Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Empresas aderem à licença-paternidade estendida

Organizações adotam até 6 meses de licença remunerada para pais, enquanto lei prevê apenas 5 dias; corporações veem aumento de engajamento e proatividade dos colaboradores

Bianca Zanatta, especial para, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

Desde que o Programa Empresa Cidadã possibilitou estender a licença-paternidade para 20 dias – 15 a mais do que o previsto em lei no Brasil –, o benefício foi adotado por 29% das empresas do País, de acordo com pesquisa da Mercer Benefícios. E a tendência é que a adesão cresça. Segundo o Guia Salarial 2021 publicado pela Robert Half, 71% dos profissionais consideram o pacote de benefícios antes de aceitar uma proposta de emprego. A licença-paternidade estendida é apontada como uma das principais demandas. 

O advogado especializado em Direito Civil Émerson Tauyl diz que a extensão do período de licença vem na esteira da plataforma de valorização da participação paterna na vida da criança. “O próprio legislador estabeleceu incentivos para a formulação e a implementação de políticas públicas voltadas à relevância dos primeiros anos de vida e desenvolvimento infantil”, explica Tauyl, referindo-se à Lei n.º 13.257/16, sancionada no governo de Dilma Rousseff, que dispõe sobre políticas públicas para a primeira infância.

Olhar para os colaboradores de forma completa foi o que levou a multinacional Ingredion a estender a licença-paternidade para 20 dias nas áreas operacional e administrativa. “Acreditamos que esse movimento da companhia reforça a paternidade ativa e responsável”, afirma Santiago Bellotti, diretor de recursos humanos e excelência operacional para a América do Sul.

O coordenador de logística Pedro Guedes, de 34 anos, conversou com o RH da empresa assim que soube da gravidez da mulher. “Eles me falaram sobre a licença estendida e minha participação na vida da Manu (hoje com 7 meses) começou já durante a gravidez, com curso de pais e acompanhamento de consultas”, conta.

ara ele, compartilhar os momentos iniciais da vida da filha foi fundamental não só para ter maior conexão com ela, mas também para entender o quanto a mãe se desgasta. “Eu adaptei a minha rotina toda à da bebê para compartilhar tudo com elas. Hoje não imagino como seria se não tivesse tirado esses dias.”

Além do básico

Enquanto muitas companhias ainda se apegam à licença-paternidade mínima, há aquelas que vão bem além dos 20 dias do Empresa Cidadã. A Mastercard, por exemplo, oferece 16 semanas remuneradas para que os pais possam acompanhar os primeiros meses de vida do bebê. Já a Salesforce concede três meses e, após o término da licença, a volta é gradual, com semanas reduzidas no primeiro mês. O colaborador também pode escolher o momento ideal de usar o benefício, até um ano após o nascimento, para ter a opção de fazer um revezamento nos cuidados com a criança.

No caso da Atlas, empresa de geração de energia renovável, além de arredondado para 30 dias, o benefício foi estendido aos funcionários de outros países onde a corporação atua – Chile, México, Uruguai e Estados Unidos.

“A empresa sabe da sua responsabilidade como agente de mudança na desconstrução de vieses, aumentando a conscientização e responsabilidade compartilhada nos cuidados com a criança”, fala Lilian Moreira, especialista em RH da Atlas no Brasil. O impacto positivo é evidente. “O que percebemos foi um aumento do engajamento e da proatividade dos colaboradores e busca por melhores resultados.” 

No Google, a política Baby Bonding Leave, válida para todos os escritórios da empresa no mundo, concede pelo menos 12 semanas de licença com remuneração integral. Na gigante de tecnologia, todos os funcionários são contemplados – pais biológicos e adotivos. A ideia é que todos tenham a oportunidade de criar laços com o novo membro da família.

Receio inicial

“Como assim, vou ficar sem trabalhar com a empresa precisando crescer?”. Essa foi a primeira questão que passou pela cabeça de Jean Alves, de 30 anos, engenheiro de software da startup Loft que se tornou pai no início da pandemia. A empresa adotou a licença parental estendida de até seis meses para pais e mães com o objetivo de igualar o custo dos funcionários e reduzir a diferença entre gêneros. 

Apesar do receio inicial, tudo mudou quando ele pegou Gabriel, hoje com dez meses, no colo. A mudança de paradigma emocionou inclusive avô paterno, que se lembrou da própria experiência. “Ele me contou que quando eu nasci, ele chegava do trabalho e eu já estava dormindo”, fala. “Estamos vivendo algo inédito e foi a licença que possibilitou isso.”

À frente do RH da empresa, a diretora Renata Feijó observa que os colaboradores se sentem pertencentes a algo maior. “Poder usufruir da licença faz com que eles sintam que é uma empresa que acolhe e isso é fundamental para construir uma relação recíproca de longo prazo”, afirma, lembrando que a política é a mesma para casais homoafetivos e pais adotivos.

Pioneira mundial na implantação da licença-paternidade de seis meses, a Diageo, detentora de marcas como Johnnie Walker e Smirnoff, assume o papel, no ambiente das organizações, de ousar em ações afirmativas.

Defensor ferrenho dessa agenda, o diretor de marketing para produtos Reserve, Guilherme Martins, sentiu na pele o que define como “experiência transformadora” com a chegada do segundo filho, Joaquim, agora com 1 ano: “Voltei a trabalhar com um olhar mais sensível e ciente de que, como executivo, tenho, sim, de disseminar isso dentro da organização”, disse Martins.

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