento e ser um agente transformador ao seu redor. 

 

Qual a metodologia de ensino e em que ela se difere de outras instituições?

A metodologia que usamos é a teoria da complexidade, do francês Edgar Morin. A ideia é que o indivíduo tem todos os aspectos interligados. Trabalhamos um núcleo comum, que é a base do conhecimento, e outras 43 eletivas para o jovem degustar possibilidades nas mais variadas áreas e múltiplas inteligências. Muitos fazem teatro, música, olimpíada de ciências e tecnologias. O grande diferencial é esse trabalho do indivíduo como um todo, cognitivamente e emocionalmente, com atividades socioemocionais, relacionais e sociais. 

Ou seja, sempre propomos reflexão sobre o que eles vão construir para a sociedade. Lá no instituto, ninguém cola em provas, porque para eles está muito claro que estão se construindo para multiplicar. Existe uma cultura séria de aprendizagem, em que todos são extremamente colaborativos. Não fomentamos competição e, sim, inspiração. Eles são parceiros e aprendem a estabelecer conexões e a lidar com o mundo. 

 

Essa metodologia desmistifica paradigmas como: ‘não sei matemática, farei humanas’?

Para alguém dizer que é isso ou aquilo, tem que conhecer. Como ela pode se definir se não conviveu com múltiplas oportunidades? No instituto, incentivamos isso. Temos, por exemplo, projetos que unem arte e tecnologia e, assim, vamos quebrando paradigmas. Tudo está conectado. Alguém pode ser bom em matemática e também ser um linguista extraordinário. Hoje, as profissões são muito fluidas e você tem que navegar pelos diferentes conhecimentos. A gente prepara jovens para que eles saibam aprender, articular e gerir conhecimento.

 

O Brasil perde talentos? O que precisa ser feito para isso mudar?

O Brasil perde muitas coisas ultimamente, dentre elas, os talentos jovens. Primeiro, porque não dá o mínimo de suporte para pesquisadores e cientistas, o que dirá para crianças com altas habilidades. Até alguns anos atrás, era tabu você dizer que uma pessoa é mais inteligente do que a outra, ou superdotada, porque todas tinham que ser iguais. Isso é uma grande mentira. As pessoas não são iguais e nem têm que ser. Elas precisam de oportunidades iguais e, com isso, cada uma irá se desenvolver e deixar um legado para o mundo.

 

A pandemia provocou mudanças no ensino?

Com a pandemia, percebeu-se que é importante viabilizar acesso à internet e às estruturas digitais para que as crianças possam se desenvolver e para que as instituições levem soluções que não estão ao alcance de todos. A pandemia trouxe essa certeza de que tem de haver uma transformação na educação do País, levando em conta efetivamente as tecnologias. Muitas escolas foram pegas de surpresa, não foi o nosso caso. A gente já vinha desenvolvendo essas linguagens há muito tempo e pra nós foi uma oportunidade de colocar em prática e expandir pelo Brasil. Agora estamos lançando o colégio online e a Alpha EdTech. Acho que a sociedade entendeu que a área digital veio para ficar.

 

Como a tecnologia pode contribuir para melhorar a educação?

A tecnologia pode ajudar de várias formas, tanto na estruturação de cursos, deixando-os mais versáteis, interativos e acessíveis, quanto para conectar as pessoas. Ou seja, é possível usar estruturas tecnológicas para ampliar a interatividade com o conhecimento, mas também usá-la como plataformas de e-learning, de forma a chegar até os cantos mais remotos do País. A tecnologia pode democratizar o conhecimento e criar estruturas educacionais sem fronteiras.

Para isso, é necessário que se invista em acesso a internet e a equipamentos digitais. Isso significa que governo, empresas e a sociedade têm que trabalhar para viabilizar esse tipo de acesso. Não basta disponibilizar tablets. É preciso criar uma estrutura física onde o aluno possa estudar com equipamentos que efetivamente são solução para aprendizagem.

Você não consegue levar uma equipe de profissionais para uma cidade do interior ou comunidades ribeirinhas, Mas, pela tecnologia, é possível. Não existe essa bobagem de que os professores serão substituídos. A interação humana será sempre essencial. A tecnologia é uma solução para ampliar, interagir e democratizar as oportunidades.  

Vem pensar com a gente

Confira outras reportagens do Sua Carreira:

Escola de programação vai pagar para aluno estudar e garantir emprego

Preconceito de contratar cinquentões começa a ser rompido

Lifelong learning: como se tornar um profissional em constante aprendizagem

Estudo aponta as 21 profissões do futuro para os próximos anos; confira

Teste vocacional: faça o quiz online e conheça o seu perfil

E participe enviando suas dúvidas em áudio pelo WhatsApp 11 9 9350-7355. Não se esqueça de mandar o seu nome para que possamos identificá-lo. As dúvidas serão respondidas no podcast Trabalho Mental e nas reportagens.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.