Falta de talentos facilita volta a ex-empregador

Há vantagens para as empresas, como a rapidez na adaptação; consultores dizem que funcionário deve avaliar se novo cargo é um avanço na carreira 

Fernando Scheller, de O Estado de S.Paulo,

28 de outubro de 2010 | 07h17

Você recebeu uma proposta de emprego, mas está com medo de que seu chefe usará aquela velha frase: "Pode tentar, mas fechará as portas daqui para sempre". Se esse é seu receio ao encarar uma nova oportunidade, não há motivo para pânico. Segundo consultores em recursos humanos, a evolução do mercado para uma realidade "menos paternalista" e a escassez de mão de obra treinada eliminam, aos poucos, a realidade do "nunca mais" para profissionais no País.

Salvo em situações extremas, como demissão por justa causa, nenhum desligamento por iniciativa do empregador fecha as portas. "Muita gente sai porque, em determinado momento, a empresa não tinha horizontes a oferecer. Em um mercado em expansão, as empresas não podem mais se dar ao luxo de recusar um bom profissional", explica Patricia Epperlein, da consultoria Mariaca. "Para o executivo interessado em voltar, o melhor é manter a rede de contatos viva, informar amigos e colegas dos passos profissionais."

Foi o que fez Daniel Guijarro, de 55 anos. Com 20 anos de atuação em turismo, ele foi desligado em junho de 2007 da rede Accor, onde atuava como gerente comercial do segmento turístico, como as unidades da Costa do Sauipe, na Bahia. Na época, a empresa decidiu concentrar esforços em hotéis de negócios, e o cargo de Guijarro foi eliminado. Depois disso, ele migrou para a rede paranaense Bourbon, onde ficou por dois anos e meio. No início de 2010, recebeu um convite para voltar para a Accor, como diretor adjunto de vendas.

"A ida para o Bourbon representou a atuação tanto na área turística quanto na de negócios. E a volta para a Accor foi outro avanço, pois o cargo tem um escopo bem maior", diz Guijarro. Ele conta que, como o mercado de turismo tem um universo relativamente restrito, teve a vantagem de encontrar ex-colegas da Accor regularmente em eventos de entidades de classe. "Sempre mantive contato com meus pares e também com a diretoria."

Família. Há mais de uma década, o especialista em tecnologia da informação Augusto Cruz, hoje com 39 anos, decidiu sair da consultoria Accenture quando viu que o trabalho de consultor, que exigia longos períodos fora de casa, não combinava com a paternidade iminente. Começou a procurar oportunidades localizadas em São Paulo: ficou apenas 20 dias na primeira empresa, passou dois anos em outra consultoria e fez carreira por uma década na Whirlpool, onde coordenava a área de TI.

Expatriado, trabalhou no México e nos Estados Unidos, participando da concentração dos serviços de tecnologia no quartel-general norte-americano do conglomerado. Quando voltou ao País, sua vaga não existia mais. Ao buscar novas oportunidades, viu as opções limitadas por processos semelhantes ao da Whirlpool: em várias companhias, o trabalho se resumiria a eliminar a área de TI. "Queria continuar na área, e a consultoria me pareceu a maneira ideal. Hoje, enfrento jornadas longas, mas os meus filhos estão maiores e tenho uma estrutura familiar bem montada", explica Cruz, que voltou para a Accenture há dois meses.

FIQUE ATENTO

Salário é fundamental

Sandra Finardi, da DMRH, afirma que é importante o profissional saber seu "preço mínimo" antes do início da negociação.

Um novo cargo

Voltar ao mesmo cargo, diz Mário Custódio, da Robert Half, pode ser uma armadilha: a troca deve ser sempre um avanço.

Mesmos problemas

Para Custódio, é vital fazer uma lista do que incomodava no antigo emprego: os velhos problemas ainda podem voltar à tona.

Nova cultura

Segundo Sandra Finardi, nos hiatos mais longos, a cultura admirada pode não estar mais lá, especialmente se o comando da empresa foi trocado. 

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