Mão de obra jovem e com estilo próprio. Existe?

A existência da geração Y ainda não é consenso, anos depois de surgir o conceito  

André Zara,

26 de julho de 2011 | 15h45

Vanessa Silva, de 26 anos, faz parte da chamada "geração Y". Será? A denominação já é conhecida e as atitudes do jovem desta faixa etária no trabalho são consideradas verdades consolidadas. Dizem que ele muda muito de emprego, pois a família banca a sua educação. Que precisa de desafios, é instável e quer subir rápido na carreira. "Só depois que comecei a trabalhar eu pude financiar minha educação. No primeiro emprego, que era no comércio, a rotina era sempre a mesma, sem perspectiva de melhoras ou crescimento, mas precisava ficar para financiar meus estudos." No atual trabalho, em uma empresa de tecnologia da informação, chegou à coordenadora de suporte. "Não houve pressa nem pressão, tudo aconteceu naturalmente."

O caso de Vanessa mostra os problemas de generalizar ainda mais uma geração inteira. De fato, não existe nem mesmo consenso de quando nasceram os membros da geração Y. Alguns especialistas afirmam que foi no fim da década de 1970 e outros, no começo da de 1980. Os últimos teriam sido gerados no ano 2000. O recorte começou a surgir nos Estados Unidos, há uma década. Primeiro ganhou o nome de "millenium", posteriormente passando a Y. Há cinco anos a denominação começou a aparecer no setor de recursos humanos das empresas brasileiras.

No entanto, ainda há quem duvide de que essa geração - e os comportamentos atribuídos a ela - seja real. "Há cem anos já existiam pessoas com características assim", diz o consultor em gestão de pessoas, Eduardo Ferraz. "Os jovens têm mudado muito de emprego, pois a economia está aquecida. Estamos vivendo uma época de pleno emprego e existe falta de mão de obra."

Justificativa. Segundo ele, a denominação se tornou uma desculpa. "Esse papo de geração Y se tornou álibi para o gestor que não consegue reter os funcionários. Ele justifica que perdeu o empregado porque ele era Y", afirma Ferraz.

Para a professora e coordenadora do núcleo de gestão de pessoas da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Adriana Gomes, o que acontece é a velha crise entre gerações. "Acaba-se valorizando a questão e alguns funcionários a usam como desculpa para exigir aumento e justificar comportamentos inadequados." Ela faz um questionamento: "A quem interessa discutir isso? É uma moda que é digerida para vender livros e palestras."

Para a vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Nacional), Elaine Saad, a geração existe sim. "Eles têm características próprias. O que os difere é a agilidade e o uso da tecnologia - produto de sua época", afirma. Segundo Elaine, o fato se tornou claro para os profissionais de recursos humanos quando surgiram conflitos entre as gerações, e eles precisaram lidar com isso. "Quando se começou a falar das qualidades desse jovem, como ser multitarefa, algumas empresas acharam que ele iria resolver todos os problemas. Acabaram colocando uma confiança absurda nele", conta. Quando a realidade mostrou que não se trava de um ser especial, começou a surgir todo tipo de estereótipos, como de insubordinado.

Francisco Albuquerque, de 28 anos, criador do blog "Nossa geração Y", concorda. "Eu vivi o conflito no ambiente de trabalho com a geração X, por causa da relutância deles a se atualizar. Alguns acabam até impedindo a implantação de novidades. Querem manter status quo na empresa",diz. Para ele, a geração Y é real, "mas não se pode colocar todos na mesma caixinha".

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