Patrick Nicacio/Gama Academy
Fernanda Januzzi migrou da comunicação para a tecnologia. Patrick Nicacio/Gama Academy

Capacitar profissionais em tecnologia esbarra em custos, evasão e inclusão digital

Redução do déficit na área, que deve chegar a 300 mil vagas até 2024, passa por políticas públicas e apoio a jovens de baixa renda; segundo Brasscom, a desistência em cursos é de 70%

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2020 | 05h00

"Quando cursei Publicidade, em 2006, a gente ainda discutia os primeiros passos no Twitter. As disciplinas eram muito teóricas e não imaginava que o digital iria se expandir tão rápido”, lembra Fernanda Januzzi, que, desde o começo de sua carreira, procura se manter atualizada. Aos 33 anos, ela também é graduada em Relações Públicas, tem MBA em Gestão de Comunicação Digital e Redes Sociais e, recentemente, finalizou um curso de Marketing Digital na startup de educação Gama Academy.  

Profissionais como Fernanda, com especializações em tecnologia, são cada vez mais requisitados. O problema é que nem todos têm as mesmas condições e oportunidades para se capacitar para o mercado de trabalho, mostra um estudo desenvolvido pelo Centre for Public Impact (CPI) em parceria com a Fundação Brava e o BrazilLAB. Finalizado no ano passado, ele analisou estratégias para ampliar o ecossistema de profissionais digitais.

Baseado em dados públicos, o levantamento aponta que um dos maiores e mais urgentes desafios para a transformação digital no País é a formação e a qualificação de pessoas que trabalham com um ou mais aspectos da digitalização, desde programadores e técnicos de informática até gerentes de marketing e estrategistas. 

Estima-se que até 2024 sejam necessários mais de 300 mil profissionais na área. Atualmente, o País tem o maior déficit entre 10 avaliações na América Latina, ou seja, tem a maior diferença entre a demanda e a oferta. Os motivos, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, residem principalmente nos custos, na evasão escolar e no acesso ainda restrito às novas tecnologias.  

Dados do Inep mostram que apenas 46 mil pessoas se formam no setor por ano, seja em instituições públicas ou privadas. Além de ser insuficiente, a oferta apresenta relativo descasamento geográfico em relação ao mercado, visto que o Estado de São Paulo, que emprega 43% dos profissionais com perfil tecnológico, forma apenas 36%, por exemplo.

O trabalhador brasileiro está acima da média dos países pesquisados no estudo em relação à percepção da necessidade de se preparar para o futuro (74% no Brasil, contra 46% da média), mas também quanto ao entendimento de que o maior obstáculo para se desenvolver são os custos (54%, contra 33% da média de 11 países). 

“Hoje, vejo que precisamos estar em constante aprendizado e entender a lógica da tecnologia, sabendo dialogar entre as áreas, não necessariamente ser especialistas em tudo”, destaca Fernanda, que é coordenadora de Marketing do Laboratório Lustosa, em Belo Horizonte.

Evasão e inclusão digital

Aqueles que conseguem ingressar em uma universidade, muitas vezes, acabam não concluindo. Segundo a Brasscom, que reúne companhias de tecnologia da informação, a desistência nos cursos é de 70%. “O motivo tem raízes em questões socioeconômicas. Mesmo em instituições públicas, o jovem é compelido a procurar uma forma de se viabilizar economicamente”, explica Sérgio Paulo, presidente executivo da associação. 

De acordo com Letícia Piccolotto, presidente da Fundação Brava, o gap de profissionais digitais no Brasil se configura como oportunidade, visto que há uma maior oferta de vagas de trabalho, mas também pode trazer riscos econômicos e evidenciar a desigualdade social com o aumento de excluídos na revolução digital. 

“O custo da internet para as classes C, D e E, por exemplo, compromete muito a renda mensal per capita das famílias, segundo estudo do Brazil Lab. Muitas vezes, os planos adquiridos se restringem apenas ao acesso gratuito às redes sociais, o que compromete o uso para educação e cidadania”, ressalta Letícia, que também é CEO e fundadora do BrazilLab, primeiro hub de inovação GovTech do Brasil. 

Para Nuricel Villalonga, educadora e cofundadora da Alpha EdTech, escola de programação que paga para o aluno estudar e cujas inscrições da primeira turma abrem nesta sexta-feira, 6, a tecnologia é uma solução para ampliar, interagir e democratizar as oportunidades.

“Ela pode ajudar de várias formas, seja ampliando a interatividade ou criando plataformas de e-learning, de forma a levar o conhecimento até os cantos mais remotos do Brasil.”

Nuricel ainda reforça a necessidade de investimentos ao acesso à internet e a equipamentos digitais. “Isso significa que governo, empresas e a sociedade têm que trabalhar para viabilizar esse tipo de acesso. Não basta disponibilizar tablets. É preciso criar uma estrutura física onde o aluno possa realmente estudar com equipamentos que efetivamente são solução para aprendizagem.”

Resiliência econômica positiva

Dados da Brasscom mostram que, mesmo com a crise provocada pelo novo coronavírus, houve mais contratações do que demissões. “O setor apresentou um desempenho mais resiliente ao do mercado de trabalho nacional. Entre o final de 2019 e agosto de 2020, houve uma variação de 0,65% o que representou um acréscimo de 10.206 novos postos de trabalhos”, afirma o presidente executivo da associação, Sérgio Paulo Gallindo. 

Ele ainda acrescenta que o setor movimentou cerca de R$ 495 bilhões de receita bruta, o que equivale a 6,8% do PIB, e gerou 1.560.000 empregos em 2019.

Entre as startups, apesar dos cortes no início do ano, o mercado voltou a aquecer e já há muitas vagas abertas. "Há uma grande dificuldade para encontrar profissionais de tecnologia, especialmente desenvolvedores. Se não houvesse esse gap, muitas startups não estariam competindo entre si por talentos e poderiam crescer mais rapidamente”, ressalta Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (Abstartups).

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'A tecnologia é solução para ampliar e democratizar oportunidades', diz educadora

Para Nuricel Villalonga, é importante fomentar o conhecimento de múltiplas habilidades nos jovens, sem estigmas de humanas ou exatas

Entrevista com

Nuricel Villalonga, cofundadora da escola Alpha EdTech

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2020 | 05h00

Certa vez perguntei ao meu filho se ele queria uma herança ou um legado e ele optou pela segunda opção. Larguei tudo, inclusive o meu emprego como coordenadora de uma grande rede de ensino na capital paulista, para fundar a ONG Escola Aberta, em São José dos Campos (SP). Usei o que tinha aprendido, toda a minha bagagem, para ajudar a desenvolver estruturas que fossem acessíveis”, lembra a educadora Nuricel Villalonga. 

O projeto cresceu e, com o passar dos anos, se transformou no Instituto Alpha Lumen, que, entre seus mais de 30 projetos nacionais e internacionais, lança nesta sexta-feira, 6, a Alpha EdTech, uma nova escola de programação que irá pagar para o aluno estudar.

Em sete anos, já passaram mais de 70 mil jovens pelo Alpha Lumen e parceiros, como pesquisadores da Universidade Brown (EUA), MIT Brasil, Nasa, Câmara de Comércio Brasil Florida e Instituto Confúcio. Já a Escola do Instituto coleciona mais de mil medalhas em Olimpíadas nacionais, tem 98% de aprovação em universidades, sendo 30 internacionais, e ocupa a 103º posição no Enem, no Brasil.

Física, astrônoma e mestranda em Tecnologias da Inteligência Digital, Nuricel acredita que a tecnologia é uma importante solução para ampliar, interagir e democratizar as oportunidades. Confira a seguir trechos da entrevista.

 

Qual o foco de ensino do Instituto Alpha Lumen?

O Instituto Alpha Lumen é uma ONG, que conta com uma escola, e desenvolve projetos educativos para os jovens e crianças. A ideia começou porque existem muitas pessoas com altas habilidades e superdotação. São cerca de 10% da população, o que representa mais ou menos 5 milhões de estudantes. A maior parte deles nem é percebida e, muitas vezes, como são críticos e exigentes, são taxados de problemáticos. 

Mas, na verdade, poderiam ser a solução para o Brasil, caso tivessem oportunidade de trabalhar o potencial. A nossa ideia é tentar descobrir e alcançar esses jovens, principalmente aqueles que estão em situação de vulnerabilidade, e viabilizar oportunidades e suporte para que possam utilizar o talento e ser um agente transformador ao seu redor. 

 

Qual a metodologia de ensino e em que ela se difere de outras instituições?

A metodologia que usamos é a teoria da complexidade, do francês Edgar Morin. A ideia é que o indivíduo tem todos os aspectos interligados. Trabalhamos um núcleo comum, que é a base do conhecimento, e outras 43 eletivas para o jovem degustar possibilidades nas mais variadas áreas e múltiplas inteligências. Muitos fazem teatro, música, olimpíada de ciências e tecnologias. O grande diferencial é esse trabalho do indivíduo como um todo, cognitivamente e emocionalmente, com atividades socioemocionais, relacionais e sociais. 

Ou seja, sempre propomos reflexão sobre o que eles vão construir para a sociedade. Lá no instituto, ninguém cola em provas, porque para eles está muito claro que estão se construindo para multiplicar. Existe uma cultura séria de aprendizagem, em que todos são extremamente colaborativos. Não fomentamos competição e, sim, inspiração. Eles são parceiros e aprendem a estabelecer conexões e a lidar com o mundo. 

 

Essa metodologia desmistifica paradigmas como: ‘não sei matemática, farei humanas’?

Para alguém dizer que é isso ou aquilo, tem que conhecer. Como ela pode se definir se não conviveu com múltiplas oportunidades? No instituto, incentivamos isso. Temos, por exemplo, projetos que unem arte e tecnologia e, assim, vamos quebrando paradigmas. Tudo está conectado. Alguém pode ser bom em matemática e também ser um linguista extraordinário. Hoje, as profissões são muito fluidas e você tem que navegar pelos diferentes conhecimentos. A gente prepara jovens para que eles saibam aprender, articular e gerir conhecimento.

 

O Brasil perde talentos? O que precisa ser feito para isso mudar?

O Brasil perde muitas coisas ultimamente, dentre elas, os talentos jovens. Primeiro, porque não dá o mínimo de suporte para pesquisadores e cientistas, o que dirá para crianças com altas habilidades. Até alguns anos atrás, era tabu você dizer que uma pessoa é mais inteligente do que a outra, ou superdotada, porque todas tinham que ser iguais. Isso é uma grande mentira. As pessoas não são iguais e nem têm que ser. Elas precisam de oportunidades iguais e, com isso, cada uma irá se desenvolver e deixar um legado para o mundo.

 

A pandemia provocou mudanças no ensino?

Com a pandemia, percebeu-se que é importante viabilizar acesso à internet e às estruturas digitais para que as crianças possam se desenvolver e para que as instituições levem soluções que não estão ao alcance de todos. A pandemia trouxe essa certeza de que tem de haver uma transformação na educação do País, levando em conta efetivamente as tecnologias. Muitas escolas foram pegas de surpresa, não foi o nosso caso. A gente já vinha desenvolvendo essas linguagens há muito tempo e pra nós foi uma oportunidade de colocar em prática e expandir pelo Brasil. Agora estamos lançando o colégio online e a Alpha EdTech. Acho que a sociedade entendeu que a área digital veio para ficar.

 

Como a tecnologia pode contribuir para melhorar a educação?

A tecnologia pode ajudar de várias formas, tanto na estruturação de cursos, deixando-os mais versáteis, interativos e acessíveis, quanto para conectar as pessoas. Ou seja, é possível usar estruturas tecnológicas para ampliar a interatividade com o conhecimento, mas também usá-la como plataformas de e-learning, de forma a chegar até os cantos mais remotos do País. A tecnologia pode democratizar o conhecimento e criar estruturas educacionais sem fronteiras.

Para isso, é necessário que se invista em acesso a internet e a equipamentos digitais. Isso significa que governo, empresas e a sociedade têm que trabalhar para viabilizar esse tipo de acesso. Não basta disponibilizar tablets. É preciso criar uma estrutura física onde o aluno possa estudar com equipamentos que efetivamente são solução para aprendizagem.

Você não consegue levar uma equipe de profissionais para uma cidade do interior ou comunidades ribeirinhas, Mas, pela tecnologia, é possível. Não existe essa bobagem de que os professores serão substituídos. A interação humana será sempre essencial. A tecnologia é uma solução para ampliar, interagir e democratizar as oportunidades.  

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