Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Educação financeira ajuda profissionais a cuidarem do bem-estar na carreira

Como problemas financeiros podem afetar saúde mental e produtividade, programas de empresas auxiliam colaboradores a planejar finanças e evitar dívidas

Larissa Burchard, Especial para Estadão

21 de novembro de 2021 | 05h00

Desde comprar um presente de Natal até mudar de carreira, a organização financeira se tornou essencial para o bem-estar dos brasileiros. Um estudo feito pela Creditas e pelo Ibope Inteligência apontou que 27% dos brasileiros entrevistados afirmaram que as dívidas impactam na sua autoestima. Dos mil entrevistados, 39% têm insônia por causa das contas atrasadas. Pensando nisso, colaboradores e empresas têm buscado cursos e consultorias de educação financeira para organizar o presente e o futuro profissional.

A demanda é uma consequência da instabilidade gerada pela pandemia, explica Viviane Sales, vice-presidente da Creditas Work. A dificuldade para pagar um tratamento de saúde ou comprar o básico para a alimentação são alguns dos problemas que afetam mentalmente e fisicamente os trabalhadores. A situação, muitas vezes, resulta em casos de depressão e ansiedade. “Sabemos que um colaborador que está endividado ou com problemas financeiros tem mais chance de ter esses problemas”, diz.

A educação financeira chega como uma maneira de ajudar o profissional a se organizar financeiramente e, assim, alcançar o bem-estar. “As pessoas têm uma necessidade e um interesse de ter informações sobre educação financeira e saber como utilizar melhor o salário”, comenta a executiva. Não apenas para cuidar de dívidas, mas para planejar as finanças e pensar no futuro, mudar de carreira ou fazer um investimento.

A personal trainer Juliana Paiva sabe como é passar por dificuldades financeiras. Em 2019, ela trabalhava em dois empregos, um em uma academia, onde já estava havia 11 anos, e outro na área de reabilitação em um laboratório, onde começou fazia pouco mais de 15 dias. Com a pandemia, ela foi demitida da academia. Então, decidiu que era o momento de reorganizar a vida.

“Eu me vi em outra carreira e falei: ‘Tenho que fazer um planejamento financeiro porque senão eu não vou ter dinheiro para pagar as contas até o final do ano, né?’”, conta Juliana. Além do problema financeiro, a personal trainer queria mudar a carreira profissional. No laboratório, descobriu que queria seguir na área de reabilitação, estudar mais e fazer um mestrado.

Saber quanto se gasta mais do que se ganha, como investir, como fazer uma reserva de emergência, todas essas questões Juliana aprendeu em um curso de educação financeira que encontrou na internet. Com o conhecimento, ela conseguiu reservar parte de sua renda e ter um tempo para estudar. Assim, se tornou uma pesquisadora no Laboratório de Psicofisiologia do Exercício (LaPE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“É um ponto que eu acertei porque sei que tenho horários certos para estudar”, comenta, “Eu tenho esse planejamento. Eu sei o quanto de dinheiro quero que entre, o quanto eu quero guardar, tudo certinho para dar certo.”

Ajuda que vem das empregadoras

Para que mais pessoas como Juliana não precisem passar por isso sozinhas, as empresas também podem criar um programa de consultoria para ajudar os funcionários que precisam se organizar financeiramente. De acordo com Viviane Sales, as empresas são um ponto de confiança para os trabalhadores e têm acesso a produtos financeiros e parcerias mais vantajosas. 

Na Copersucar, cooperativa brasileira de açúcar, os funcionários e suas famílias têm acesso ao Programa de Apoio Pessoal (PAP), feito em parceria com a Alelo e a Auster. Criado em 2020, o programa oferece gratuitamente três serviços: psicológico, jurídico e de educação financeira. 

Josimar de Andrade, gerente de Recursos Humanos da cooperativa, explica que o PAP é uma ferramenta que ajudou nos momentos de isolamento social devido à pandemia. Sem o contato pessoal, com luto pela perda de pessoas queridas ou dificuldades para manter a família, a empresa percebeu a demanda por uma assistência mais próxima aos problemas da equipe. “As pessoas tiveram que aprender a trabalhar em casa, não terem mais o contato e ficarem naquela situação: eu vou pegar covid? Não vou pegar? Então, esses três pilares foram o que nos ajudou”, explica Josimar.

O PAP atua nos três eixos dando consultorias, dicas e ajudando os trabalhadores nos seus problemas pessoais e financeiros. Os interessados podem passar pelas três consultorias ou apenas uma, tudo de forma sigilosa. “É uma coisa que ajuda o empregado a vir trabalhar com a cabeça boa. Todo mundo já teve dívida um dia e quem tem sabe como é trabalhar preocupado em pagar alguma coisa”, comenta o gerente.

Mas antes de ter um programa, é preciso ter uma abertura e estar preparado para conversar sobre dinheiro, como esclarece Viviane. “Você tem que pensar se os colaboradores já estão confortáveis de falar sobre isso ou não.” Por isso, os programas devem ser focados em qual o principal desafio dos funcionários em questão de educação financeira, um trabalho importante a ser feito pelo RH.

Seguindo o caminho dos gastos

Apesar da demanda crescente de educação financeira, um dos primeiros obstáculos para aprender é saber como começar. Para Anderson Maia, líder de sucesso do cliente (customer success) da Paketá - plataforma digital de empréstimos -, muitas pessoas não estão acostumadas a fazer controle de gastos e, quando fazem, têm dúvidas se fazem da maneira correta. “Assim como qualquer habilidade, quando aprendemos uma coisa nova, a gente fica sempre se duvidando”, explica Maia.

De acordo com o empresário, o primeiro passo no caminho do bem-estar financeiro é o controle. Seja na planilha ou no papel, é preciso observar e controlar o que acontece com o salário logo que entra. “É ser honesto consigo mesmo, chegar ali no fim do mês e ver se aquilo que você gastou faz sentido e se faz sentido gastar novamente no mês seguinte”, esclarece. 

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Sabendo para onde o dinheiro vai, o segundo passo é pensar no futuro guardando dinheiro e fazendo uma reserva de emergência. “Quando a pessoa está em dia com o bem-estar financeiro, tem uma reserva de emergência para aguentar alguns meses, ela não tem tanto problema de ansiedade”, diz Anderson. Para o empresário, é um momento de lembrar que as situações mudam e se preparar poupando, seja para uma aposentadoria ou para um investimento.

A educação financeira também vai além da vida pessoal de cada um. Ter bem-estar financeiro significa entender sobre como a economia pode afetar o dia a dia. Por isso, Anderson recomenda buscar conhecer mais sobre inflação, taxa Selic e Bolsa de Valores, por exemplo. Saber como acontecimentos e notícias impactam na vida é um bom caminho para se preparar para imprevistos. “É tomar uma decisão sabendo que aquilo vai impactar o futuro.”

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