Sanar/Divulgação
Iago Araújo trocou engenharia civil pela carreira no design gráfico. Sanar/Divulgação

Conhecimento que vai além da academia ganha força dentro das empresas

Busca por educação, contudo, é um diferencial competitivo para lidar com novas tecnologias, afirmam especialistas

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 05h00

No começo de 2018, Iago Araújo sentia-se pronto para adentrar de vez no mercado de trabalho como designer gráfico, mesmo que ainda estivesse cursando Engenharia. Foi quando o seu caminho se cruzou com o da Sanar, e ele foi contratado como estagiário. A startup exige formação universitária apenas para esse cargo e para profissionais da área de saúde que atuam como coordenadores. No mais, busca nos candidatos valores compatíveis com os da companhia.

“DNA vencedor, revolucionar, diversidade e se divertir são os quatro valores que balizam muito como a gente traz a pessoa aqui. Essa cultura é mais forte do que ter competência técnica”, diz Erica Vasconcelos, head de People na Sanar. Ela explica que, atualmente, o processo seletivo olha muito mais para o match da pessoa com os requisitos da vaga e princípios da empresa, sendo mais importante estar apto do que ter um diploma para apresentar. Da tecnologia ao comercial, do marketing ao financeiro, do júnior ao sênior, é possível trabalhar na startup sem ter, prioritariamente, cursado o ensino superior. É a busca pelas chamadas soft skills que está cada vez mais evidente nos recrutamentos.

Se adequar a essa realidade também exigiu treinar os recrutadores da Sanar para que eles analisassem os currículos sem vieses e pela lente dos valores da companhia. Dessa forma, pouco importa onde e como Araújo aprendeu tudo que sabe sobre design gráfico. A bagagem dele permitiu que, após seis meses, ele fosse efetivado e, com isso, decidisse largar a Engenharia. E até agora, ele afirma não sentir a necessidade de fazer um curso superior na área em que atua. “Minhas referências estão produzindo conteúdo fora desse cenário acadêmico, consigo me conectar e adquirir muito conhecimento sem estar nesse ambiente.”

O CEO do Zro Bank também levou para a empresa o que funcionou para ele. Na hora de contratar, ele olha muito mais para o perfil da pessoa, o quanto ela tem vontade de aprender, do que para o diploma em si. “Depende do cargo, mas a gente vê o nível de curiosidade, criatividade, proatividade. Posso contratar um financeiro apenas com curso avançado de Excel, que sabe fazer BI. Falo muito que para atuar na minha empresa basta fazer um curso de um mês ou menos para aquele setor específico”, conta Pereira Neto.

Aprender sempre

Além da ausência de diploma universitário, Pereira Neto e Araújo têm em comum o desejo pelo conhecimento, por estarem sempre em contato com pessoas e assuntos que vão contribuir para o crescimento pessoal e profissional. E mesmo que os especialistas ouvidos pelo Estadão sejam um tanto céticos quanto a não exigência de diploma ser uma tendência e tornar-se cada vez mais comum fora do universo das startups e empresas de tecnologia, ele reconhecem que há características profissionais que vão além disso.

“Só ter graduação em si não diz muita coisa. Vai demorar, mas talvez meu filho passe por um novo modelo de formação que valorize outras skills”, afirma Mariana Torres, especialista em carreiras e recolocação. “É muito importante estar atualizado e sempre estudando, independente de ser curso técnico, livre, graduação, à distância ou de graça.”

Para Antonio Salvador, da Mercer Brasil, cenários em que o certificado de ensino superior é secundário são exceções, mas sempre vão existir. Mas “a busca por educação é o diferencial competitivo”, principalmente para lidar com novas tecnologias e inteligência artificial, diz. O presidente da ABRH acrescenta que aprender outro idioma também é fundamental, “não só para conseguir emprego, mas ter acesso” a bons conteúdos abertos de bibliotecas internacionais.

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É possível seguir uma carreira executiva sem ter um diploma universitário

Presidente de banco digital optou por formação ‘mão na massa’, mas especialistas ressaltam importância da formação universitária para o mercado

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 05h00

O diploma universitário ainda é valorizado no mercado de trabalho, mas também é possível seguir uma carreira satisfatória sem ter passado pelos bancos da faculdade. E engana-se quem pensa que estamos falando de empregos que exigem pouca qualificação. Nada disso. O Estadão encontrou um CEO de um banco digital e um líder de branding em uma startup que abandonaram o curso superior por entenderem que a carreira estava mais promissora do que a jornada acadêmica. Eles encontraram outras maneiras de se desenvolverem e adotam uma máxima comum à dos especialistas: estudar é sempre fundamental.

Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicado no começo de setembro apontou que 21% das pessoas entre 25 e 34 anos tinham diploma de ensino superior no Brasil em 2019. Em comparação, essa realidade era de 45%, em média, nos países-membros da entidade. No documento, o órgão destacou o impacto que o ensino superior pode ter na renda das pessoas: aquelas com o certificado ganhavam mais do que as que haviam concluído apenas o ensino médio.

“Continua super válido. Acontece que o diploma antes era algo que poucos tinham e, por isso, era um grande diferencial. Agora, ele virou um elemento básico para ter acesso ao mercado de trabalho, onde um set de conhecimentos é importante, até para trabalhar em ambientes que antes eram mais operacionais, como fábricas”, avalia Antonio Salvador, líder de negócios de career da Mercer Brasil, que oferece consultoria a empresas.

Ao mesmo tempo em que se tornou requisito básico, o diploma universitário deixou de ser determinista. “A gente ainda tem um mercado de trabalho, no mundo CLT, que valoriza o diploma, mas ele cada vez menos é uma ‘sentença’ do que você vai fazer na vida profissional”, afirma Mariana Torres, especialista em carreiras e recolocação. Dessa forma, é comum encontrar profissionais que atuam em uma área completamente distinta daquela em que se formou.

Na visão de Paulo Sardinha, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), a exigência e, consequentemente, a busca por um diploma universitário relacionam-se com o desemprego, que no Brasil é vivido por 13,7 milhões de pessoas. “Quanto maior o desemprego, mais posso puxar a régua para cima, mas aí corre-se o risco de contratar alguém com qualificação muito alta para uma demanda que não é tudo isso e haver frustração.” Para ele, de forma geral, a certificação “ainda constitui um valor fundamental e grande”.

No País, a valorização de um curso superior se pauta também na busca por um status social melhor, com um emprego que supra as necessidades financeiras e promova bem-estar. Enquanto isso, nações desenvolvidas já providenciam parte disso à população, o que torna a ambição por um diploma menos latente. Mas um porcentual maior vai à universidade - e quem não vai tem a possibilidade de ser bem sucedido. No exterior, é mais comum do que por aqui um profissional ter um salário satisfatório e ser feliz em uma profissão que não exige curso universitário.

“Isso acontece muito lá fora porque a estratificação entre o salário mais alto e o mais baixo é menor, há menos faixas e elas são mais próximas”, explica Sardinha, citando como exemplo Suécia e Noruega. “A distância entre o menor salário e o maior não é grande, então as pessoas aspiram de maneira mais comedida. Além disso, principalmente na Europa, há a proteção do Estado, (a pessoa) não vai se preocupar com previdência.” É o contexto geopolítico influenciando o valor dado ao diploma.

Os especialistas são unânimes em afirmar que, mais do que obter uma certificação de curso superior, estar dentro de uma faculdade possibilita outras experiências de vida que são valorizadas pelo mercado. Iniciação científica, o desenvolvimento de habilidades interpessoais, a chance de fazer estágio ou trainee são algumas das portas que a universidade pode abrir. Porém, mesmo que alguém opte por não seguir esse caminho, há diferentes possibilidades para se desenvolver pessoal e profissionalmente, com uma carreira bem sucedida. A premissa é nunca parar de aprender.

Sem diploma e em ascensão

Mariana comenta que a disparidade salarial no Brasil é um problema e leva a um modelo de mercado cruel em que todos almejam chegar a um cargo muito elevado, sendo que não há vaga para todos. “Mas as pessoas estão enxergando novas formas de ser felizes, que é poder empreender”, afirma. Um exemplo é Edisio Pereira Neto, que aos 16 anos fundou uma empresa de câmbio. Poucos anos depois, ele iniciaria a faculdade de Administração, um caminho natural até mesmo pela profissão do pai. Mas sabia que, pessoalmente, a melhor escolha era interromper os estudos. Hoje, aos 32 anos, ele é CEO do banco digital Zro Bank.

“Faltando dois períodos, eu estava num ritmo de trabalho intenso e tinha mais responsabilidade com a minha família, pois meu pai havia desacelerado. Percebi que o trabalho estava abrindo muito mais portas do que a faculdade”, diz Pereira Neto. Apesar de considerar o diploma importante para quem quer construir uma carreira como executivo, ele avalia que “a faculdade é um período muito longo na vida do braisleiro”, que teoricamente precisa ser cumprido antes de ir para o mercado de trabalho, além de “tratar as coisas de forma muito superficial”.

Com orgulho da trajetória profissional, ele conta que conseguiu montar um banco sem ser especialista em tecnologia ou mercado financeiro, mas dedicando-se a dezenas, talvez centenas, de cursos voltados às áreas de interesse. Oratória, matemática financeira, análise de dados e mercado internacional são apenas alguns exemplos. Ao vislumbrar uma boa oportunidade no passado, ele priorizou a expansão da empresa, que mais tarde foi vendida para um grande grupo de câmbio. “Tudo isso aconteceu porque consegui focar 100% no negócio. Se tivesse dividido a atenção com a faculdade, poderia ou não ter acontecido, ou demorado muito mais”, afirma o executivo.

Pensamento semelhante teve Iago Araújo, de 27 anos, que atualmente é líder de branding na Sanar, startup brasileira na área de educação médica. Filho de pai engenheiro e mãe professora, ele iniciou o curso de Engenharia Civil em 2016 sem grande vontade, mais interessado no ambiente onde estava inserido. E o jovem logo percebeu que a faculdade não era para ele. “Não encontrei nenhum curso que, aos meus olhos, era ideal, e a metodologia de ensino funciona muito pouco para o jeito como eu aprendo”, relata ao lembrar que se sentia “desconectado”.

Em meio à controvérsia acadêmica, ele descobriu o design gráfico. Depois de se juntar com alguns amigos que tinham em comum a torcida por um time de futebol para criar um perfil do clube do Twitter e um blog, Iago ficou responsável pela parte gráfica e de redação. Sem conhecimento teórico nem prático, ele investiu em aprender. “O que funcionou muito para mim foi consumir tutorial, artigo, buscar pessoas que eram referência na área e no setor específico de esporte. Acabei descobrindo a melhor forma como eu aprendo, que é metendo a mão na massa e assistindo vídeo com velocidade duas vezes aumentada.” Livros e toda a gama de conhecimento que se pode encontrar na internet ajudaram a formar o profissional que ele é hoje.

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