Direito para quem precisa. De negócios

Modernização e globalização exigem advogados cada vez mais especializados; quem se qualifica sai na frente e pode ter vaga garantida  

Clara Massote, de O Estado de S. Paulo,

18 de janeiro de 2011 | 17h25

Esqueça a imagem de jovens engravatados atuando na Vara da Família ou na área cível ou penal. A carreira de direito no País está mudando, acompanhando as alterações na economia nacional e a globalização. Esse quadro passa, claro, pela evolução do perfil do advogado - um passo necessário para garantir um posto de trabalho num mercado onde sobram esse tipo de profissional.

"O direito no Brasil está se sofisticando", afirma o sócio da área empresarial do escritório Pinheiro Neto, Guilherme Leite. "A premissa foi a Constituição de 1988, que estabeleceu as regras do jogo. Depois dela, a abertura de mercado, as privatizações e a globalização deram o tom da atuação do advogado atual, cada vez mais específica."

Trata-se de uma demanda natural do mercado: setores como internet, meio ambiente, energia, fusões e aquisições e comércio internacional fazem crescer a procura por advogados que tenham conhecimento técnico nas respectivas áreas. São as chamadas áreas "quentes" da profissão.

Segmentada. As oportunidades estão, principalmente, nos grandes escritórios. O professor Clóvis Castelo Júnior desenvolveu uma pesquisa sobre a organização do trabalho nestes grupos. "A prática da profissão tem, atualmente, um caráter praticamente industrial. Os escritórios estabelecem contratos complexos e, para isso, precisam de uma equipe multidisciplinar, capaz de cumprir de forma segmentada, as etapas do trabalho."

A pesquisa - apresentada como dissertação de mestrado na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EAESP-FGV) - analisa o perfil do advogado contemporâneo. "Ele deve ter uma boa qualificação e se especializar, de preferência com uma pós-graduação no Brasil ou no exterior." Segundo Castelo, a remuneração costuma ser maior, mas o fluxo de trabalho também. "É uma vida de executivo, de workaholic", conta.

De acordo com o sócio responsável pela área trabalhista do escritório Machado Meyer, Sólon Cunha, os grandes escritórios costumam promover a capacitação dos funcionários de maneira "orgânica". "Normalmente, recrutamos estagiários que vão tendo a oportunidade de se aperfeiçoar em uma área ao longo dos anos. Depois de formado, investimos em cursos de especialização, inclusive no exterior."

A segunda opção, de acordo com Cunha, é procurar por talentos no próprio mercado.

Setores. Dentre as inúmeras novas áreas de atuação da advocacia, algumas se destacam. O direito eletrônico, por exemplo, movimentou 30 mil decisões judiciais somente no ano passado. "São questões ligadas à violação de direitos autorais e privacidade, comércio virtual e vazamento de informação", conta o advogado Renato Opice Blum, sócio do escritório especializado em direito eletrônico e que leva seu nome.

Blum, que leciona no MBA em direito eletrônico da Escola Paulista de Direito, diz o que considera necessário para atuar na área. "Interesse, antes de qualquer coisa, além de conhecimento jurídico e técnico do assunto."

Camilla do Vale Jimene, de 30 anos, ingressou na Opice Blum antes mesmo de se formar. "Tinha um pouco de experiência em direito do trabalho, e hoje atuo em uma área do direito eletrônico ligada à trabalhista." Ela é responsável pelo setor de segurança da informação, e afirma que o trabalho é desafiador. "Nosso cotidiano é interpretar as leis que já existem à luz da esfera virtual e eletrônica."

Fabrício Soler é advogado, mas não hesita na hora de pisar em chão de fábrica, visitar canteiro de obra ou se embrenhar em plantação de cana. "A teoria, na nossa profissão, é fundamental, mas não resolve. É preciso saber onde se aplica a legislação e entender, por exemplo, como funciona uma hidrelétrica", diz o profissional da área ambiental.

O interesse pela área é anterior à graduação. "Cheguei a cursar engenharia, mas optei pelo direito e já no quarto ano fiz um estágio junto à Promotoria de Justiça de Meio Ambiente." Os passos seguintes foram uma pós em meio ambiente, outra no setor energético e um MBA de infraestrutura. "Sempre há demanda para gente qualificada", diz.

Hoje, além de atuar em um grande escritório, Soler é Membro da Associação Brasileira de Advogados Ambientalistas (ABAA) e da Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil-SP. "Sou engajado", brinca.  

Tudo o que sabemos sobre:
Direitoadvogadoscarreira

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.