Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Escritório híbrido veio para ficar e pode ser mais disruptivo que trabalho 100% remoto

Anúncios recentes de empresas não tecnológicas indicam a permanência do modelo híbrido, segundo especialistas; combinar logística do escritório e agenda de funcionários é um dos desafios

Jena McGregor, The Washington Post

07 de abril de 2021 | 10h18

O local de trabalho pós-vacina contra o coronavírus está tomando forma e, para muitos, será um modelo híbrido, permitindo mais trabalho remoto, mas com expectativas claras de que alguns dias da semana serão no escritório.

Os especialistas no mundo do trabalho estão se preparando para um novo conjunto de convulsões pós-pandemia, em alguns casos mais transformadoras do que a mudança não planejada para trabalhar de casa em março do ano passado, com alguns fazendo esforços para evitar os erros pré-pandêmicos do trabalho remoto.

“De várias maneiras, será mais disruptivo do que quando todo mundo passou para o trabalho remoto”, disse Brian Kropp, vice-presidente de pesquisa do Gartner.

Uma nova tecnologia de videoconferência será adotada para ajudar trabalhadores presenciais e remotos a se sentirem em igualdade de condições. Os gerentes passarão por treinamentos extensivos para lutar contra o instinto de dar tratamento preferencial aos trabalhadores presentes no escritório. A logística será coordenada para garantir que aqueles que vão ao escritório não cheguem e encontrem o prédio vazio, talvez definindo horas ou dias centrais para o trabalho presencial.

Nas últimas semanas, um número crescente de grandes empregadores vêm anunciando planos de retorno ao trabalho, delineando uma mistura de trabalho presencial e virtual que está sendo descrita como algo permanente ou um “novo normal”.

A presidente-executiva do Citigroup, Jane Fraser, disse na semana passada em um memorando que a maioria dos trabalhadores seria definida como híbrida, com a expectativa de que trabalharão pelo menos três dias no escritório.

A Ford disse em 17 de março que 30 mil de seus trabalhadores de escritório nos Estados Unidos terão permissão para trabalhar em um modelo híbrido flexível, no qual deverão estar no local para certas reuniões ou projetos, mas poderão ficar em casa para trabalhos independentes.

A firma de investimentos TIAA disse que a grande maioria de seus trabalhadores será híbrida, e a Target anunciou que encerrará o contrato de aluguel de um de seus edifícios-sede no centro de Minneapolis, depois de dizer aos funcionários em fevereiro que a maioria dos trabalhadores de escritório seguirá uma abordagem híbrida.

Os anúncios, embora ainda nebulosos nos detalhes, marcam um ponto de inflexão nos esforços das empresas para retornar ao escritório.

“A pergunta número um que recebo das empresas é: como fazer o planejamento híbrido da força de trabalho?”, disse Tsedal Neeley, professora da Harvard Business School e autora do livro Remote Work Revolution. “Eles têm que fazer seu planejamento sobre como será o futuro pós-pandemia”, disse ela. “Esta é a esperança, é o otimismo, baseado no fato de que muitas pessoas estão sendo vacinadas”.

Durante o primeiro ano da pandemia, uma série de empresas de tecnologia, como o Twitter, anunciou que deixaria os funcionários permanentemente remotos, sugerindo previsões de um futuro virtual, com imóveis comerciais abandonados e uma liberdade geográfica que permitiria que os funcionários trabalhassem de qualquer lugar.

Em dezembro, o Google convocou pelo menos três “dias de colaboração” por semana no escritório e dois dias fora. Já a Microsoft disse no outono passado que trabalhar remotamente até metade do tempo seria considerado padrão. (Na semana passada, a Microsoft disse que começaria a trazer trabalhadores de volta ao campus em 29 de março).

Modelo híbrido veio para ficar

No entanto, os anúncios mais recentes de empresas não-tecnológicas dão a indicação mais clara de que o modelo híbrido veio para ficar, dizem especialistas.

“Quando essas outras empresas, que historicamente foram mais conservadoras ou têm muito menos mentalidade de startup, quando essas empresas começam a fazer essa mudança, elas são um termômetro”, disse Kropp. “Elas mostram que tudo isso está ficando mais comum”.

As empresas dizem que estão respondendo às expectativas dos funcionários. Em janeiro, 44% dos trabalhadores americanos que estão trabalhando remotamente pesquisados pela Gallup disseram que preferem trabalhar em casa, mesmo que as restrições sejam suspensas, enquanto 39% disseram que gostariam de voltar ao escritório.

A Lockheed Martin, que estima que entre 40% e 45% de sua força de trabalho seria “multidimensional” - seu termo para híbrido -, colocou seus gerentes em cerca de 20 horas de treinamento, algumas das quais focadas em “mentalidade de crescimento”, uma expressão cunhada pela pesquisadora Carol Dweck que se refere às habilidades de alguém com potencial para mudar e crescer.

“É um novo mundo e você tem que aceitá-lo como tal”, disse Greg Karol, diretor de recursos humanos da Lockheed Martin. “Éramos uma empresa com apenas 3% de trabalho remoto em tempo integral um ano atrás. A passagem para essa nova fase foi muito rápida, não esperamos que todos sejam especialistas”.

'Residente, remoto ou híbrido'

Sara Wechter, chefe global de recursos humanos do Citigroup, disse que a empresa vai começar a convidar funcionários da América do Norte a voltar ao escritório em julho e espera que cerca de 50% possam retornar ao escritório em meio período em setembro. A empresa designou cada cargo como “residente”, “remoto” ou “híbrido”, com a grande maioria caindo na última categoria.

“Não consigo imaginar o Citi dizendo que vamos ficar totalmente remotos”, disse Wechter. Mas, se no passado o padrão era que os funcionários trabalhassem no local, no futuro o padrão será híbrido, disse ela. O memorando de Fraser foi um esforço para deixar claro que “somos melhores juntos”, disse Wechter. “No fim das contas, provamos que podemos trabalhar num esquema híbrido. Podemos trabalhar em casa. Tem que haver um equilíbrio”.

Na TIAA, espera-se que cerca de 85% de sua força de trabalho trabalhe entre dois e quatro dias no escritório. É um modelo muito melhor, disse o diretor de pessoal da TIAA, Sean Woodroffe, do que aquele que a empresa tinha no passado, quando uma grande porcentagem das pessoas estava totalmente remota.

Em 2018, cerca de 30% a 40% dos funcionários da TIAA trabalhavam de casa em tempo integral, um nível que na época era considerado alto para o setor de serviços financeiros e que foi percebido como prejudicial para a colaboração. Antes da pandemia, o índice caiu para apenas 15% remoto em 2019, com a empresa chamando os funcionários externos de volta.

Quando muitos funcionários estão remotos, “você vê que as pessoas que estão no escritório têm tempo, oportunidades e interação com os outros funcionários de maneira um pouco diferente do que as pessoas que estão trabalhando remotamente”, disse Woodroffe. Quando a maioria dos funcionários tem um pouco de tempo no escritório e um pouco de tempo em casa, isso vai ajudar muito”, disse ele. “Estamos mudando para algo completamente diferente”. / Tradução de Renato Prelorentzou 

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