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Mudança de perfil deixa vagas de base em aberto

Trabalhador se recusa a aceitar emprego que considera desvalorizado 

Lilian Primi, de O Estado de S. Paulo,

27 de setembro de 2010 | 11h01

O mercado de trabalho começa a dar sinais de que está em curso uma mudança no perfil da mão de obra, especialmente entre os mais jovens. As empresas enfrentam dificuldades cada vez maiores para preencher vagas em funções consideradas mais desvalorizadas culturalmente, como a de operários e de serviços braçais, ou que não exijem qualificação, a exemplo de atendentes de lanchonetes e call centers, forneiros de pizzarias e ajudante de cozinha.

"Há três meses, tenho dez vagas na linha de produção. Quando uma pessoa aceita, fica um mês, ou até conseguir abrir um financiamento da moto, e vai embora. Não consigo completar o quadro de pessoal", conta a gerente de Recursos Humanos da unidade de autopeças da ThyssenKrupp, Christine Vidal. A gerente diz que tentou contratar pessoal mais velho, mas há um teto de idade em função do desgaste físico. "O limite é de 40 anos." E também convencer pela possibilidade de ascensão.

O salário inicial é de R$ 1 mil, mais benefícios, mas o funcionário pode crescer e chegar a supervisor, que ganha R$ 6 mil. "Se ele tiver paciência para estudar, pode fazer um curso universitário e chegar a gerente", conta. Mas nada disso adiantou. "Há um problema de estatus. O operário trabalha de macacão e fica sujo de graxa. Os jovens não gostam, preferem trabalhar no comércio."

Christiane diz que a empresa está buscando automatizar o processo produtivo, para depender menos de mão de obra. "Hoje, 70% do nosso quadro é braçal. Com a automatização, podemos substituir dez operadores por um técnico", diz.

Serviços. A dificuldade da função também é motivo para recusa no setor de serviços. "Fiz uma seleção para atendente de call center em que recebi 540 currículos, chamei 78 para entrevista. Apenas oito apareceram e, destes, só uma candidata concordou em ir fazer entrevista com o cliente. E não compareceu na data marcada", conta a diretora de projetos da Deep, empresa de desenvolvimento de pessoas, Juliana Almeida Dutra. A candidata ligou depois de algum tempo para o empregador e acabou aceitando a oferta.

A Deep é especializada em seleção para posições de base. No primeiro semestre deste ano, preencheu 154 vagas. "No segundo semestre, até agora, já fechamos 475 e temos em torno de 40 vagas abertas, que não conseguimos fechar", conta.

O aquecimento econômico é apontado por Juliana como um dos motivos para a dificuldade. Outro, é o desinteresse dos jovens. "Parece que eles simplesmente não querem trabalhar. Muitas vezes encontramos a mesma pessoa em vários processos de seleção, o que indica que ela não encontrou trabalho melhor", comenta.

Salário. O segundo motivo está na exigência das empresas, que pedem especialização grande para categorias de ‘chão de fábrica’, mas continuam pagando salários baixos para a expectativa dos candidatos. Luciana conta o caso de um cliente que precisava contratar um operacional de logística (funcionário que controla o estoque dentro da empresa). "Essa vaga foi muito difícil de preencher porque o cliente pediu formação superior em logística, experiência comprovada, que morasse próximo, que fosse homem e de determinada faixa etária e ofereceu um salário de R$ 700", conta. Ela conseguiu, depois de muito esforço e tempo.

Não conseguiu, porém, para as três vagas de analista de marketing, por falta de pessoal qualificado, nem para a vaga de secretária bilíngue. "O cliente oferece um salário mínimo. Impossível", diz.

A pizzaria Zucchinni também não encontrou o seu forneiro, funcionário que ajuda o pizzaiolo, manipulando a pizza no forno. "Nós ampliamos a nossa operação, oferecendo festa com cardápio de pizza, e precisávamos aumentar o quadro. O forneiro simplesmente não existe no mercado", conta uma das sócias, Gisele Benedetti. A saída foi remanejar o pessoal e contratar mais um pizzaiolo.

O mesmo acontece com uma loja de sucos que funciona em um shopping do Interior de São Paulo. "Abrimos há nove meses, mas nenhuma das quatro atendentes está aqui desde o início. Temos uma que está há seis meses e outra que completou três e disse que vai ficar", conta a proprietária, Regiane Correa. O problema aqui é o trabalho aos fins de semana. "São jovens que querem um salário para bancar a balada e, se trabalhar de sábado e domingo, não tem balada." 

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