Caitlin Ochs/Reuters - 31/1/2019
Caitlin Ochs/Reuters - 31/1/2019

App de encontros é exemplo de poder feminino na sala de reuniões

Fundadora do aplicativo americano Bumble espera abrir capital com presidência feminina e 8 mulheres ocupando um conselho de 11 integrantes; caso aquece debate sobre diversidade de gênero

Jena McGregor, The Washington Post

08 de fevereiro de 2021 | 17h56

O aplicativo de encontros Bumble é conhecido por permitir que as mulheres tomem a iniciativa. Este jogo de poder se estenderá para a sala de reuniões mais tarde, ainda neste mês, quando a companhia em que as mulheres predominam deverá estrear como companhia listada em Bolsa.

A fundadora e CEO do Bumble, Whitney Wolfe Herd, de 31 anos, deverá abrir o capital de sua empresa com uma presidente mulher, e com mulheres ocupando 8 cadeiras de seu conselho de direção de 11 membros, ou mais de 70%, uma cifra raramente vista em salas de reuniões corporativas.

A companhia anunciou na terça-feira passada, 2, que pretende captar US$ 1 bilhão em sua oferta pública inicial e estabelecer o preço entre US$ 28 e US$ 30. Com isto, o valor de mercado da companhia chegará a cerca de US$ 6 bilhões, segundo a Bloomberg, um dos maiores valores para uma IPO chefiada por uma CEO, um marco histórico considerável que atrai o crescente interesse em investimentos em empresas dirigidas por mulheres.

A IPO está sendo esperada para este mês, noticiou a Bloomberg.

Ao abrir o capital da companhia, Herd ingressará no pequeno clube exclusivo de diretoras executivas. Dados fornecidos pela PitchBook, um banco de dados de mercado privado, mostram que apenas 32 de 377 empresas respaldadas em capital de risco  que se candidataram para IPOs entre 2016 e 2020, ou 8,4%, tinham mulheres na chefia. Em 2020 eram apenas oito.

A escala das IPOs da Bloomberg é ainda mais inusitada. A fundadora da Stitch Fix Katrina Flake e Julie Wainwright do The RealReal obtiveram avaliações após a IPO de $ 1,4 bilhões e $ 1,7 bilhões, respectivamente, segundo a PitchBook. Uma análise da All Raise, um grupo de advocacia para mulheres fundadoras, mostrou que das IPOs das 10 maiores de tecnologia dos últimos 10 anos, 92% da capitalização de mercado conjunta na estreia foram para beneficiários e investidores (homens).

“Os números falam por si”, disse Freada Kapor Klein, capitalista de risco e ativista da diversidade. “O que é interessante e encorajador no caso da IPO do Bumble é obviamente  o fato de ter sido fundado por uma mulher e CEO. Mas também  é importante, na minha opinião, o fato de se tratar de um produto que se concentra na mulher”.

Conhecido por seu  aplicativo de encontros em que as mulheres são encarregadas de iniciar os contatos, Bumble Inc também é proprietário do Badoo, um aplicativo de encontros com um amplo número de seguidores na Europa e na América Latina.

Herd fundou o Bumble  em 2014 com a ajuda do seu sócio de negócios, o bilionário russo Andrey Andreev depois de uma saída contenciosa do aplicativo de encontros Tinder, que envolveu uma ação por assédio sexual posteriormente solucionada. Depois que a empresa de investimentos privados Blackstone Group adquiriu a parte de Andreev em 2019, Herd foi instalada como CEO da companhia reorganizada.

Klein observou que neste último estágio de crescimento de uma startup, os fundadores pedem frequentemente somas até maiores. Assim como as empresas de capital de risco que podem assinar cheques inicialmente, disse Klein, as firmas de investimento privado que podem fazer investimentos posteriormente no processo são também predominantemente brancas e masculinas.

“Você pede que elas assinem cheques até muito maiores”, afirmou Klein. “Todos os obstáculos que você vê no segundo estágio são amplificados no estágio de crescimento. Quanto menor o número de mulheres que abrem o capital das empresas, mais reticentes são os que assinam cheques, porque talvez nunca tenham visto alguém como você”.

A falta de financiamento de capital de risco para mulheres empreendedoras frequentemente é citada como o principal obstáculo para as mulheres que dirigem empresas para IPOs. Segundo a PitchBook Data, as companhias fundadas por mulheres representaram apenas 13% do capital de risco conseguido nos primeiros nove meses de 2020, em comparação com 15,5%, em 2019.

A pandemia produziu um efeito desproporcional nos empreendimentos femininos, noticiou a PitchBook, com uma queda de 31% do total do valor do negócio para companhias fundadas por mulheres, muito maior do que a queda de 18% em todas as companhias. 

“O financiamento e os recursos são fundamentais, e se você não tem financiamento e recursos, não poderá elevar a sua companhia ao patamar que permite abrir o capital”, disse Laura Huang, professora da Harvard Business School e autora de Edge: Turning Adversity into Advantage, in a email.

As expectativas e os preconceitos podem ser uma barreira, disse Huang. “É difícil, ou quase impossível, que as mulheres sejam capazes de reformular-se e redesenhar-se a cada estágio”  do ciclo de vida de uma empresa, desde uma empreendedora em estágio inicial até aquela que pode expandir a empresa. “As mulheres têm uma dificuldade peculiar em orientar estas percepções - a quantidade de tempo e esforço necessária para ser considerada uma CEO de produtos confiável e legítimo torna quase impossível mudar o curso”.

A pesquisa de Huang mostrou que é menos provável que as mulheres sejam percebidas como líderes de estágio avançado do que seus colegas homens. Também é mais provável que as mulheres fundadoras sejam mais perguntadas sobre questões detalhadas focalizando questões do estágio inicial, como as referentes a equilibrar custos e lucros, ou os usuários cotidianos. Enquanto os homens mais provavelmente são questionados a respeito de sua visão ou oportunidades.

Perspectiva de mudança

Cada vez mais aumentam os fundos de capital de risco que atendem empresas dirigidas por mulheres e são dirigidas por capitalistas de risco mulheres também, alguns veem nisto uma perspectiva de mudança.

Os esforços dos grandes participantes do mercado também poderão levar a uma maior diversidade nos conselhos das startups. Um ano atrás, a Goldman Sachs disse que não abriria mais o capital de empresas nos EUA e na Europa se elas não tivessem pelo menos um diretor de um grupo mal representado em termos de gênero, raça, orientação sexual, ou identidade de gênero.

Em dezembro, a Nasdaq propôs novas normas de registro que exigiriam que todas as companhias revelassem a diversidade de seus conselhos de direção, e que a maioria delas tivesse pelo menos dois diretores diferentes, ou explicasse por que isto não acontecia.

A proposta de um conselho de 11 membros do Bumble terá cerca de 73% de mulheres. Um estudo recente dos professores Jason Sandvik, P. Raghavendra Rau e Theo Vermalen concluiu que entre 2010 e 2018 o conselho médio com pelo menos uma diretora constituía apenas de 17% a 18% das IPO na época.

Kristen Hamilton, que é vice-presidente sênior de parcerias estratégicas na Guild Education e contribuiu para chefiar a companhia Onvia para uma IPO em 2000, disse que há muitos investidores ainda que pensam que os membros do conselho precisam ser escolhidos entre pessoas que já foram diretores executivos ou diretores financeiros, o que limita o contingente de mulheres.

“Você esbarra contra verdadeiros muros -  Já fez isto antes? Está devidamente conectada?", ela disse. “As mulheres ficaram de fora destas redes por muito e muito tempo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Quer debater assuntos de Carreiras e Empreendedorismo? Entre para o nosso grupo no Telegram pelo link ou digite @gruposuacarreira na barra de pesquisa do aplicativo. Se quiser apenas receber notícias, participe da nossa lista de distribuição por esse link ou digite @canalsuacarreira na barra de pesquisa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.