Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Estudo mapeia desafios para inserir jovens da periferia no mercado

Evasão escolar, racismo e exclusão digital são parte do diagnóstico do Global Opportunity Youth Network; jovens que participaram do estudo são guias das novas ações do projeto

Bianca Zanatta, Especial para o Estadão

23 de abril de 2021 | 09h00

Racismo estrutural, evasão escolar, crise laboral e lacuna digital. Essas são as quatro frentes de combate apontadas pelo estudo “Desafios e oportunidades para a inclusão produtiva dos jovens-potência na cidade de São Paulo”, feito pelo programa Global Opportunity Youth Network (Goyn), liderado pelo Instituto Aspen, em parceria com a Accenture Brasil, na busca de mitigar o abismo que separa jovens da periferia e seu imenso potencial produtivo e criativo de acessar o mercado de trabalho de forma competitiva. 

Divulgada com exclusividade pelo Estadão, a iniciativa foi articulada pela United Way Brasil - organização de governança participativa que reúne 15 empresas e 3,5 mil pessoas físicas com a missão de criar oportunidades para as futuras gerações brasileiras. Por meio de um processo colaborativo que envolve organizações como Itaú Educação e Trabalho, Instituto Coca-Cola Brasil e Fiesp, o projeto mapeou o ecossistema da juventude periférica da capital paulista e sintetizou recomendações para apoiar a inclusão produtiva de mais de 700 mil desses jovens até 2030.

“Alguns países ainda vivem o final do bônus demográfico de ter uma grande quantidade de jovens e o Brasil é um deles”, explica Gabriela Bighetti, diretora executiva da UW Brasil. Ela fala que trabalhar na inclusão agora fará com que o País tenha uma situação completamente diferente em 10 anos. Os desafios, no entanto, exigem soluções sistêmicas e em escala. “São parafusos-chave muito complexos e poderosos em que precisamos mexer para a engrenagem funcionar”, avalia. 

Segundo Bighetti, o racismo estrutural faz com que o jovem periférico não largue na mesma linha do que o restante. “Não existe meritocracia no Brasil e isso é algo estrutural que temos que combater”, sublinha. 

Esse racismo não é denunciado apenas pelo cotidiano de violências instituídas contra pessoas negras, mas pelos números. Segundo o estudo, somente 34,3% dos jovens negros e 44,1% das jovens negras entre 18 e 20 anos completam o Ensino Médio em São Paulo, em comparação com 53,7% dos homens brancos e 62,6% das mulheres brancas. O privilégio branco na educação se perpetua no mercado de trabalho, onde apenas 4,7% dos executivos das empresas brasileiras são negros.

Agravada pela pandemia, a evasão escolar é outro ponto crítico. O estudo destaca que 26% dos jovens entre 15 e 29 anos da cidade não possuem instrução ou não completaram o Ensino Fundamental, 24% saíram antes do fim do Ensino Médio e apenas 13% cursaram o Ensino Superior. Entre os moradores das regiões periféricas das zonas leste e sul de São Paulo, onde vivem 70% desses jovens, a situação é ainda mais grave: menos de 35% completaram o Ensino Fundamental e apenas 4% fizeram Ensino Superior.

Afastados da sala de aula, sem apoio e com uma estrutura de ensino a distância deficiente, os alunos da rede pública enfrentam um quadro geral de desmotivação. “A distância entre o jovem que abandonou o Ensino Médio e as vagas de trabalho é enorme”, afirma a diretora. “Que revolução vai ter que acontecer na escola pública para corrermos atrás desse prejuízo?”, ela questiona.

A lacuna digital é mais uma preocupação. Quem vai gerar emprego no médio prazo é a economia digital - e o déficit de profissionais na área, que deve precisar de 300 mil novos profissionais até 2024, está fazendo com que empresas já olhem o problema de frente e invistam por conta própria na capacitação tecnológica de jovens, como já foi apontado pelo Estadão

Sem conectividade, porém, muitos sequer têm conhecimento dessas oportunidades. Ainda de acordo com o levantamento, 42% dos domicílios paulistanos em situação de alta vulnerabilidade (825 mil moradias) não possuem banda larga fixa, restando apenas o acesso móvel, muitas vezes instável, e 39% dos alunos das escolas públicas não possuem tablet, notebook ou computador. “Essa conectividade que chega mais para uns do que para outros exclui ainda mais esses jovens”, diz Bighetti.

Soluções reais de inclusão produtiva

O projeto foi além de colher dados e evidências e dividiu a história em dois grandes grupos de soluções. No primeiro, mapeou  iniciativas que já existem e investem no apoio a empreendedores da periferia para a periferia, na modernização do ensino, no acesso ao mercado para carreiras digitais e na infraestrutura de conectividade. 

São exemplos como a ONG Gerando Falcões, o projeto de transformação tecnológica Meu Futuro Digital, a Agência Mural de Jornalismo nas Periferias, o coletivo de jornalismo Nós, Mulheres da Periferia e o Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária).

No segundo grupo, foram reunidas 70 organizações para entender o que deve ser feito e criar novas soluções pensadas coletivamente. Para que esse brainstorming fosse direto ao ponto, no entanto, era necessário trazer o jovem para o centro da discussão. O Goyn selecionou 20 entre 200 candidatos vindos dos mais diferentes cantos da periferia paulistana para criar o Núcleo Jovem do projeto, que sentou e se organizou para falar do que eles realmente precisam, traçar estratégias e colocar as ideias em prática ao lado das organizações parceiras.

Protótipos em ação

A partir disso, Gabriela Bighetti conta que nasceram protótipos que entram em ação ainda neste mês. “Vamos aprender, ver o que funciona, redesenhar o que for necessário e caminhar com eles em escala em 2022”, ela afirma. 

São soluções como a Digitalis, plataforma digital que une jovens a ONGs que oferecem formação e empresas com vagas. “Não tinha ninguém fazendo essa curadoria”, conta a diretora. “É uma forma de recrutamento mais barata e eficiente e que elimina o desperdício de vagas.”

Para quem está ainda mais à margem do sistema e não sabe navegar na internet, foi criado o Perifa Digital. É uma espécie de mentoria em que os próprios jovens, remunerados pela iniciativa, vão trazer outros jovens - um vizinho, um amigo da escola, um primo - para fazer um processo de letramento digital.

E como as empresas são parte da solução, a Accenture fará uma pesquisa para levantar e estudar cinco organizações com bons casos de inclusão produtiva do jovem-potência. “A ideia é fomentar essa comunidade de práticas entre as empresas e mostrar o valor que esses jovens têm, quando se investe neles e são acolhidos de outra forma”, conclui Bighetti.

Para Diogo Tsukumo, gerente de articulação do Itaú Educação e Trabalho, a parceria em rede é o segredo para mudanças efetivas. “Ser parceiro institucional do Goyn SP é unir forças com uma rede de instituições e empresas que têm o objetivo comum de fazer um investimento nas juventudes e incluir os jovens no mundo de trabalho de forma digna”, diz o executivo. 

“O estudo também deixou clara a importância da articulação em rede, que reúna várias esferas da sociedade, entre empresas, coletivos, universidades, o poder público e o próprio jovem, para romper a desigualdade estrutural.”

Jovens que são exemplo e protagonistas

O termo jovens-potência foi ideia deles mesmos, segundo o estudante Lucas Gregorio, de 20 anos, que faz parte do Núcleo Jovem do Goyn. Morador da divisa de Taboão da Serra com o Campo Limpo, bairro periférico da zona sul de São Paulo, ele hoje está cursando o segundo ano de Letras na USP - onde entrou pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) do Ministério da Educação, em que instituições públicas oferecem vagas a participantes do Enem.

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A gente está em situação de vulnerabilidade social, mas não se coloca no lugar de coitadinho
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“Queremos mudar esse cenário porque o jovem é muito potente e precisa trabalhar essa potência", completa ele.

Contratado como assistente do projeto há três meses, ele conta que sempre foi estudioso e “meio nerd”. No 9° ano, prestou o Vestibulinho e passou na Etec de Paraisópolis, onde começou a entender que sua realidade fazia parte de algo muito maior. “Minha consciência social foi aumentando, comecei a entender quem eu era, a olhar para as questões da minha comunidade e perceber como eu mesmo podia ajudar”, ele relata.

Com planos de se tornar professor universitário e empreender em um negócio de impacto social para complementar a renda, ele fala que ter os jovens como cocriadores é fundamental para mudar a mentalidade atual. 

E deixa um recado às empresas: “Dar essa oportunidade é importante para a empresa e para a sociedade porque somos como um livro com páginas em branco, em que é possível escrever novas histórias”, reflete. “A gente pode mudar a realidade que existe hoje.”

Aos 22 anos, Estela Reis, moradora do Jardim  ngela, também na zona sul paulistana, conta que conheceu a proposta do Goyn por meio da Escola de Notícias, iniciativa de jovens do Campo Limpo. 

Aluna do curso de Direito na Universidade Anhanguera, onde ingressou com uma bolsa de 100% do ProUni (Programa Universidade para Todos), ela acredita que muitas empresas fazem coisas para os jovens, mas é difícil eles estarem de fato no meio da discussão.

“Eu conheci o projeto através de outro, mas a verdade é que eles não chegam com facilidade para nós”, explica a futura advogada, que pretende fazer pós-graduação e atuar ativamente na transformação de políticas públicas. 

“Enfrentamos de tudo, dos problemas de ensino, saúde e violência à falta de acesso a cultura e lazer, então esses projetos precisam chegar também através das escolas e ONGs que estão nos bairros”, ela defende. “Tem que articular essa rede.”

Henrique Madeiros, de 20 anos, que vive no Grajaú, na zona sul, também é membro do Núcleo Jovem do Goyn. Para ele, falar da realidade do jovem periférico é como descrever um plano sequência, sem cortes. “Se não tive meus direitos respeitados quando criança, dificilmente vou ter uma inserção em qualquer área da minha vida”, ele alerta. 

Rapper e poeta, Madeiros já publicou o zine Fúria, com poesias próprias, participa de saraus que debatem questões sociais da periferia e está à frente do projeto Grajauventude, que seleciona jovens artistas da região para gravar a primeira música em estúdio e distribuir a faixa em todas as plataformas possíveis. 

Quando indagado sobre seu empreendedorismo artístico, ele corrige o termo: “O Tony Marlon (consultor em projetos de impacto socioambiental) fala em ‘CEO de MEI’”, ensina. “Hoje sou MEI (microempreendedor individual) para ter minha arte vinculada aos editais da cultura, para impulsionar a arte na periferia”, diz.

Para Madeiros, o papel das empresas no impulsionamento dos jovens-potência precisa ser sistêmico. “Tem também que sair do ritmo fordista para uma flexibilização do trabalho”, ele fala, revelando que no dia anterior trabalhou das 8h às 22h descarregando caminhão e chegou em casa à meia-noite para acordar novamente às 6h.

“Hoje acordei com tanta dor no corpo que essa é a única resposta que tenho. Precisa acabar com a animalização do trabalhador para que a pessoa também consiga pensar a arte.”

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