Jonne Roriz/ Estadão - 10/3/2011
Jonne Roriz/ Estadão - 10/3/2011

Mulheres continuam longe dos cargos de liderança nas empresas, diz estudo da B3

Levantamento inédito mostra que só 11% das empresas listadas na Bolsa têm mais de duas diretoras em seus quadros; situação nos conselhos é melhor, com mulheres ocupando 55% das cadeiras

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2021 | 05h00

Apesar da discussão de uma maior participação das mulheres em cargos de liderança ter aumentado nos últimos anos, ainda há um grande caminho a se percorrer para alcançar algo próximo de uma igualdade. Até mesmo nas empresas de capital aberto, que são as empresas com maiores níveis de governança corporativa no Brasil. De acordo com um levantamento inédito realizado pela B3, 61% das empresas listadas na Bolsa não possuem sequer uma mulher ocupando cargo nas diretorias executivas. 

No caso do conselho de administração, a participação feminina é um pouco maior e chega a 55%. Para a pesquisa, foram consideradas 408 empresas que tinham ações negociadas na Bolsa até junho de 2021. 

Porém, o problema fica ainda mais evidente quando se é analisada a penetração relativa das mulheres em cargos de liderança. Apenas 11% das companhias listadas possuem duas ou mais representantes femininas em cargos diretivos. No caso dos conselhos, somente 6% das companhias possuem três ou mais mulheres atuando como conselheiras. 

A própria B3 se encaixa nesse número. A empresa que opera a Bolsa tem Ana Carla Abrão Costa, Claudia Farkouh Prado e Cristina Anne Betts como conselheiras, mas o colegiado inteiro conta com 11 integrantes. Ou seja, as mulheres têm uma fatia de 27% dentro do conselho. No caso da diretoria executiva, são duas mulheres e oito homens.

Uma delas é Ana Buchaim, diretora executiva de pessoas, marca, comunicação e sustentabilidade. Segundo ela, a companhia possui metas internas para aumentar a representatividade das mulheres e afirma que não é simplesmente virar uma chave para que essa igualdade comece a ser mais visível. “É importante ter o conhecimento da companhia e olhar os dados não como uma foto, mas como uma evolução ao longo do tempo”, diz ela.

De fato, a B3 consegue se posicionar em um nível acima da grande maioria das empresas listadas no Novo Mercado, nível que exige regras mais altas de governança corporativa, quando se analisa a diversidade no conselho de administração. São apenas 13 as empresas que possuem três ou mais mulheres como conselheiras, o que chega a 7% do total, apenas um ponto porcentual acima da média do geral.

Formação

Para Valéria Café, diretora de vocalização e influência do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), existem centenas de mulheres que poderiam ocupar essas cadeiras, inclusive com formações específicas da própria organização. O problema, no entanto, é que existem vieses inconscientes na maioria das lideranças que não os faz buscar pessoas diferentes do seu próprio perfil. Desta maneira, o perfil do homem branco continua em alta mesmo com as discussões de diversidade avançando. 

“As pessoas precisam se perguntar: será que não existem mulheres para compor o meu conselho e minhas diretorias? E que tenham experiências diferentes? E que sejam de etnias diferentes? É importante que essas lideranças possuam esse novo olhar”, afirma Valéria. Por enquanto, essa visão continua atrasada no Brasil: em países europeus como França e Noruega o percentual de participação das mulheres em conselhos é de mais de 44%.

Otimismo

Marília Rocca, que hoje é presidente da subsidiária brasileira da empresa de cosméticos Hinode e atua como conselheira desde 2012, enxerga o copo meio cheio. Ela diz que nunca recebeu tantos telefonemas pedindo por indicações de mulheres tanto para ocupar cargos em conselhos quanto em diretorias executivas – Marília, atualmente, senta em uma das cadeiras do conselho do banco Santander. “As coisas estão melhores do que antes, mas é necessário que haja um movimento para que existam mais mulheres ocupando cargos na mesma empresa”, afirma Marília, que cita o 30% Club, que é uma campanha global liderada por grandes executivos para aumentar a penetração da diversidade corporativa para, pelo menos, 30%. 

Para Flavia Mouta, diretora de emissores da B3, trata-se de um movimento sem volta. Ao mesmo tempo, ela admite que os números mostram que existe um caminho grande a ser percorrido. “Não dá mais para fugir dessa história e nem acredito que esses números possam ser vistos com pessimismo, pois é um retrato de hoje. Mas temos um caminho a percorrer para que, de fato, tenhamos um mercado mais plural”, afirma Flavia.

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