Romulo Fialdini
Romulo Fialdini

Cursos tecnólogos impulsionam carreiras com ensino ‘mão na massa’

Escolha de 13% dos brasileiros no ensino superior, cursos tecnológicos capacitam alunos com grades compactas; para professor, agilidade e praticidade são vantagens

Bianca Zanatta, Especial para o Estadão

12 de dezembro de 2021 | 05h06

Um levantamento do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) apontou que, até 2023, o Brasil deve gerar mais de 401 mil postos de trabalho que exigem qualificação, mas apenas 100 mil serão preenchidos. Num País assolado pelo desemprego, a estimativa assusta, mas não surpreende. Uma outra pesquisa realizada pela Abres (Associação Brasileira de Estágios) mostra que apenas 5% da população brasileira conclui o ensino superior e 40% dos recém-formados não conseguem vagas em sua área.

Para acelerar a mitigação desse gap, especialistas em educação enaltecem potencialidades dos cursos tecnológicos – ou tecnólogos –, que fazem parte do ensino superior, mas têm duração média de dois ou três anos, menor que o bacharelado, por exemplo. Hoje, no Brasil, os cursos tecnólogos são escolha de 12,99% das pessoas que ingressam no ensino superior, depois do bacharelado (67,32%) e da licenciatura (19,27%).

“As graduações têm os mesmos direitos e deveres e são reconhecidas pelo MEC. O que diferencia o tecnólogo é a ideia de ‘fast track’ (agilidade e resultados mais rápidos)”, explica Luiz Antonio Tozi, diretor da Fatec (Faculdade de Tecnologia) de São José dos Campos (SP), que oferece formação superior em tecnologia da informação (TI), análise e desenvolvimento de sistemas, desenvolvimento de software multiplataforma e gestão da produção industrial, entre outras.

A faculdade foi a primeira a ser reconhecida, recentemente, como membro da Iniciativa CDIO, sigla em inglês para Conceber, Desenvolver, Implementar e Operacionalizar, que reconhece práticas educacionais inovadoras para formar as próximas gerações de engenheiros, ficando ao lado das maiores instituições de ensino de engenharia do mundo, como o MIT (Massachusetts Institute of Technology). 

“O objetivo é tornar a educação da engenharia mais prática”, diz Tozi. “Não podemos mais só dar aula. Temos que fazer projetos trazendo o contexto do mundo real, do cotidiano. É o tal do aprender fazendo. A gente acha que teoria é só teoria como reflexo de uma cultura bacharelesca, mas precisa saber e conseguir aplicar.”

O diretor fala, porém, que o curso tecnólogo não funciona para quem só mira o tempo mais enxuto da formação. “Precisa de amadurecimento acadêmico para chegar à graduação”, ele alerta. “Tem pensamento crítico, é de nível superior. O perfil que tem mais sucesso não é o do aluno que só pensa em acelerar o processo do aprendizado para entrar mais rápido no mercado de trabalho, mas sim o que quer fazer uma construção de carreira com um olhar mais flexível, dinâmico, ágil e moderno.”

Por outro lado, Tozi diz que certas empresas ainda precisam vencer o preconceito de que tecnólogos não têm bagagem suficiente. “Muitas não entendem as mudanças que estão acontecendo e, na pré-seleção das vagas, colocam restrição a cursos que não conhecem”, ele afirma. “Nós derramamos no mercado profissionais de altíssimo nível, que estão ocupando cargos importantes. As empresas modernas sequer perguntam (qual curso o candidato fez). Elas avaliam o perfil do profissional para a vaga.” 

Gastronomia técnica de A a Z

Voltado para o mercado profissional brasileiro, o curso Cordontec, da cobiçada escola de culinária francesa Le Cordon Bleu, que tem unidades em São Paulo e no Rio de Janeiro, também segue a metodologia da prática. Com duração de 12 meses na modalidade intensiva e 24 meses na extensiva, a formação foca no tempo na cozinha.

Enquanto nas faculdades de gastronomia geralmente formam-se grupos de 3 ou 4 alunos que se revezam no manuseio dos ingredientes e preparos (enquanto um aluno limpa o peixe, o outro prepara o molho, por exemplo), a escola francesa defende que, para a teoria valer, o aluno tem que fazer tudo. 

No caso do Cordontec, a grade é direcionada à realidade das cozinhas brasileiras de restaurantes, hotéis e bares, e desenvolve habilidades de aplicação profissional em cozinha salgada, confeitaria, panificação e serviço. A ideia é que o aluno tenha uma vivência real do segmento. 

A estudante Julia Arantes Aragão, de 23 anos, conta que já havia completado uma faculdade de gastronomia com aulas a distância na pandemia, mas achou que teria pouco peso no currículo. Ao pesquisar os cursos da Le Cordon Bleu, optou pelo Cordontec por ser mais técnico e completo. 

“É um curso estruturado, você consegue ter uma noção muito boa tanto da cozinha francesa quanto do mundo. Isso para mim é essencial”, diz ela, que está na primeira parte da formação e começou a trabalhar no restaurante Benza, do chef Pablo Oazen. “Diariamente eu aprendo coisas que consigo aplicar no meu trabalho. Consigo auxiliar os chefs com técnicas, entender a cozinha de uma forma que nem na faculdade consegui entender.”

Oportunidades

Diretora pedagógica e mantenedora da faculdade Hotec, Beatriz de Carvalho fala que a instituição trabalha com diferentes cursos de qualificação profissional, entre os técnicos, os superiores e os de pós-graduação. Os tecnólogos incluem especialidades como gastronomia, tecnologia em hotelaria, gestão de turismo, tecnologia em eventos e tecnologia em estética e cosmética.

“O foco principal é a formação em áreas específicas, privilegiando a parte prática da profissão”, afirma. “Assim como o bacharelado, é reconhecido pelo MEC como curso superior, possibilitando ao aluno a sequência dos estudos em cursos de pós-graduação e também prestar concursos públicos.”

A diretora reitera que algumas empresas e pessoas ainda confundem a nomenclatura tecnólogo com técnico, que não é um curso superior. “Com o aumento da oferta de cursos superiores de tecnologia, porém, a tendência, cada vez mais, é a valorização desse profissional”, ela sublinha, revelando que o curso tecnólogo em estética e cosmética, por exemplo, nasceu da sugestão de um professor avaliador do próprio MEC. 

“Ele nos mostrou que a área da hospitalidade tinha muita relação com a da estética e cosmética, pois navios, hotéis e similares possuem, em sua maioria, spas e serviços de estética como atrativos”, diz, exemplificando oportunidades para os profissionais.

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