Lauren Hurt
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'Burnout não é prêmio, é preciso parar de recompensar o excesso', diz escritor britânico

Autor de 'Sem Esforço' fala sobre a importância de transformar atividades essenciais nas mais fáceis de serem executadas; para Greg McKeown, é necessário distinguir preguiça de facilidade

Entrevista com

Greg McKeown, escritor e palestrante britânico

Giordanna Neves, Especial para o Estadão

27 de novembro de 2021 | 05h00

Jornada de trabalho exaustiva. Horas extras. Dedicação extrema. Quem nunca imaginou que a fórmula mágica do sucesso estaria relacionada a esses fatores? Acredita-se até que a síndrome de burnout seria reflexo de um esforço excessivo necessário para quem almeja reconhecimento e bons resultados. Mas, de acordo com o escritor britânico Greg McKeown, glorificar o esgotamento físico e mental não é medida de sucesso. Segundo ele, o caminho mais fácil e sem esforço pode trazer melhores frutos.

Autor do best-seller Essencialismo e apresentador do podcast What’s Essential (O que é Essencial), Greg é um dos criadores do curso Projetando a Vida Essencialmente, da Universidade Stanford, e ministra palestras no mundo todo sobre a importância de viver e de liderar como um essencialista. 

No seu livro mais recente, Sem Esforço, lançado em agosto no Brasil pela editora Sextante, ele amplia as ideias apresentadas em Essencialismo e defende que é possível tornar as coisas essenciais menos impossíveis; depois, mais fáceis; em seguida, fáceis; e, finalmente, sem esforço.

Greg McKeown experimentou uma absoluta sensação de estar sobrecarregado e sufocado quando sua filha ficou gravemente doente e ele ainda precisou lidar com uma agenda superlotada de compromissos. No livro, o autor diz que estava fazendo todas as coisas certas pelas razões certas, mas do jeito errado. 

“É verdade que trabalhar mais arduamente pode levar a um resultado melhor. Mas só até certo ponto. Afinal de contas, há um limite máximo de tempo e de esforço que podemos investir”, escreveu, reforçando que é possível tornar mais fácil aquilo que é mais importante.

Para alguns, seguir o caminho mais fácil traz certo desconforto e um receio de ser julgado como preguiçoso. Em busca da perfeição por meio do excesso de tarefas, as pessoas comprometem a saúde mental. Em 2020, o Brasil registrou recorde de concessão de auxílio-doença previdenciário devido a transtornos mentais e comportamentais. Foram 285.221 licenças, um aumento de 33,8% em relação ao ano anterior, segundo o Ministério da Economia. O motivo foi a terceira maior causa de afastamento no ranking que considera dados de 2017 a 2020. 

Por isso, Greg defende que atingir metas com eficiência não é falta de ambição e sim uma questão de inteligência. “Trata-se de uma alternativa libertadora tanto para o esforço quanto para a preguiça, pois nos permite conservar a sanidade e, ao mesmo tempo, realizar tudo o que desejamos”, escreveu. Afinal, o que poderia acontecer na sua vida se as coisas essenciais ficassem mais fáceis? “Essa mudança viraria o jogo a seu favor”, afirma o autor. Confira trechos da entrevista a seguir.

No livro, você diz que, em vez de tentarmos obter melhores resultados nos esforçando mais, podemos transformar as atividades mais essenciais nas mais fáceis de serem realizadas. Como fazer o “fácil” e ser valorizado?

Este é um verdadeiro desafio. Já falei para organizações que premiavam pessoas que não paravam de trabalhar por semanas para fechar um negócio. E, na mesma conferência, as organizações pedem que eu fale sobre esta nova forma de trabalho e sobre essa maneira mais fácil de obter ótimos resultados. Mas tive que apontar para eles que isso é uma contradição. 

Você não pode dizer “nos preocupamos com o seu bem-estar e com a maneira como você trabalha” e, ao mesmo tempo, recompensar as pessoas por fazerem o contrário. Portanto, como gerentes, devemos ter muito cuidado com isso e dar valor às pessoas que trabalham consistentemente de forma sustentável. Para mim, este é um grupo mais importante de pessoas altamente engajadas, que estão fazendo o trabalho e não recebem a atenção que deveriam receber. Burnout não é um prêmio. 

O que está acontecendo atualmente dentro das corporações é que há, de fato, um enorme aumento da consciência em relação ao trabalho sustentável e ao bem-estar dos membros, mas há um indicador de atraso na mudança dos sistemas para dar suporte a essa consciência. Não acho que essa consciência seja falsa. Acontece que, atualmente, o assunto é falado e está sendo desenvolvido, mas ainda não foi transformado em estruturas e sistemas de políticas formais.

Muitas empresas desenvolvem uma rotina de trabalho baseada em metas e avaliações individuais. Acha que esse cenário contribui para o aumento do burnout e outros problemas de saúde mental?

A competição dentro de uma equipe pode ser extremamente prejudicial. Pense em uma ocasião em que você trabalhou com uma equipe que tinha baixo nível de clareza sobre o que a própria equipe estava tentando realizar ou até mesmo quais eram as funções individuais dentro da equipe. Eu fiz essa pergunta a milhares de pessoas. Há uma grande quantidade de respostas em todos os setores e, se eu tivesse que resumir em uma, diria que a experiência é frustração total e o resultado é medíocre. 

Então, vamos apenas pensar sobre o contraste disso. Você consegue se lembrar de uma época em que trabalhou com uma equipe que tinha um alto nível de clareza sobre o que estavam tentando realizar como um todo? Mais uma vez, ao reunir esses dados em todo o mundo, descobri que a resposta é que a clareza começa a se aproximar da facilidade, do “sem esforço”, e a saída é um sucesso. Claro, é um exagero dizer que é completamente sem esforço, mas é suave e funciona em conjunto e se torna altamente satisfatório para as pessoas.

Eu tive a oportunidade de trabalhar com uma associação comercial que aborda o declínio e a eficiência na indústria da construção. Uma das inovações que eles estão implementando é o “The Deal”. Haverá vários incentivos para entregar o projeto dentro do prazo e do orçamento e, por isso, todos estão incentivados a trabalhar juntos. Então, em vez de otimizar para o objetivo individual, eles estão otimizando para o objetivo coletivo e isso muda tudo. A competição dentro da equipe diminui porque, em vez de cada um jogar seu próprio jogo, todos agora sabem como vencer o jogo juntos.

Hoje, sentimos satisfação em sermos reconhecidos por excesso de trabalho e por extrema dedicação. Como desconstruir algo intrínseco às nossas vidas?

O que eu diria sobre isso é criar uma cultura sem esforço. Isso começa com a criação de um novo idioma. Muitas pessoas são fluentes em excesso de trabalho, horas extras e extrema dedicação. Mas eles não têm necessariamente palavras para falar sobre como obter ótimos resultados sem se esgotar. Então, eles estão presos porque, se você não pode falar sobre uma coisa, você não pode mover-se em direção a ela. A linguagem é muito mais do que descrever o mundo que nos rodeia, é causal e absolutamente necessária para criar o futuro.

Essa é uma das razões pelas quais escrevo livros e uma das principais razões para escrever Sem Esforço, porque, a partir da leitura, as pessoas podem repentinamente ter a capacidade de falar sobre coisas que normalmente não podem. Neste caso de trabalho, as pessoas não abordam o assunto por medo de parecerem preguiçosos, principalmente em empresas que nasceram com esse pensamento da Revolução Industrial, em que se tornou impossível distinguir preguiça de facilidade.

 O que eu defendo é: não tente mudar isso sozinho. Por exemplo, leia o livro com seu cônjuge. Leia com sua equipe. E não se preocupe muito com esse peso em desconstruir uma cultura. Você perceberá que a cultura está mudando sem estar focado nisso e vai descobrir junto com a sua equipe que “fácil” não é sinônimo de “preguiçoso”.

Temos que fazer mudanças o mais rápido possível e isso não significa fazer algo muito dramático, mas sim algo simples e revolucionário, como tirar um cochilo. Eu descobri, por experiência própria, que talvez tirar uma soneca dobrará a produtividade em um dia e certamente dobrará a concentração.

Em 2010, a sociedade foi chamada de "sociedade do cansaço" pelo filósofo Byung-Chul Han. Estas formas de exaustão e de glorificação do esgotamento são características inerentes aos países ocidentais?

Acho que é uma característica inerente, embora pretendida, de países bem-sucedidos, especialmente países industrializados. A Revolução Industrial gerou um aumento de produtividade em 50 vezes, e não 50%. E eu acho que haverá muito o que fazer e muito mais do que possivelmente podemos fazer, de fato, uma fonte incansável.  Mas, apesar de ser inerente, não significa que temos que ceder e fazer disso o objetivo. 

Nós, como aqueles industriais antes de nós, temos que pensar cuidadosamente sobre como tentar extrair a vantagem do progresso em nossos dias, minimizando a desvantagem. Você não pode simplesmente entrar nesta nova era em que estamos vivendo e apenas abraçar tudo sem nem mesmo pensar nisso. Mas você também não pode viver com um tipo de mentalidade lúdica, como “vamos queimar as máquinas”, “vamos nos livrar deles” ou “vamos fazer tudo digital”. 

É preciso estabelecer limites, assim como aconteceu nas fábricas onde inventaram vários mecanismos para proteger as pessoas que estão usando as máquinas. Precisamos nos proteger da mesma forma. Se não criarmos limites, simplesmente não haverá limites. Então, não faça mais hoje do que você pode recuperar completamente amanhã. Essa é uma regra simples e que podemos usar.

No livro, você fala sobre essa cultura em que tudo funciona 24 horas por dia e algumas pessoas simplesmente não sabem relaxar. Como desconstruir isso?

Uma resposta a essa pergunta é não competir em uma corrida que você não quer vencer. Ou seja, não vencer na corrida errada. O que você quer? Acho que é fazer um ótimo trabalho. A chave para tentar negociar isso em uma cultura que talvez enfatiza mais outros temas de negócios é comunicar sobre o que você está tentando fazer e por que precisa revelar sua intenção. 

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Os melhores desempenhos não são das pessoas mais ocupadas. Claro que os melhores desempenhos têm uma boa ética de trabalho, sim. Mas o que os distingue? Existe a capacidade de se concentrar no que é importante e de fazer isso de forma consistente ao longo do tempo.

Portanto, essa é realmente a visão a ser desenvolvida para você mesmo. Não é para se tornar a pessoa mais ocupada. Isso não é prêmio algum. Em vez disso, você deve ser a pessoa mais valiosa possível. Talvez essa seja a visão de ser um essencialista, alguém que está realmente focado nas coisas que mais importam para que você crie muito mais valor. E você faz isso sem sofrer um burnout.

Você também diz no livro que precisamos nos libertar da pressão de sempre fazer tudo com perfeição. Como incorporar essa ideia em uma sociedade que não aceita erros?

Bem, precisamos mudar esse perfeccionismo. A ideia de que “tudo tem que estar perfeito agora” é diferente da ideia de “avançar para a melhoria contínua”. O perfeccionismo dificulta as pessoas começarem, progredirem e concluírem projetos. O perfeccionismo é um inimigo problemático. O que estou defendendo no livro é essa ideia de que a coragem de ser tosco significa que, em um contexto de trabalho, você está se encorajando para começar a agir. Mas também não é desculpa para mau desempenho, não é uma mensagem de excelência vazia. É apenas a maneira de chegar à excelência.

Uma das frases que adoro no livro é a ideia de criar um rascunho zero. A ideia do rascunho zero é escrever qualquer coisa. Não vai ser bom, mas a única maneira de conseguir algo ótimo é começar com algo ruim e torná-lo menos ruim. Quando aceitamos a imperfeição, quando temos a coragem de ser tosco, conseguimos dar o primeiro passo. E quem faz essas mudanças? Gestores e indivíduos irão abraçar isso. O que você quer é progressão sobre a perfeição. Em vez de tentar escrever o grande romance, você conhece o primeiro rascunho e escreve palavras em uma página.

Em 2020, o Brasil registrou recorde de concessão de benefícios previdenciários por transtornos mentais. Acredita que as empresas estão cientes da importância da saúde mental dos trabalhadores?

As empresas têm um paradigma ruim sobre a relação entre excesso de trabalho e saúde mental. Eles operaram com uma mentalidade industrializada, onde as pessoas são gerenciadas como máquinas, como engrenagens dentro deste sistema. Agora, é como se as corporações estivessem acordando para as limitações do paradigma do excesso de trabalho. Essa ideia de “sem dor, sem ganho” não é algo que se limita à academia, é algo que ainda pode permear esta celebração do ciclo ininterrupto 24 horas por dia, 7 dias por semana de trabalho. Isso é errado, é contraproducente.

Mas nós estamos em um ponto em que muitos líderes, em muitas organizações, que nem mesmo falavam da saúde mental, de repente estão dispostos a investir em programas de bem-estar, conversas sobre bem-estar, eventos, tentando agora olhar para essas políticas. Enfim, está mudando. A pandemia acelerou a digitalização e acelerou a conscientização sobre esse problema e, provavelmente, esses temas estão relacionados em algum grau. A maneira antiga poderia ser trabalhar mais duro. A nova maneira é tornar o trabalho mais fácil.

Sem Esforço

Autor: Greg McKeown

Editora: Sextante

Lançamento: 2021

Páginas: 272

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