Bill Mayer/The New York Times
Bill Mayer/The New York Times

Consultores espirituais querem salvar o escritório da falta de alma

Ainda que haja perigos em levar elementos de espiritualidade ao trabalho, guias remodelam rituais sagrados para corporações e para seus funcionários esgotados

Nellie Bowles, The New York Times

11 de outubro de 2020 | 05h05

No começo era a covid-19, e a tribo de colarinhos brancos alugaram a sua roupa, porque agora os dias de expediente para eles eram um vazio disforme, e todos os seus rituais haviam desaparecido. Novas rotinas tomaram o lugar das antigas, mas as rotinas eram espalhadas, e havia caos a respeito de qual seria a melhor maneira de sair de uma reunião no Zoom, de como integrar um estagiário ou encerrar uma semana de trabalho.

A deriva pode ainda encontrar um propósito, pois novos prelados corporativos vieram formalizar a vida do trabalho remoto. Eles têm nomes diferentes: consultores rituais, designers sagrados, anunciantes centrados na alma. São formados em faculdades de estudos religiosos. O seu negócio consiste em tomar emprestado da tradição religiosa a fim de trazer a riqueza espiritual para o mercado corporativo.

Em tempos menos complicados, as escolas religiosas enviavam os seus alunos recém-formados para liderar congregações ou conduzir pesquisas acadêmicas. Agora, há uma vocação mais voltada para o escritório: o consultor espiritual. Os que escolheram este caminho fundaram agências - algumas para fins lucrativos, outras não - com nomes semelhantes: Sacred Design Lab, Ritual Design Lab, Ritualist. Eles mesclam a linguagem misteriosa do sagrado com a linguagem igualmente misteriosa da consultoria de administração para oferecer aos clientes uma gama de serviços espiritualmente modulados, da arquitetura ao treinamento de funcionários e ao design ritual.

Seu objetivo maior é amenizar o capitalismo agressivo, dando espaço para a alma, e encorajar os funcionários a perguntar se o que eles estão fazendo é bom em um sentido mais elevado. Depois de observar a justiça social ser prontamente absorvida na cultura corporativa, eles querem ver se há mais empresas prontas para a fé.

“Vimos algumas marcas entrarem no espaço político”, diz Casper ter Kuile, um dos fundadores do Sacred Design Lab. Citando um relatório do Vice. “O próximo espaço em branco na publicidade e nas marcas será a espiritualidade”.

Antes da pandemia, estas agências conseguiram se fixar ajudando companhias com design - refinando os seus produtos, os espaços físicos e as marcas. Também ofereceram consultoria a respeito de estratégia, fluxo de trabalho e gestão de funcionários. Com os trabalhadores digitais fechados em suas casas desde março, surgiu uma nova oportunidade.

Os empregadores estão encontrando os seus trabalhadores atomizados e agitados, e procuram orientação para trazê-los de volta juntos. Agora os consultores sagrados ajudam a inaugurar novos rituais para dias de expediente disformes e tentando dar aos empregados rotinas repletas de sentido.

Ezra Bookman fundou no ano passado a Ritualist, que se define como “uma consultoria de butique que transforma companhias e comunidades por meio da arte do ritual” no bairro nova-iorquino do Brooklyn. Ele apresentou rituais de pequenas firmas de eventos como a conclusão bem-sucedida de um projeto - ou se uma delas fracassar, um funeral.

“De que maneira ajudamos as pessoas a processar a dor quando um projeto fracassa e as encorajamos a seguir em frente?” disse Bookman.

As mensagens no feed da startup no Instagram parecem uma espécie de cardápio para empresas que querem comprar rituais operacionais à la carte: “Ritual para a compra do seu nome de domínio (isto é, seu pequeno lote de terra virtual nas nuvens)”. “Ritual para quando você recebe um e-mail da LegalZoom avisando que você foi oficialmente registrado como LLC (Companhia Ltda)”

‘As pessoas citariam o ciclo da alma’

A tendência do consultor sagrado pode ser liderada pelos fundadores da Sacred Design Lab - ter Kuile, Angie Thurston e Sue Phillips. Eles se conheceram na Escola Religiosa de Harvard, onde continuam filiados como primeiros Membros do Ministério da Inovação, e fundaram sua organização como uma ONG em 2019.

Sua formação é variada. Ter Kuile, que mora no Brooklyn e coapresenta um popular podcast sobre Harry Potter, escreveu um livro sobre como transformar práticas comuns cotidianas - ioga, leitura, passear com o cachorro - em rituais sagrados”. Thurston, que mora em Alexandria, Virginia, trabalhou na descoberta de uma conexão espiritual entre pessoas de religiões diferentes. Sue Phillips, de Tacoma, Washington, é ministro ordenada na tradição Universalista Unitária.

O que eles têm em comum é um acordo segundo o qual as instituições religiosas tradicionais não estão funcionando e a cultura corporativa em grande parte não tem alma.

Na Divinity School de Harvard, está se estudando a tendência a distanciar-se da religião organizada há dezenas de anos. Seu consenso é que enquanto a participação nos serviços formais está em uma baixa histórica, as pessoas ainda procuram um sentido e espiritualidade. Dudley Rose, o decano associado para estudos do ministério, observou que os espaços seculares estavam funcionando surpreendentemente bem para atender a este desejo.

“As pessoas estavam encontrando o que identificavam como necessidades espirituais, mas em organizações que não tinham nenhuma relação espiritual aparente,” diz Rose. “Como o Ciclo da alma. As pessoas citavam o Ciclo da Alma.”

Ter Kuile, Thurston e Phillips consideravam isto desse modo: se parte do trabalho religioso consiste em  encontrar pessoas necessitadas onde quer que elas estejam, os inovadores espirituais deveriam procurar no lugar de trabalho.

“Independentemente do que você e eu possamos achar a respeito disso, o fato é que as pessoas estão aparecendo no lugar de trabalho com estas grandes carências em si mesmas, no que se refere a pertencimento e conexão com o além”, disse Thurston.

O trio do Sacred Design Lab usa a linguagem da fé e da igreja para falar dos seus esforços. Eles falam de religião organizada como uma tecnologia que produz sentido. “A questão que colocamos é: ‘Como vocês traduzem as antigas tradições que deram às pessoas o acesso a práticas que fazem sentido, mas em um contexto que não está centrado na congregação?’” diz ter Kuile.

A ONG afirma que está pensando a respeito de planos sagrados para companhias como o Pinterest, IDEO e a Fundação Obama. Phillips não vê as corporações como substitutas da religião organizada - mas ela disse que vê uma oportunidade para as companhias mostrarem às pessoas alguns dos sentidos que elas costumam buscar em igrejas, templos, mesquitas e coisas afins.

Ela fala do seu trabalho como um pastor faria. “Passamos muito tempo servindo de testemunhas e fazendo o acompanhamento dos nossos clientes”, afirmou. Ouvimos as suas histórias. Queremos entender as suas vidas. Queremos entender sua paixão e seus anseios”.

‘Ainda é um escritório’

Evidentemente existem perigos em levar elementos de espiritualidade ao escritório. A mistura da linguagem corporativa com a religiosa pode ser estranha. Por exemplo, é assim que ter Kuile descreveu o seu trabalho para uma companhia de tecnologia que não quis se identificar: “Nós pesquisamos e criamos um trabalho conceitual sobre 'A Alma do Trabalho' a fim de estimular ideias corajosas sobre como a centralidade na alma continuará crescendo como elemento fundamental do futuro do trabalho”.

Outro desafio é o fato de muitos trabalhadores já terem se tornado devotos segundo seus próprios termos, em seu próprio tempo, e não têm absolutamente fome de atividades baseadas na alma entre 9h e 17h.

E: É difícil exortar os trabalhadores a darem um sentido transcendental às suas atividades profissionais quando, ao mesmo tempo, estes trabalhadores podem ser demitidos. “Isto pode ser feito de uma maneira incorreta, e quando isto acontece causa dano a eles”, disse Thurston. “Por exemplo, ‘Como podemos estar em profunda comunidade se eu posso demitir você?”

Thurston citou uma série de possíveis problemas para tentar solucionar: a criação de uma religião para o lugar de trabalho, mesclar gestão com emoção, receber um pagamento em espiritualidade. “Mesmo que isto seja bem feito e o local de trabalho passe a se centrar realmente na alma, ainda é um escritório”, disse Thurston. “Estes são os desafios”.

As companhias que contratam consultores rituais podem achar que estão trazendo aos trabalhadores uma pequena vantagem. Mas os que estão por trás do movimento esperam uma revolução maior.

Os trabalhadores conseguiram um sucesso calculado recentemente em pressionar seus empregadores para que tratem do problema do racismo sistêmico - algumas empresas estão pagando também o feriado de Juneteenth, 19 de junho, Dia do fim da escravatura, e investindo em empresas de risco de negros - e de outras minorias - e os consultores de design sagrado se perguntam se os funcionários poderão também começar a exigir benevolência espiritual.

Esta possibilidade foi o que atraiu Bob Boisture para os consultores de divindade. Ele é o diretor executivo do Instituto Fetzer, uma fundação sem fins lucrativos de Michigan que afirma que sua missão é “ajudar a construir os alicerces espirituais de um mundo de amor”, e que ajuda a financiar o Sacred Design Lab. Boisture espera que o trabalho do grupo permita futuramente que os funcionários de empresas articulem queixas e parem projetos ou práticas que consideram lucrativas, mas imorais.

“Hoje nós prestamos atenção aos lucros de uma empresa; mas a questão mais profunda é se a empresa enobrece ou rebaixa a existência humana,“ disse Boisture. “Nós encorajamos os empregados a despertar preocupações morais na conversação de negócios”.

Aprofundando a prática do Zoom

Em um dia de expediente em casa, diante de um computador enquanto as reuniões vão se sucedendo, os projetos são recebidos e arquivados, não há nenhuma diferença. Toda atividade é a mesma, fisicamente.

Tenho necessidade de rituais. Todos os dias, me visto, calço os sapatos, faço o café, o despejo em uma caneca e digo aos outros dois moradores da casa que estou indo para o trabalho e os verei mais tarde. Então ando um pouco em círculos e depois me acomodo diante de uma escrivaninha, em um canto da nossa sala de estar, a poucos passos de distância. Esta é a minha viagem até o escritório conturbada pelo coronavírus e é como ajudo minha mente a se dar conta de que o dia de expediente começou.

Se o meu chefe disse que estaríamos instituindo um exercício de respiração de um minuto em grupo à noite para assinalar o fechamento dos nossos laptops, ou o começo de cada reunião cheirando todos juntos um dente de alho, iria gostar? Iria.

É fácil confundir a linha entre rotina e ritual. A que categoria pertence, por exemplo, o hábito de  fazer uma ducha e olhar para o teto por cinco minutos depois de encerrar a principal tarefa do meu dia? Será que importa o rótulo, se achamos a ação essencial?

No entanto, para ser técnica, Kathleen McTigue, ministra Universalista Unitária e mentora de ter Kuile, dá uma definição. Ela descreve os rituais como rotinas elevadas, com intenção, atenção e repetição estabelecidas.

Kursat Ozenc participou do ritual corporativo por algum tempo, como designer de produtos da SAP, a gigante do software. Ele escreveu “Rituals for Work” [Rituais para o Trabalho, em tradução livre] no ano passado, e em janeiro publicará uma espécie de continuação, “Rituals for Virtual Meetings” [Rituais para Reuniões Virtuais, em tradução livre]. Pedi suas recomendações sobre como aprofundar minha prática no Zoom.

Ozenc aconselhou a incorporação de interrupções sensatas. Ele sugeriu começar uma reunião com um momento de silêncio. Recentemente, ouviu falar do ritual em que se aspiram odores, em que cada um na reunião pega uma especiaria comum da cozinha, talvez uma canela, e a cheira ao mesmo tem para ter uma experiência co-sensorial. Ele espera incorporar isto à sua orientação como uma maneira de unir mais as pessoas.

“No mundo físico, experimentamos as mesmas sensações juntos, a mesma temperatura, o mesmo cheiro de comida no fogo”, disse Ozenc.

Phillips tinha algumas outras ideias. Ela sugeriu usar a estrutura de reunião repetitiva que pode ser calmante para os participantes. Por exemplo, começar a reunião de cada equipe com as mesmas palavras, uma espécie de encantamento corporativo.

Outros sugeriram que cada funcionário acenda uma vela no início da reunião, ou pegue um objeto comum que todo mundo deve ter em casa.

Jeffrey Lee, o bispo da Diocese Episcopal de Chicago, ajudou a organizar um retiro de três dias no ano passado com ter Kuile e outros. O objetivo do retiro era permitir que empreendedores espirituais fizessem um brainstorm com líderes religiosos tradicionais. Ele descreveu um participante como “uma experiência em que um designer criou poderosos rituais para executivos”.

Lee disse que ficou feliz em descobrir o impulso religioso atuando, ainda que em lugares em que o atrativo final é o lucro. “Estamos realmente conscientes de que estamos do lado da sombra da observância religiosa, um declínio verdadeiramente histórico”, ele disse, “mas há alguma boa nova aqui pelo fato de as pessoas ansiarem por rituais”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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