Santiago Epstein/Marília Dias
Santiago Epstein/Marília Dias

Livro reúne cartas de mulheres sobre experiências no mercado de trabalho

Em relatos, profissionais como Paola Carosella e Lisiane Lemos contam o que gostariam de ter lido antes de começar a trabalhar

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2021 | 17h17

O que você gostaria de ter descoberto antes de entrar para o mercado de trabalho? A partir dessa pergunta surgiu o livro Aquelas Cartas: que as mulheres gostariam de ter recebido antes de entrar no mercado de trabalho - da Editora Zouk - organizado pela Lanna Collares e pela Winnie Bueno, que reúne cartas escritas por 31 mulheres, de experiências e profissões diferentes, com o que elas gostariam de ter lido antes de começar a trabalhar.

“A nossa preocupação é a de que ele não fosse um livro mais do mesmo de história de mulheres. Geralmente são mulheres brancas, classe média, com histórias de superação do machismo. A gente queria um livro que contasse com um número mais amplo possível de experiências de mulheres e que possibilitasse que essas mulheres falassem, com a própria voz, sobre si mesmas e sobre o ramo de atuação”, conta Winnie. 

As cartas são escritas por profissionais como Paola Carosella, Suzane Jardim e Lisiane Lemos, além das próprias organizadoras e de suas mães. Por serem de mulheres com trajetórias tão diferentes, abordam os mais variados temas, entre eles racismo, saúde mental, valores e síndrome da impostora

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“Eu sei que você acha que não é boa o suficiente, eu sei que você sente que tem gente muito melhor do que você, eu sei que você morre de medo, eu sei que às vezes é melhor não bater na porta, não entrar na entrevista, não olhar nos olhos. Mas deixa te dizer algo - e, por favor, te peço, acredta - eu te garanto que você é boa, que você é suficiente, e que esse medo que você tem não é mais do que o desejo de fazer as coisas o melhor possível, que esse medo não é mais do que responsabilidade”, escreve Paola em um dos trechos de sua carta.
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Confira a seguir a entrevista com as organizadoras do livro, Lanna Collares e Winnie Bueno:

De onde veio a inspiração para criar o livro?

Lanna Collares: Na publicidade tem muito evento de futuro do trabalho. Eu estava em um evento sobre mercado de trabalho, olhei o painel e vi um monte de homens brancos, iguais, com aquela roupinha de agência e pensei ‘que loucura não termos outra perspectiva no mercado de trabalho!’. 

Winnie Bueno: A nossa ideia era desconstruir o que se pensa sobre trabalho, sobre o mercado, porque eu e Lanna temos carreiras que são muito diferentes. Eu não trabalho dentro dessa coisa que as pessoas entendem como trabalho. Eu sou formada em Direito, mas não fui para a advocacia, eu fui fazer trabalho acadêmico, o que me rendeu uma série de outros trabalhos. A partir também da minha própria construção enquanto figura da internet, que comenta coisas, gerou outro tipo de trabalho. A gente buscou mostrar que trabalho não é mais o que ele era antes e o fato dele não ser o que ele era muitas vezes, sobretudo para a nossa geração, nos coloca em um limbo. Os sonhos que eu tinha quando era criança e adolescente foram para outro lugar porque, da década de 1990 pra cá, as possibilidades de realizar as coisas que eu sonhava quase inexistem. O livro é uma possibilidade da gente repensar o que a gente quer manter da noção de trabalho que a gente tinha, de direitos trabalhistas - que quase não existem mais - e o que podemos pensar de perspectivas. 

Como foi feita a curadoria para escolher as mulheres que escreveram as cartas que aparecem no livro?

Winnie: A nossa preocupação é a de que ele não fosse um livro mais do mesmo de história de mulheres. Geralmente são mulheres brancas, classe média, com histórias de superação do machismo. A gente queria um livro que contasse com um número mais amplo possível de experiências de mulheres e que possibilitasse que essas mulheres falassem, com a própria voz, sobre si mesmas e sobre o ramo de atuação. A gente não queria um livro que fosse só da leitura hegemônica do que é considerado sucesso no mercado de trabalho. Até para que a gente pudesse ter uma visão plural do sentido de realização, o que é estar num processo de realização ou estar realizada no mercado. 

Lanna: Consideramos lugares diferentes socioeconômicos também, não só mulheres que ‘chegaram lá’, que esse fim seja o retorno econômico. O objetivo não foi chamar mulheres que ‘conseguiram’, que chegaram em um posto de liderança.

Qual o conteúdo dessas cartas? 

Winnie: Basicamente, produzimos um livro para pensar as trajetórias de mulheres não como histórias únicas, mas como tramas com muitas possibilidades, desafios, expectativas, o que possibilita que os leitores vejam que possibilidades e expectativas cabem na sua própria trajetória do que se entende por sucesso. 

Lanna: São cartas e não receitas. Não eram receitas de o que  fazer para que uma mulher chegue a um lugar. Não é recomendação, não é algo na linha de ‘MBA em dois dias pra saber tal coisa’, são trajetórias. As mulheres que convidamos nos perguntaram como deveria ser a carta e a nossa resposta foi ‘como tu quiser escrever pra tu mesma’. As cartas são diferentes porque a forma que tratamos a nós mesmas é diferente. As trajetórias não são lineares, isso foi importante para gente, ler o livro e não pensar que deveria fazer tal coisa. É para conhecer trajetórias e não para construir trajetórias. 

Há algo que aparece com muita frequência nas cartas?

Winie: Eu não consigo e não estou buscando as semelhanças. Eu quero saber o que é de diferente, o que diferencia. A semelhança eu já sei, que independente do lugar que elas estejam vão sofrer reduções de potencialidades porque são mulheres. As diferenças são muitas, se você for olhar, as cartas das autoras negras têm muitas diferenças entre elas, porque elas são mulheres diferentes. Isso possibilita tirar a trajetória de mulheres de lugares de sermos todas iguais porque não somos, somos bem diferentes. O que eu gosto nele é que é muito difícil dizer que a história de fulana é igual a de ciclana. 

Lanna: A única costura que a gente poderia fazer para a maioria das mulheres é a de que foi difícil se colocar na posição de ‘eu sei falar sobre o mercado de trabalho’. Cada carta é incomparável, fazer essa carta colocou as mulheres no lugar de mercado de trabalho. A gente se coloca no lugar de eu posso escrever sobre isso, é um lugar que sempre foi falado pelos homens, com referências vindas de homens, estar nesse lugar era algo um pouco novo para grande parte delas. 

Winnie: Nós, mulheres, falamos muito pouco sobre si, nos damos pouco direito de falar sobre si. Muitas cartas falam da dificuldade de escrever sobre si. Isso os obriga a olhar para nós mesmas. Essa possibilidade de falar pra si mesma é algo bonito, de certa forma é uma ferramenta para que essas mulheres que a gente admira tanto pudessem falar sobre si mesmas.

Os direitos autorais do livro foram cedidos? 

Winnie: A pré-venda ocorreu em dezembro e agora iniciamos a venda. Todas as mulheres que escreveram as cartas cederem os seus direitos para a Winnieteca, uma plataforma de doação de livros para pessoas negras fundada em 2019. É um projeto que conecta pessoas que podem comprar um livro com uma pessoa negra que não pode comprar o livro que ela deseja. Todos os direitos que seriam das autoras do Aquelas Cartas vão ser revertidos para a Winnieteca em forma de livros. 

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