George Wylesol
George Wylesol

Como conseguir fazer as coisas quando você não quer fazer nada

Estar na sua melhor forma pode ser difícil neste momento de pandemia e home office; veja dicas de como recuperar o ânimo e ter foco e produtividade

Cameron Walker, The New York Times

04 de agosto de 2021 | 10h21

Em abril, eu estava me sentindo bem. Reservei horário numa piscina pública e passei a nadar várias vezes por semana. Estava ansiosa para voltar a escrever meus artigos quando meus filhos voltassem à escola. Com as vacinas, até fiz alguns planos de viagem.

Três meses depois, caí em depressão. A piscina não mais exigia reservas, mas não fui mais desde junho. Entre as variantes da covid-19 e os incêndios florestais no Oeste dos EUA, perdi o ânimo de viajar com a família. E quando meu editor me pediu para fazer uma pesquisa para um artigo sobre motivação, tudo o que consegui pensar foi "ai, não!".

Motivação é a energia que nos leva a agir - e não sou a única pessoa a achar difícil encontrar essa motivação. Alguns de nós sofreram um burnout total depois de mais de um ano de perdas, dor e problemas com a pandemia. Outros se sentem mais como estou me sentindo - nada está terrivelmente errado, mas não conseguimos encontrar inspiração. Seja qual for a situação em que nos encontramos, um exame mais profundo da motivação pode nos dar mais incentivo para avançar, não só no dia a dia, mas num futuro incerto.

As forças que movem

Quando você procura uma motivação, ajuda refletir a respeito dividindo-a em duas categorias, disse Stefano Di Domenico, pesquisador na área de motivação e professor na Universidade de Toronto Scarborough.

Em primeiro lugar há a motivação controlada, quando você sente estar dominado por forças externas como as bonificações do final do ano ou prazos a cumprir - ou as recompensas e punições interiores como culpa ou agradar as pessoas. É difícil ficar motivado quando você não está no controle da situação. Com frequência, quando uma pessoa diz estar sem motivação, “isso significa que está fazendo alguma coisa porque é obrigada, não porque deseja”, disse o Dr. Di Domenico.

O segundo tipo, a motivação autônoma, é o que você está buscando. É quando age por iniciativa própria, ou porque tem uma afinidade natural com a tarefa em mãos ou está fazendo alguma coisa porque sabe que vale a pena.

Queria ter mais essa sensação. Mas ao tratar desse assunto para o artigo, descobri que a motivação afeta tantas áreas da nossa vida - escola, trabalho, exercício, voluntariado, a saúde, que não sabia por onde começar. Precisava começar modestamente. Então, comecei com uma xícara de chá.

Recompensas pequenas e na hora certa

Buscar recompensa não é o melhor para uma motivação de longo prazo. Mas diversos estudos sugerem que compensações pequenas, imediatas por uma tarefa a cumprir melhora a motivação e o prazer.

Lora Park, professora de Psicologia na Universidade de Buffalo, disputava maratonas antes de ter filhos, mas agora é difícil encontrar tempo para se exercitar durante o dia. Quando vai se exercitar na esteira à noite, aproveita o tempo para assistir a Netflix e assim a atividade fica mais agradável.

Eu tentei algo similar. Descobri minha xícara favorita que só uso enquanto escrevo e faço um chá especial ou um chocolate quente para degustar diante do computador.

Encontrar sua motivação

O chá apenas ajuda até um certo ponto. O psicólogo clínico Richard M. Ryan, um dos dois cientistas que desenvolveram um enfoque bem conhecido para compreender a motivação chamado teoria da autodeterminação, encoraja os que buscam uma motivação duradoura a darem um mergulho profundo nos seus valores.

O Dr. Ryan, que é professor da Universidade Católica Australiana em Sydney, diz que quando você se conecta com coisas que considera mais importantes do que aquelas que necessita fazer - mesmo as que te aborrecem, você se sente mais no controle das suas ações. O que você ama no seu trabalho? Quais valores básicos ele atende?

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Escrever sobre seus valores é um bom começo, disse Tanaya Winder, poeta que realiza palestras sobre motivação e que vive Albuquerque. Tanaya dá workshops sobre como se reconectar com o seus senso de propósito, e geralmente faz seus estudantes escreverem sobre o que lhes dá ânimo.

Ir mais longe, juntos

Tentei escrever algumas palavras que têm relação com meus valores. Uma que me veio à mente foi conexão - uma outra parte chave da motivação. A professora Tanaya diz que encontra motivação na sua comunidade e sugere que devemos considerar como a nossa motivação está ligada às pessoas em volta, seja nossa família ou nossa equipe de basquete.

Sentindo-se deprimido no trabalho? Contate os colegas para colaborarem num projeto, ou peça um conselho específico importante para sua área de competência. Ou organize uma sessão de brainstorming (veja mais sobre o tema no vídeo abaixo), um encontro depois do trabalho ou alguma outra atividade para criar essa conexão.

Relações sociais como estas são cruciais para a motivação, disse a Dra. Park, especialmente depois do isolamento forçado por causa da pandemia. “Sem essa conexão fundamental, a motivação começa a enfraquecer”.

E essa conexão ajuda outros também. “Deixar que alguém saiba que você está pensando nela é suficiente para ativar sua motivação e lembrar a elas que você se preocupa com ela”, acrescentou.

Recentemente ela enviou uma nota de agradecimento espontânea para uma professora, sua colega, por ter dado uma aula inspiradora. A professora respondeu dizendo que o e-mail recebido levantou seu ânimo.

Um jogo amistoso de motivação

As pessoas também se motivam umaS àS outraS por meio da competição. Num estudo realizado em 2016, pesquisadores agruparam estudantes num programa que durou 11 semanas, separados em pequenas redes sociais on-line: alguns grupos eram competitivos, outros ofereciam suporte. Os estudantes dos grupos competitivos se exercitaram com muito mais frequência do que aqueles das redes sociais de suporte, disse Damon Centola, autor do estudo e professor na Universidade da Pensilvânia.

As pessoas no nosso entorno nos influenciam mais do que imaginamos - assim utilize essa influência buscando uma dose de competição quando precisar de motivação para exercitá-la, disse o Dr. Centola, cujo livro, Change: How to Make Big Things Happen (Mudança: Como fazer coisas grandes acontecerem, em tradução livre], analisa como as redes sociais impulsionam a mudança.

Novas aventuras atléticas também são importantes. Um estudo realizado em 2020 sugere que experimentar novas atividades ajudam no hábito da prática de exercícios.

Eu precisava de um pouco dos dois: não voltei à piscina, mas soube de uma meia maratona que era realizada entre amigos e senti necessidade de me dar um empurrão, assim procurei uma trilha de corrida e comecei a treinar.

Tenha um pouco de compaixão

Quando se trata de escrever, contudo, a competição apenas me estressa. Meu monólogo interno se torna um instrutor de aeróbica malvado que me diz coisas como “você é preguiçosa e ingrata” ou “termine seu artigo ou nunca vai trabalhar de novo”.

O que não ajuda. Quando você se trata com compaixão isso funciona muito mais eficazmente do que ficar se mortificando, disse Kristin Neff, professora de psicologia educacional na Universidade do Texas, em Austin. “As pessoas acham que vão se envergonhar disso”, mas a autocompaixão ajuda-as a ficarem focadas nos seus objetivos, reduz o medo do fracasso e melhora a autoconfiança, o que também aumenta a motivação, disse ela.

Para começar, Neff sugere que você pare e se pergunte o que você está precisando. Talvez você perceba que é hora de colocar um novo foco no seu objetivo, ou que você está pronta para pedir ajuda. Às vezes reconhecer que está com dificuldades e que isso faz parte da vida é tudo o que precisa.

Autocompaixão não significa que você amoleceu ou perdeu seu impulso. Em seu novo livro, Fierce Self-Compassion: How Women Can Harness Kindness to Speak Up, Claim Their Power and Thrive (Autocopaixão poderosa: Como mulheres podem usar a bondade para se expressar, se autoafirmar e ter sucesso, em tradução livre), ele destaca um estudo com estudantes universitários com péssimo desempenho em testes de vocabulário. Os alunos que foram incentivados a se compadecer de si mesmos, após o teste passaram a estudar mais e se saíram melhor na prova que veio depois, em comparação com aqueles que foram aconselhados apenas a melhorar sua autoestima ou não receberam nenhuma instrução.

Você não está sozinho

E eu tinha muitas falhas com as quais precisava aprender, de modo que numa corrida pela manhã, dei uma chance à autocompaixão. O que eu precisava? Em primeiro lugar, exercício e mais sono. Poderia pensar em novos enfoques para este artigo e pedir conselhos para alguns colegas. Então, entendi o que eu realmente precisava fazer: prestar mais atenção.

Olhei à minha volta. Mesmo ao amanhecer, eu não estava sozinha: vi pessoas passeando com seus cachorros, trabalhadores fazendo manutenção do local, pessoas a caminho do trabalho. E pensei nas pessoas nos hospitais e nas suas casas começando um novo dia, gostassem ou não. A ideia de todos nós tentando e errando e tentando de novo me levou ao fim da corrida e ao fim deste artigo. E se você ainda o está lendo, também deve ter encontrado motivação suficiente para chegar até aqui. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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