Mari Merlim
Após várias listas frustradas, Ligia Baleeiro trocou as metas de ano novo por autodesafios, normalmente de curto prazo e que são mensuráveis.  Mari Merlim

Meta para o ano-novo é não se entupir de metas e cuidar da saúde mental

Fazer listas de resoluções pode ser gatilho para distúrbios como ansiedade, estresse e burnout; para especialista, é preciso fugir do ‘tempo empresarial’ e seguir próprio ritmo

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2021 | 05h01

É chegada a reta final do ano e há quem aproveite os recessos para traçar as famigeradas metas de ano-novo, as quais, não raro, são as mesmas de anos anteriores. Se você se identificou, provavelmente faz parte da maioria das pessoas que não cumpre os objetivos estabelecidos para o período. Segundo estudo da Universidade de Scranton, na Pensilvânia (EUA), apenas 8% conseguem concretizar o que idealizou. E se a solução fosse simplesmente não fazer resoluções de ano-novo?

Embora adotadas para nortear objetivos futuros, de ordem pessoal ou profissional, as listas de metas podem se tornar verdadeiros gatilhos para sofrimentos mentais, como ansiedade, burnout e até depressão, que cresceram na pandemia. Por isso, nem sempre são consideradas uma boa estratégia para todos, de acordo com Guilherme Navarro, psiquiatra clínico e forense e professor da Faculdade de Saúde e Ecologia Humana (FASEH), em Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte (MG). 

“É problemático pensar que a gente precisa das metas e estabelecer isso enquanto uma unanimidade. Algumas pessoas vão estar em momentos em que façam sentido tê-las, outras não. Quando se coloca isso como algo generalizado, sentimos certa obrigação de funcionar e de pensar dessa forma, o que pode ser fonte de sofrimento”, explica Navarro.

A frustração vem, muitas vezes, quando a decisão de se traçar metas parte de introjeções sociais e não de desejos genuínos do indivíduo, o que torna ainda mais difícil cumprir o estabelecido e pode causar sensação de vazio. Isso explica aquelas pessoas que, não se sentindo realizadas, acabam a cada ano criando resoluções ainda mais difíceis de serem alcançadas.  

Há também questões subjetivas que impedem a realização dos objetivos, ainda que estes estejam em consonância com os desejos mais profundos e internos, como a pandemia e o desemprego. Ou seja, nem todos têm condições materiais e estruturais para concretizarem o que idealizaram. “As oportunidades e as possibilidades não são distribuídas igualmente. Cada pessoa tem o seu tempo e está tudo bem”, salienta o professor.  

Foi o que observou Ligia Baleeiro, de 37 anos, que após várias listas frustradas decidiu não traçar mais metas nesta época do ano. “É um momento emocional, quando a gente tem muita esperança e por isso se sente motivado a ser melhor e a fazer novos planos. Embalados por esse clima, acabamos por elaborar projetos grandiosos e vagos demais.” 

Especialista em comportamento e neurociência pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), ela hoje se propõe a fazer autodesafios, normalmente de curto prazo e que são mensuráveis. Foi assim que conseguiu aprender a dirigir recentemente. “Essa era uma meta que voltava todo ano e nunca se concretizava”, lembra.

A virada de chave se deu quando Baleeiro se identificou como uma pessoa perfeccionista e começou a quebrar as suas metas em objetivos menores. “Tenho um planejamento mais estruturado de como vou fazer e não fico só num ideal. Antes, desistia quando via que não iria dar certo ou não estava num cenário perfeito. Hoje, revejo a rota e vou tentando até conseguir”, destaca a especialista, que tem um perfil no Instagram em que dá dicas sobre mudança de comportamento. 

Vá no seu tempo

De acordo com Guilherme Navarro, o padrão de felicidade e sucesso é influenciado pela forma como a sociedade se organiza no sistema de trabalho, baseado em tópicos e metas. “Temos que alcançar mais e mais, como se fosse uma grande competição, que também pode ser fonte de aflição e angústia. Se não tomarmos cuidado, nos tornamos nosso próprio chefe, nosso próprio empregado e estabelecemos padrões que não têm tanto a ver com o que almejamos enquanto realizações pessoais.”

Os desejos são inerentes aos seres humanos, mas, segundo o professor, não precisam ser estabelecidos no tempo empresarial. Ou seja, não significa deixar de ter metas, mas é não colocá-las em velocidade e importância generalizada para todos, porque o tempo, as possibilidades e as dificuldades das pessoas são diversas. 

“É engraçado que, no feriado de fim de ano, que era para ser um momento prazeroso, o indivíduo já está pensando de forma acelerada no próximo ano e na próxima meta”, ressalta o psiquiatra. “Posso não conseguir cumprir um desejo em 2022 e ficar em paz com isso. Não é um fracasso deixar de fazer algo num tempo específico.”

Entenda que tropeços irão surgir

Assim, antes de estabelecer novas resoluções, é preciso perguntar se elas fazem sentido no momento atual de vida e se, dentro das possibilidades subjetivas e materiais, são possíveis de serem realizadas. Nesse sentido, é preciso ter calma e perceber que tropeços podem acontecer.

Essa é a dica de Tiago Henriques, de 32 anos, criador de conteúdo e autor do livro ‘Erra Uma Vez (editora Belas Letras), lançado em outubro deste ano, que traz reflexões sobre as inseguranças criativas e a busca pela perfeição.  

“Comecei o ano passado com projetos demais e um deles era um livro, que exige muita dedicação. Precisei realocar para a frente outra ideia que havia me deixado empolgado e reduzir a carga. Fiquei tranquilo com isso. Os erros, pausas e reajustes fazem parte do processo e não devem ser usados como justificativa para a desistência”, destaca. 

Em seu perfil no Instagram, denominado Tira do Papel, Tiago dá dicas sobre como começar a criar constância, respeitando a saúde mental. Segundo ele, é comum começar o ano  motivado, mas é preciso inserir hábitos sustentáveis à rotina para que as metas sejam concretizadas. Isso significa sair do plano dos desejos e traçar ações, que envolvam planejamento e autoconhecimento, até mesmo para entender o que não deu certo e como melhorar no ano seguinte.  

“Antes, eu simplesmente olhava para o ano-novo e escrevia o que queria, mas quando aplicava não dava certo, porque faltava um plano de ação. Faltava quebrar em metas menores e fazer disso um projeto prático, com passo a passo, programação e, inclusive, preparação para os dias em que não há motivação. Afinal, é tudo sobre o processo e não sobre o objetivo final”, diz. 

Quer debater assuntos de Carreira e Empreendedorismo? Entre para o nosso grupo no Telegram pelo link ou digite @gruposuacarreira na barra de pesquisa do aplicativo. Se quiser apenas receber notícias, participe da nossa lista de distribuição por esse link ou digite @canalsuacarreira na barra de pesquisa. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

‘É preciso ter ócio, tédio e preguiça, palavras demonizadas pela cultura empresarial’

Para psiquiatra e professor Guilherme Navarro, traçar objetivos de ano novo, ato que mimetiza modo corporativo de funcionar baseado em metas, é gatilho para ansiedade

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2021 | 05h00

Traçar metas de ano novo é atividade costumeira para muitas pessoas. Mas, em alguns casos, principalmente quando não se consegue concretizar o que foi idealizado, pode se tornar gatilho para ansiedade e outros problemas de saúde mental

 “Antes de tudo, é preciso questionar por que precisamos de metas? Se a pessoa não tem uma visão crítica sobre isso, o fato de não atingi-las pode ser um reforço negativo e uma frustração”, afirma Guilherme Navarro, psiquiatra clínico e forense e professor da Faculdade de Saúde e Ecologia Humana (FASEH), em Vespasiano, região metropolitana de Belo Horizonte (MG).

Para o professor, há causas que podem impedir o profissional de realizar suas metas de ano novo, como ter resoluções que não estão em consonância com o que se quer. “Porque são introjeções do que ele viu na indústria cultural, na mídia, em redes sociais etc.”, diz Navarro. 

Segundo ele, é comum ter sensação de vazio após cumprir metas que não são do desejo genuíno do indivíduo. “E a cada ano, elas vão ficando cada vez mais ousadas, ambiciosas e difíceis de serem alcançadas. Aí vem a frustração.”

Por que fazemos metas de ano novo? 

A forma como a sociedade se organiza no sistema de trabalho influencia a nossa subjetividade. Isso significa que o nosso padrão de felicidade, de sucesso e de ‘estar subindo na vida’ (como se a vida fosse uma subida) é influenciado por um modo empresarial de funcionar, baseado em tópicos e metas. Temos que alcançar mais e mais, como se fosse uma corrida, uma grande competição. 

Chegamos ao final do ano extremamente cansados e há um feriado que traz uma ideia de renovação, ainda que seja puramente uma data, que é bem conveniente para voltarmos a trabalhar no ritmo anterior do início do ano. 

O próprio fato de a gente pensar em metas é um reflexo desse padrão subjetivo de funcionar. Primeiramente, teríamos que perguntar: por que preciso de metas? Mas isso é tão naturalmente introjetado pela cultura que às vezes nem pensamos nos objetivos, o que pode ser um problema. 

Quando elas podem se tornar um problema para o indivíduo?

Se não tomarmos cuidado, nos tornamos nosso próprio chefe, nosso próprio empregado e estabelecemos conosco determinados padrões de metas que talvez não tenham tanto a ver com o que profundamente almejamos enquanto realizações pessoais. 

Isso pode ser um problema quando as metas são apenas reflexos de introjeções sociais. Quando elas não têm a marca do sujeito e não estão conectadas com os seus próprios anseios há um problema de incompatibilidade. Com isso, elas não vão se cumprir, porque o indivíduo não vai ter condições subjetivas de correr atrás. 

Esse não é o modo mais solidário e coletivo de se pensar a vida. Ainda que eu não esteja competindo abertamente com alguém, a meta é feita em comparação a outras pessoas, por exemplo, da minha faixa etária ou da minha profissão. Essa competição vivida internamente pode ser causa de sofrimento

O fato de estamos tão imersos no mundo do trabalho e influenciados de maneira indireta e direta por produtos culturais (‘coma bem’, ‘faça atividade física’ etc.), acaba nos deixando com a sensação de que estamos sempre em débito com a vida e conosco e que precisamos fazer algo a respeito. 

Não somos infinitos e invencíveis. Precisamos descansar, ter uma noite de sono de qualidade, de ócio, tédio e preguiça, que são palavras demonizadas pela cultura empresarial. É engraçado que o feriado, que era para ser um momento de fim de ano para ficar em família, viajar e ter momentos prazerosos, o indivíduo já está pensando de forma acelerada, no próximo ano e na próxima meta.

Por que muitas pessoas não conseguem cumprir as resoluções?

Essa incongruência entre as metas estabelecidas e concluídas tem duas origens. Uma, que é mais interna, que nem sempre essas metas estão realmente em consonância com o que a pessoa quer genuinamente, porque são introjeções do que ela viu na indústria cultural, na mídia, em redes sociais etc. 

Quando a pessoa não elabora o que realmente quer, isso muito facilmente a impede de cumprir seus objetivos ou de se sentir preenchida. Por isso, é comum permanecer com a sensação de vazio mesmo após cumprir as metas. A cada ano, estas vão ficando cada vez mais ousadas, ambiciosas e difíceis de serem alcançadas. Aí vem a frustração. 

Esse padrão de pensamento em check list precisa de uma reflexão anterior. É importante se perguntar o porquê de se fazer isso. Se faz sentido para a vida da pessoa e se está em consonância com as possibilidades subjetivas e materiais daquele momento. Em caso positivo, está tudo bem correr atrás de algo que queira.

Outra questão é que nem todas as pessoas têm condições materiais e estruturais de atingir suas metas. Se o objetivo é, por exemplo, uma barriga chapada, pode até ser que a pessoa realmente queira, mas se ela é uma mãe de família que trabalha três turnos, como vai conseguir? As oportunidades e as possibilidades de cumprir metas, ainda que estejam em consonância com os desejos mais profundos e internos do indivíduo, não são distribuídas igualmente para todos. Alguns têm mais possibilidades materiais de se fazer isso do que outros. 

Há também questões subjetivas que impedem as pessoas de cumprirem metas, tanto da própria condição de trabalho atual que vivemos, envolvendo, por exemplo, desemprego, precarização dos contratos de trabalho e questões políticas e sociais. Além disso, problemas de saúde mental, como as do universo da ansiedade, também podem ser impeditivos para a conclusão de metas. 

As metas podem ser causa de sofrimentos mentais?

Burnout, ansiedade e depressão são exemplos. Quando pensamos nos adoecimentos psíquicos, estes surgem diante da relação de vulnerabilidades biológicas, sociais, psíquicas e comportamentais, que todos nós temos em maior ou menor grau, e estressores externos.

  • Quer debater assuntos de Carreira e Empreendedorismo? Entre para o nosso grupo no Telegram pelo link ou digite @gruposuacarreira na barra de pesquisa do aplicativo

Determinados momentos de vida muito estressantes podem ser gatilhos de vulnerabilidades que a pessoa nunca soube que tem, levando a quadros de saúde mental, como obsessivo, ansioso, depressivo, bipolar, psicótico, delirante etc. Não existem adoecimentos específicos.

Se as metas se tornarem um estressor muito grande, mesmo uma pessoa previamente tranquila, que não tem nenhuma questão de saúde mental, pode começar a vivenciar algo e é importante que isso seja percebido o quanto antes. Já as pessoas que convivem com quadros como o de ansiedade podem se sentir piores. 

Pode se dizer, então, que são gatilhos para a ansiedade?

A ansiedade, quando é um transtorno, já é vivida como um sentimento bastante incômodo projetado para o futuro. E as metas são projetadas para o futuro. Com isso, a pessoa pode aumentar o processo de preocupação, o que leva a um estado paralisante, gerando mais frustração. 

Se as metas não estão alinhadas com desejos elaborados do que o indivíduo realmente quer, com certeza por ser gatilho para mais ansiedade. Vejo isso com alguma frequência. Pessoas ansiosas porque não conseguem cumprir ou porque colocam metas muito acima das possibilidades subjetivas e materiais do momento de vida. Isso aumenta a quantidade de preocupação e traz sentimentos e sensações desagradáveis. 

Quais as dicas para quem tem dificuldade para concluir objetivos?

O indivíduo precisa se perguntar o porquê das metas. Nem sempre vai conseguir responder sozinho, às vezes precisará conversar com outras pessoas ou mesmo precisará de um processo psicoterápico. Não precisamos ter todas as respostas dentro de nós e, em geral, não temos. 

Se vejo sentido nas minhas metas, preciso pensar em como ir atrás delas no meu momento atual de vida e nas minhas possibilidades psíquicas, subjetivas e materiais. É possível de serem realizadas? Em caso negativo, vamos ficar em paz com isso e no momento certo vamos em busca. 

Não existe uma fórmula, porque somos muitos plurais. Se existisse, estaria pensando num modo muito empresarial. Mas acho que um bom caminho é sempre se perguntar se essas metas e desejos têm realmente sentido e se estão alinhados com o que quero, como vejo o mundo, sobre o que penso e o que quero ser daqui a um tempo.

Uma vez que esses desejos surjam é importante colocá-los no nosso tempo e não na correria da vida. Fazendo dessa forma, com calma, e percebendo que, eventualmente, tropeços podem acontecer, e buscando ajuda quando necessário, pode ser que flua mais naturalmente. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.