Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Educação financeira se torna aliada na promoção da qualidade de vida do funcionário

Empresas como Mobly e Hurb oferecem serviços de previdência privada e consultoria especializada em finanças por meio de startups de saúde financeira

Bruna Klingspiegel, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2022 | 05h00

Agora, mais do que nunca, a valorização do bem-estar físico e mental dos colaboradores tem feito parte da estratégia de atração e retenção de talentos dentro das empresas. Mas do que adianta promover jornadas de trabalho mais flexíveis se os colaboradores passam noites sem dormir pensando nas dívidas e não conseguem organizar seu futuro financeiro?

À medida que as empresas investem na criação de ambientes mais saudáveis e inclusivos, a busca pelo bem-estar dos colaboradores, por meio de estratégias eficientes e de baixo custo, também tem sido uma demanda pautada pelos RHs. O olhar mais estratégico para o bem-estar financeiro dos funcionários tem integrado o programa de benefícios de grandes empresas como Mobly e Hurb.

“Internamente, a gente sempre conversou sobre saúde financeira, mas percebíamos que só a informação não era o suficiente”, conta Livia Callejas, diretora de gente e gestão na Mobly. Nos primeiros meses de 2020, a empresa recebeu uma proposta da Onze, fintech (startup financeira) focada em previdência e saúde financeira. Após meses de análise e pesquisas com os colaboradores, o benefício começou a circular na organização e hoje conta com a participação de 40% dos funcionários.

Com a Onze, os colaboradores podem contratar a previdência privada, que inclui um valor também depositado pela empresa mensalmente, e têm acesso a um aplicativo no qual conseguem tirar dúvidas sobre previdência e saúde financeira, incluindo consultoria gratuita com planejadores financeiros especializados e acesso a uma plataforma de aprendizado. 

“Quando a gente tem uma equipe especializada, um parceiro com credibilidade que pode dar todo o suporte adequado, o funcionário consegue soluções mais assertivas e tem muito mais liberdade para discutir temas que, muitas vezes, ele não quer que a empresa saiba”, explica Lívia.

 

Endividamento e produtividade

As dívidas continuam tirando o sono de muitos trabalhadores brasileiros. Em dezembro de 2021, o número de famílias que relataram estar endividadas atingiu 76,3%, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. 

Jaqueline Souza, analista de treinamento do Hurb (antigo Hotel Urbano), conta que, ao observar que o estresse financeiro entre os colaboradores só aumentava desde o início da pandemia, a busca por recursos que auxiliassem na organização financeira começou a fazer parte da estratégia de benefícios do Hurb. O objetivo, segundo Jaqueline, não era só oferecer serviços mais práticos (como adiantamento de décimo terceiro) mas também ter algo voltado para a educação, a conscientização e o planejamento dos funcionários.

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“A gente viu que o endividamento também acabava impactando na produtividade. A pessoa acabava ocupando parte do tempo dela preocupada sobre como se organizar financeiramente ou como alocar recursos para pagar as dívidas, por exemplo”, explica.  

Em março deste ano, o Hurb iniciou a parceria com a Pilla, startup que oferece, em conjunto com o RH das empresas, soluções financeiras para os trabalhadores. A partir de um aplicativo, os colaboradores podem acompanhar sua vida financeira e ter consultorias com especialistas. A Pilla oferece uma série de serviços que incluem a avaliação da situação financeira, criação de planejamento e adiantamento de salário em casos de urgência.

Do outro lado, a empresa tem acesso a uma série de relatórios com informações gerais sobre a porcentagem de endividados e quantos colaboradores têm uma reserva de emergência, sempre preservando a privacidade dos casos.

Quebrar tabu e educar de forma constante

Falar sobre dinheiro ainda é um tabu, explica Henrique Soares, CEO e cofundador da Pilla, e por isso é difícil as pessoas terem um retrato realista da situação financeira em que vivem, principalmente no que diz respeito ao endividamento. “A partir de uma ajuda externa, que não tenha uma relação tão direta com o RH da empresa, as pessoas ficam mais confortáveis para conversar e se abrir de verdade”, conta Soares.

Para Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), falar sobre educação financeira é tratar de mudança de comportamento. A busca pela autonomia financeira proporciona aos trabalhadores o rompimento de uma série de vícios comportamentais e auxilia na tomada de decisões mais conscientes, diz ele. 

“Não dá para a gente achar que basta ensinar uma pessoa a investir que ela vai estar educada financeiramente. É muito mais sobre entender como melhorar a nossa relação com o dinheiro.”

Com as redes sociais, as pessoas estão mais expostas a informações, mas o bombardeio de estratégias milagrosas para investir ou sair do vermelho muitas vezes dificulta o acesso dos trabalhadores a uma informação mais clara, diz. Isso demanda um programa de educação financeira dentro das empresas mais bem estruturado, defende Domingos. “Não se educa ninguém financeiramente apenas com ações pontuais, é um processo longo e árduo”, completa.

* Estagiária sob a supervisão da editora do Estadão Carreira e Empreendedorismo, Ana Paula Boni 

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