Monica Jorge/The New York Times
Monica Jorge/The New York Times

Meritocracia reforça desigualdades e estratificação, diz escritor

Para autor de 'A Cilada da Meritocracia', lançamento da Intrínseca, modelo meritocrático pode promover justiça social, mas tem aprofundado ainda mais a diferença entre ricos e pobres, negros e brancos

Entrevista com

Daniel Markovits, professor de Direito de Yale (EUA)

Anna Barbosa, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021 | 05h00

A meritocracia é um sistema que, teoricamente, privilegia as qualidades do indivíduo e o relaciona diretamente com mérito e poder. Acredita-se que basta batalhar que será possível conquistar, independentemente de sua raça,  gênero, classe social ou origem. Mas em uma sociedade tão desigual isso é realmente possível?  

O livro A Cilada da Meritocracia é uma não-ficção escrita por Daniel Markovits, professor de Direito de Yale e doutor em Filosofia pela Universidade de Oxford, que discute as problemáticas acerca do modelo meritocrático. O livro foi lançado no Brasil na última sexta-feira, 3, pela editora Intrínseca (leia a ficha mais abaixo). 

Daniel possui uma extensa trajetória dentro das universidades e poderia usar o seu caminho como mais um exemplo dos bons frutos da meritocracia, sem se questionar sobre sua estrutura desigual. Filho de professores universitários, graduou-se em Matemática na Universidade de Yale, fez mestrado em Economia na London School of Economics, doutorado em Filosofia na Universidade de Oxford e obteve o título Juris Doctor pela escola de Direito onde hoje leciona.

“As pessoas com quem fui para a escola (pública) são tão capazes, tão inteligentes e tão criativas quanto as pessoas com quem frequentei a faculdade de Direito. Mas elas não acabaram em empregos com altos salários ou com o mesmo status social ou com carreiras tão elaboradas. Enquanto eu passava por uma série de universidades de elite, continuei voltando a esse fato e tentando pensar qual era exatamente a explicação para essa diferença”, diz ele, ao explicar uma de suas motivações para buscar respostas das diferenças que via.

O autor possui outros três livros publicados nos Estados Unidos, mas esta é sua primeira publicação no Brasil. Confira a seguir a entrevista concedida por  Daniel por meio de videoconferência:

Você tem uma trajetória digna e extensa e poderia pautar todo seu discurso na meritocracia. O que o fez pensar diferente e apontar críticas a esse modelo?

Eu acho que foram duas coisas: uma de um tempo atrás e outra mais recente. 

A mais antiga é de quando eu fiz o Ensino Médio em um colégio público estadual em Austin, Texas. Não era um colégio ruim, mas também não era um colégio particularmente rico. As pessoas com quem fui para a escola são tão capazes, tão inteligentes e tão criativas quanto as pessoas com quem frequentei a faculdade de Direito. Mas elas não acabaram em empregos com altos salários ou com o mesmo status social ou com carreiras tão elaboradas. 

Enquanto eu passava por uma série de universidades de elite, continuei voltando a esse fato e tentando pensar qual era exatamente a explicação para essa diferença. Às vezes a explicação era óbvia: tinha a ver com privilégios, pais e como esse status é transmitido através das famílias, através das gerações...

Mas fiquei muito interessado em tentar descobrir exatamente qual era o mecanismo - e não só o que aconteceu na escola, mas também o que aconteceu no trabalho e como os empregos mudam para beneficiar as pessoas que receberam educação mais sofisticada. Portanto, a primeira experiência foi muito mais essa sensação de desconexão entre as vidas das pessoas com quem frequentei a escola e as vidas das pessoas com quem frequentei a universidade.

O segundo fenômeno, que é o mais recente, aconteceu por causa dos meus alunos em Yale. Eu comecei a lecionar na Faculdade de Direito de Yale em 2001 e, nos primeiros anos, meus alunos estavam relativamente satisfeitos com a situação e com eles mesmos. Sentiam que tinham ganhado na loteria, como se tivessem uma vida ótima e fossem um grande sucesso. Alguns deles eram mais autocríticos, outros não. Mas a sensação geral do corpo discente foi de triunfo. 

Nos últimos anos, o sentimento de meus alunos tem sido muito diferente. Eles tiveram uma sensação muito mais nítida de que seus próprios sucessos estão de alguma forma ligados às dificuldades que outras pessoas sentem. Os alunos têm uma sensação muito mais vívida de que seus próprios sucessos talvez sejam ilusórios até para eles próprios, que vão acabar muito ricos, com status muito elevado, mas que podem não estar bem e não levar uma vida feliz, se sentindo frustrados com suas posições, embora suas posições pareçam tão boas. 

Então, lá eu estava olhando para as pessoas que parecem estar ganhando com a meritocracia e ganhando no topo dessa desigualdade, mas eles não parecem estar muito bem também. 

Isso me leva a outra pergunta, sobre uma coisa que me deixou muito intrigada no livro, que é a afirmação de que a elite também é vítima da meritocracia. Por que você diz isso?

Então, isso é complicado. Antes de tudo, eles não são vítimas de uma forma que significa que qualquer outra pessoa deveria ser solidária. Minha reivindicação não é que toda a sociedade deveria se preocupar tanto com o que está acontecendo com essas pessoas ricas. 

O Brasil é um pouco diferente dos EUA, embora esteja se tornando cada vez mais parecido. Uma das coisas que faço na Escola de Direito de Yale é dirigir os programas da faculdade de Direito na América Latina e, assim, passo um tempo na região. 

O Brasil é uma espécie de economia bifurcada que, por um lado, há muita riqueza aristocrática antiquada. Pessoas que possuem terras, florestas ou concessões minerais, que possuem recursos naturais e herdam esse tipo de riqueza. Se você herda riqueza dessa forma, isso o torna livre, porque o que você faz é misturar sua riqueza com o trabalho de outras pessoas. Você pega uma parte, fica rico com o trabalho de outras pessoas e assim a velha elite aristocrática é realmente fortalecida por sua riqueza.

Mas o Brasil também tem uma classe trabalhadora moderna, superqualificada, supereducada e de elite. Essas são as pessoas que dirigem as grandes empresas globalmente competitivas do País, por exemplo. Elas também são muito ricas, mas de uma maneira muito diferente. A fonte de sua riqueza não são terras herdadas ou contas bancárias. É seu próprio treinamento, sua própria educação elaborada e sua habilidade.

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A questão é, se essa é a fonte de sua riqueza, então a única maneira de obter renda com ela é misturando-a com seu próprio trabalho. Então, você tem que trabalhar muito, tem que trabalhar em qualquer trabalho que outras pessoas paguem para você fazer e aí você se torna um banqueiro ou um executivo. Quando, na verdade, o que você realmente gostaria de fazer seria ser um jornalista, ou artista, ou padeiro ou qualquer outra coisa, mas você não pode se dar ao luxo de fazer essas coisas, porque se você fizer outras coisas que lhe interessam, você está jogando fora sua riqueza. 

É assim que se dá esta nova elite (a elite meritocrática), cuja riqueza consiste em sua própria educação; tem que se manipular o tempo todo para obter renda. Eu vejo isso nos meus alunos. Eles vêm para a faculdade de Direito dizendo que querem ser advogados de interesse público. Outro dia eu estava conversando com meu aluno e eu perguntei: “Com o que você realmente se importa?” e ele me disse que realmente se preocupa com filmes franceses da nova era. 

Quer saber? Ele vai acabar sendo advogado de bancos. É isso que ele vai acabar fazendo da vida e a razão pela qual ele fará isso é que, se for advogado de bancos, pode ganhar milhões de dólares por ano. E se ele for um crítico de cinema, não.

Agora, novamente, ninguém deveria chorar por ele porque ele está ganhando milhões de dólares por ano. Por outro lado, sua riqueza está o empurrando para fazer algo diferente do que realmente importa. 

Alguns dos meus alunos realmente querem ser advogados de bancos e, para eles, isso é ótimo porque estão fazendo o que lhes interessa. Mas outros não e esse é um sentido em que essa nova elite, embora seja incrivelmente rica, também está presa pelo sistema. 

Em seu livro, as críticas são feitas pensando em como a meritocracia acontece nos Estados Unidos. Há diferença de como acontece em outros lugares, como na América Latina?

Então, acho que cada lugar é diferente em alguns aspectos, mas existem algumas forças que chegaram e aparecem em todos os lugares. Eu acredito que existem três tipos de modelos (de meritocracia) no mundo agora. 

Existe o modelo dos EUA, que é de alta desigualdade. Aqui, os ricos são principalmente ricos por causa de seu trabalho e não por causa de herança. É assim nos EUA, no Reino Unido, na Coreia do Sul; existe cada vez mais em alguns outros lugares, como por exemplo a China, que tem mais do que antes, e alguns países europeus que estão começando a se mover nessa direção. 

Um segundo modelo é aquele em que a fonte de riqueza é principalmente herdada. Há capital físico e uma desigualdade relativamente baixa. Esses são os países escandinavos, norte da Europa. É o melhor arranjo que vemos no mundo agora. 

O terceiro é a riqueza herdada e a alta desigualdade. Essa é a América Latina. Portanto, há um sentido em que a dinâmica no Brasil é bem diferente da dinâmica dos EUA. Mas, ao mesmo tempo, alguns dos problemas dos EUA estão chegando à América Latina. Uma espécie de classe global, meritocrática e super-rica que não tinha há 50 anos da mesma forma. 

Alguns dos problemas do modelo do Brasil também estão chegando aos Estados Unidos. Estamos começando a obter uma classe de riqueza herdada. Cada país é diferente, mas as forças que existem em um também existem em outro. É uma questão de equilíbrio entre eles.

Como esse modelo pode escancarar ainda mais as desigualdades sociais? É possível que em algum momento a meritocracia seja justa?

Acho que há coisas sobre ele que são justas. Sabe, aqui eu penso nos Estados Unidos, mas o Brasil também é como os EUA nisso. O Brasil tem uma grande população de pessoas de origem africana, cujos ancestrais foram escravizados, assim como os Estados Unidos. A meritocracia tem sido uma força de justiça para muitas pessoas, incluindo pessoas desses grupos, porque nenhuma raça monopoliza o talento.

Quando a sociedade torna possível obter vantagem, você progride com base em seu próprio trabalho árduo e habilidades. Grupos anteriormente excluídos nos EUA (afro-americanos, mulheres, muçulmanos, judeus) se saem melhor ou alguns membros se saem melhor. E, dessa forma, a meritocracia tem sido uma força para o bem. Tem sido uma força contra certas formas de racismo, sexismo e preconceito religioso. 

Por outro lado, ao mesmo tempo, a meritocracia está tornando a desigualdade muito maior do que costumava ser. A meritocracia é também uma força de desigualdade, de subordinação, de estratificação. Os mesmos grupos se beneficiam e são oprimidos pela meritocracia. 

Nos Estados Unidos hoje, por exemplo, a meritocracia é significativamente responsável pelo fato de que agora temos uma elite negra, porque alguns afro-americanos venceram por meio da meritocracia. É também responsável pelo fato de que a diferença de riqueza entre brancos e negros vem crescendo.

Vivemos em uma sociedade em que existe uma grande correlação entre raça e educação e se investe muito mais na educação de crianças brancas do que em crianças negras; isso tem como consequência agravar a desigualdade. Portanto, o mesmo fenômeno pode tornar melhorar certas desigualdades e piorar outras.

É possível existir capitalismo sem o ideal meritocrático?

Essa é uma pergunta muito boa. Vamos começar sobre o que entendemos por capitalismo. Acredito que entendemos por capitalismo pelo menos duas coisas: em primeiro lugar, propriedade dispersa. Portanto, o Estado não possui os meios de produção. Em segundo lugar, coordenação no mercado. Consequentemente, o capitalismo envolve controle privado sobre a produção e a troca de mercado.

Eu acho que você pode ter uma forma de capitalismo que enfatiza o trabalho da classe média, a educação da classe média em massa e a organização da produção em torno de empregos de média habilidade enquanto mantém a propriedade privada, enquanto mantém alguma separação entre o Estado e a economia. 

A questão é: quais tipos de reformas você precisa para chegar lá? As duas principais reformas que as sociedades precisam para chegar lá é uma política educacional que realmente enfatize a ampla educação da classe média. Portanto, educar a todos e não apenas os ricos. Além disso, uma política de tecnologia e mercado de trabalho que enfatize o investimento em formas de fazer coisas que utilizem trabalhadores da classe média. 

Para ser bem concreto sobre o segundo, hoje nos EUA, na Europa, na Ásia, muitos e muitos produtos que antes eram feitos por muitas pessoas agora estão sendo feitos por robôs e computadores e um pequeno número de trabalhadores superqualificados. Isso é uma má ideia; uma ideia melhor é investir em tecnologias que utilizem um grande número de trabalhadores de classe média e que ainda possam ser tecnologias organizadas na economia capitalista.

Neste caso, você está falando sobre o que seria a igualdade democrática, certo? Como este conceito poderia ser aplicado na prática, pensando que a meritocracia já está instaurada há anos?

Sim! Vou dar dois exemplos, ok? Um exemplo será sobre as escolas e o outro será sobre o trabalho.

Quando você pensa sobre a escola nos Estados Unidos hoje, uma escola particular típica, de elite, gasta cinco ou seis vezes mais educando um aluno por ano do que uma escola pública. Uma universidade privada de elite gasta cinco ou dez vezes mais educando um aluno do que uma universidade pública. As escolas e universidades privadas são tratadas como instituições de caridade; elas têm enormes privilégios fiscais. Portanto, temos um sistema de educação e um sistema de governo que favorecem a concentração da educação nos muito ricos. 

O Brasil, como eu o conheço (que não é tão bem quanto eu conheço os EUA), também tem uma realidade em que crianças ricas gastam muito, muitas vezes mais em sua educação do que classe média e pessoas pobres. 

Uma coisa que uma sociedade deve fazer são grandes investimentos na educação de crianças de classe média e pobres e também reduzir o quanto é gasto para obter filhos ricos. Então, fazer isso diferente é muito concreto e muito prático. Eu poderia descrever em detalhes como fazer isso e quais seriam as políticas nos EUA. No Brasil, as políticas seriam um pouco diferentes, mas o plano básico seria o mesmo. 

Quanto ao lado do trabalho, vamos pegar um campo como a medicina - que é uma verdade tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Temos muitos médicos de elite superespecializados e não temos trabalhadores suficientes na saúde pública. O que a sociedade está fazendo é investir mais em trabalhadores de elite superqualificados e investir menos em trabalhadores de classe média. 

Só para ser ainda mais prático, por exemplo, eu fui correr esta manhã. Por que eu fui correr? Porque eu acredito que, se eu der uma corrida, meu coração ficará mais forte e vou viver mais. Mas eu realmente não sei quanto tempo devo correr. Devo correr por uma hora? Uma vez por semana? Por 10 minutos? Todos os dias? O que é melhor para o meu coração? Não sei as respostas para essas perguntas. Não tenho uma enfermeira me dizendo como fazer exercícios para ficar em forma. 

Agora, se eu tiver problemas de coração e ficar muito mal, vou poder ir ao médico e fazer um transplante. Porém, obviamente, estaríamos muito melhor como sociedade se todos tivessem uma enfermeira ajudando a se exercitar para que não tenham paradas cardíacas. 

Estamos investindo excessivamente na elite dos trabalhadores e subinvestindo nos trabalhadores da classe média. O truque está em toda parte na nossa sociedade, não apenas nas escolas e na medicina, mas em todos os campos para nos concentrarmos nas classes médias e pobres.

A cilada da meritocracia

Autor: Daniel Markovits

Tradução: Renata Guerra

Editora: Intrínseca; 528 págs.

Impresso: R$ 79,90; e-book: R$ 54,90

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