Rodrigo Magalhães
Rodrigo Magalhães

Capacitar liderança é prioridade maior que transformação digital em 2022

Pesquisa da Great Place to Work aponta que preocupação com digitalização caiu de 42% em 2021 para 16%; para especialista, treinar líderes envolve desafios como ESG e gestão de pessoas

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2022 | 05h03

 

O desenvolvimento de líderes tem sido cada vez mais entendido como papel das empresas, principalmente em relação às soft skills. Ter as habilidades comportamentais certas para o mercado de trabalho não é exatamente uma novidade, mas as urgências e as novidades dos últimos dois anos fizeram com que elas precisem ser ainda mais aperfeiçoadas. 

Uma pesquisa realizada pela consultoria Great Place to Work ouviu mais de 2.600 respondentes e apontou que a prioridade número um para este ano, dentro da área de gestão de pessoas, é o desenvolvimento de lideranças. O assunto foi destacado como o mais relevante por 42,6% dos entrevistados. 

Em 2021, as prioridades eram comunicação interna, 54%, seguida de mudança do mindset da liderança, 53%, e transformação digital, 42%. Essa última, inclusive, perdeu espaço este ano. Em 2020, o tema era a preocupação de 41% dos entrevistados. Em 2022, apenas 16,5% elegeram o assunto como primordial para o ano. 

“Nos dois últimos anos, a mentalidade digital era uma prioridade para as empresas. O primeiro fator foi a pandemia, que acelerou a transformação digital. Neste ano, porém, esse dado não foi expressivo. Deixou de ser um grande desafio apontado pelas empresas”, explica Tatiane Tiemi, vice-presidente do Great Place to Work.

Agora, o que as empresas procuram é treinar os seus líderes para que eles consigam não apenas entregar o trabalho técnico e resultados para a organização, mas também cuidar dos funcionários, enquanto estão a par de temas caros ao mercado, como diversidade e inclusão, sustentabilidade e saúde mental, completa ela. “Agora ele precisa ser um superlíder.”

Segundo a pesquisa, as capacidades mais importantes do ponto de vista das empresas são: a resolução de problemas complexos, a habilidade de liderar e influenciar e a resiliência.

“Existe hoje uma sobrecarga para os líderes. Então, mais do que nunca, há a priorização das empresas em relação à capacitação, para que eles possam seguir e enfrentar desafios que aparecem nesse ambiente de incerteza. De fato, agora precisam de mais cuidado e investimento”, conta Tatiane.

Confira trechos do papo com a vice-presidente do Great Place to Work, Tatiane Tiemi.

Quando a pesquisa diz que a prioridade para 2022 é o desenvolvimento de lideranças, de que tipo se fala? No sentido técnico ou comportamental?

Nos dois sentidos. Os líderes são cobrados tanto pela questão técnica quanto pelo preparo emocional. O que a gente observa é que, com a complexidade dos tempos atuais, novas pautas entraram nesse escopo da liderança, exigindo maior qualificação e desenvolvimento desses líderes.

As soft skills têm entrado com força total. Temas relacionados à diversidade e inclusão e à sustentabilidade, principalmente com o ESG, também. Outro ponto é a atenção para a saúde mental, intensificada pela pandemia, pela forma que tivemos que nos relacionar nesses dois anos e principalmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) ter passado a considerar o burnout como uma questão ocupacional. 

Todas essas mudanças e novas demandas organizacionais certamente impactam na formação desses líderes, que, além de cuidar dos negócios, têm que cuidar das pessoas.

Como esse conceito de desenvolvimento de lideranças se relaciona com a inovação nas empresas?

É um desafio que observamos desde a pesquisa de 2020. Quando perguntamos o maior empecilho para a inovação, a maioria diz que é a mentalidade da liderança. O líder está à frente da empresa, ele é a personificação para a equipe, para o mercado, para os clientes. Se ele não estiver muito bem preparado em relação à transformação digital, à inovação e a todos os temas que permeiam o dia a dia, ele acaba sendo a barreira para que o processo de inovação aconteça. 

Quando o líder faz uma gestão adequada das pessoas e do time, ele consegue promover um ambiente de confiança e esse ambiente tem uma relação direta com a inovação. As pessoas quando se sentem amparadas pelo líder, quando entendem que um erro é visto como uma oportunidade de tentar algo diferente, elas tendem a sair da caixinha, a fazer diferente. 

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Esse ambiente é fundamental para as equipes terem coragem para a inovação, porque ela passa por tentativa e erro. Quando você trabalha com líder que não reconhece os erros não intencionais e necessários para um processo de inovação, ela não acontece. Mais uma vez, é algo que está na mão do líder. 

É papel das empresas o desenvolvimento de líderes? 

As empresas precisam intensificar essa capacidade do líder. Não é à toa que a maioria dos respondentes da pesquisa afirmou que essa é a prioridade de trabalho para este ano, porque agora ele precisa ser um superlíder: responder pelos resultados do negócio, cuidar das pessoas, responder a temas como diversidade e inclusão, sustentabilidade e saúde emocional. 

Existe hoje uma sobrecarga para eles. Então, mais do que nunca, há a priorização das empresas em relação à capacitação, para que eles possam seguir e enfrentar desafios que aparecem nesse ambiente de incerteza. De fato, agora precisam de mais cuidado e investimento. 

Que tipo de capacidade as empresas buscam desenvolver nos líderes?

Observando as cerca de 4 mil empresas que se submeteram aos nossos processos e pesquisas, nós observamos esse desafio de treinar líderes. Elas estão demandando soluções que ajudem os líderes a ser mais humanizados, para conseguir trabalhar com as adversidades. Os temas que elas mais buscam são: dar e receber feedback, como se comunicar de forma mais assertiva, como liderar de forma imparcial e como humanizar as relações com o intuito de construir maior confiança nas equipes.

Com isso em mente, nós desenvolvemos duas soluções com foco na capacitação de líderes. Uma delas é a Youleader, que se consolidou no último ano, e trabalhamos com 500 empresas. A outra é a Lidera, que é voltada para pequenas empresas, porque sabemos que toda empresa precisa desse tipo de treinamento.

Essas duas formações acontecem de forma híbrida e são voltadas a diversos aspectos, principalmente na gestão de pessoas mais humanizada. A demanda por gestão emocional também cresceu bastante. O foco acaba sendo soft skills, gestão de negócios e visão de mundo. 

Em “visão de mundo”, por exemplo, a gente faz uma atualização em relação a tudo o que está acontecendo no mundo. Fazemos uma curadoria dos acontecimentos e, então, levamos alguém com propriedade no tema para conseguir compartilhar sobre o assunto. Recentemente, levamos um especialista para treinar sobre o impacto da segurança da covid-19, como que o líder pode atuar nesse sentido.

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