Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Orientação para jovens mira soft skills não aprendidas na escola

Iniciativas criam ementas para escolha de carreira a partir de habilidades comportamentais exigidas pelo mercado; projeto inclui workshop de autoestima para meninas periféricas

Marina Dayrell , O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h02

O mercado de trabalho está diferente. Se já é difícil para quem está nele acompanhar as mudanças, para quem está começando pode ser ainda mais complicado. Projetos sociais criados para capacitar jovens vão além das ementas escolares - como matemática, física e história - e investem em outras habilidades técnicas e comportamentais para preparar os futuros profissionais para o mundo das carreiras.

“A gente tem uma mentalidade de escola de que tem que escolher uma carreira, mas o foco tem que ser nas possibilidades do que o jovem pode fazer. Tem gente que gosta de exatas e, por isso, vai fazer engenharia. Então, eu pergunto ‘será que gostando de exatas você só pode fazer engenharia?’. É preciso considerar habilidades, aptidões e estilo de vida”, explica Eduardo Valladares, designer de experiências de aprendizagem.

Segundo o professor, que deu aula por 16 anos, alunos de ensino médio e universitários costumam chegar ao mercado de trabalho apenas com os conteúdos técnicos mais tradicionais e com uma carência grande em habilidades comportamentais, as soft skills. Ele defende que, principalmente no mundo bani (sigla em inglês para frágil, ansioso, não linear e incompreensível), onde as incertezas são grandes, essas características são ainda mais necessárias. 

“Na escola não se aprende as habilidades socioemocionais que, no futuro, vão ser necessárias no mercado de trabalho. E é algo que dá para ensinar, com debate, troca, escuta. Tem que mudar a mentalidade de querer ir para a escola apenas para escolher uma carreira, mas ir para aprender a ter mais ousadia, resiliência, senso crítico, capacidade de colaboração, aí sim dá para aprender a escolher um futuro melhor”, aponta.

Eduardo lançou neste ano um novo projeto para ajudar na capacitação e na empregabilidade dos jovens. A iniciativa, batizada de “Criaway: não é sobre seguir caminhos, é sobre criar futuros”, é um playbook (livro com tarefas a serem feitas pelo leitor) para provocar reflexões em quem está começando e até mesmo para os que estão questionando a sua trajetória de carreira.

Conexão com o que as empresas buscam

Para acompanhar as mudanças do mercado e conseguir aumentar a empregabilidade de jovens, o Instituto Proa - organização não-governamental que promove capacitação - foi direto nas empresas para criar a ementa de suas aulas. Hoje, a instituição oferece dois tipos de cursos: um para quem busca o primeiro emprego e outro, mirando nas vagas em tecnologia, para quem quer se tornar programador. Em ambos, o currículo vai além da formação técnica e passa também pela comportamental e pela cultural, que aborda projeto de vida, caminhos para continuar estudando e opções de graduação.

“Nós precisamos formar o jovem para que ele não desista do trabalho. Entrevistamos 70 empresas e perguntamos o que as faz contratar um jovem em início de carreira. A partir disso, montamos uma formação de 100 horas, que passa por autoconhecimento, planejamento de carreira, comunicação, projeto de vida e raciocínio lógico. Vimos que as competências comportamentais permanecem, o que muda muito são as técnicas. Hoje, é mais exigido resolução de problemas, análise de dados, uso de ferramentas online e tecnologia, mesmo que não seja para uma carreira em tecnologia”, diz Alini Dal'Magro, CEO do Instituto Proa.

O público-alvo das duas iniciativas são jovens entre 17 e 22 anos, com renda per capita entre R$ 600 e R$ 700. Para ser selecionado, é preciso passar por provas de português e matemática, além de um teste comportamental. Para a Plataforma Proa (com foco em quem busca o primeiro emprego) são 8.500 vagas por ano, já para o ProProfissão (voltado para futuros programadores) são 300 vagas anuais. 

No fim do curso, o instituto conecta os formandos com empresas que possuem vagas disponíveis. Segundo Alini, 85% dos jovens que se formaram com o Proa estão empregados e 50% cursam uma graduação após o fim do curso. Ambos são online e gratuitos. 

Possibilidades para meninas periféricas

Enquanto formam jovens profissionais, há projetos que também olham para outros problemas sociais, como a desigualdade de gênero. Para isso, além das capacitações técnicas para que meninas se tornem profissionais bem sucedidas, as iniciativas também focam em especificidades vividas por mulheres, como fazê-las acreditar que elas pertencem aos espaços predominantemente masculinos.

No Instituto Plano de Menina - projeto social com foco em conectar meninas de comunidades com mentoras e, posteriormente, com o mercado de trabalho - as alunas têm aulas com coaches de carreira e criam um mapa de planos para ajudá-las a ter uma direção profissional. Dentro de cada edição do programa, há aulas de temas como autoestima, confiança, pertencimento, empreendedorismo, técnicas de vivência e educação financeira.

“A menina mais jovem periférica geralmente tem muitos rótulos em relação à autoestima, às possibilidades que ela tem, porque ela é muito tolhida na família. Não por maldade, mas por falta de condição financeira. Então a autoestima é o nosso principal pilar de trabalho. Se não trabalharmos a autoestima, ela não consegue absorver o resto do conteúdo. Elas precisam ‘hackear o sistema’, porque essas meninas vão ser contratadas por grandes empresas que, muitas vezes, não têm cultura de inclusão”, explica Viviane Duarte, criadora do Instituto Plano de Menina.

Trabalhar a autoestima foi o ponto mais importante do curso para Erika Lucy, de 20 anos, que participou do Plano de Menina quando estava no último ano do ensino médio, há três anos. Na época, ela lidava com episódios de fobia social, ansiedade e bastante timidez.

“Eu fazia terapia junto com a jornada do Plano de Meninas, mas mesmo assim não entrava na minha cabeça que eu podia conquistar alguns lugares. Por isso, o workshop de autoestima foi o mais forte para mim. Eu pude conversar com outras pessoas que tinham os mesmos problemas que eu e isso fez com que eu me sentisse mais confortável. Eu comecei a pensar que eu ia chegar em algum lugar um dia”, conta.

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Érika já participou de duas edições do projeto e saiu empregada nas duas. Hoje, depois de quase um ano como jovem aprendiz de Recursos Humanos na ZX Ventures - fundo da Ambev para inovação e aceleração - ela foi efetivada como auxiliar administrativa no time de gestão de pessoas da empresa. Depois da capacitação, também começou a cursar Artes Visuais na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Toda a formação do Plano de Menina acontece de forma ao vivo e online e podem participar meninas de periferia que tenham entre 16 e 24 anos. Segundo Viviane, já passaram mais de 10 milhões de meninas pela plataforma. 

Na área de tecnologia, a startup social {reprograma}, cujo foco principal é ensinar programação para mulheres (com prioridade para mulheres trans, travestis e negras), criou uma frente especial para meninas de 14 a 17 anos. Além do conteúdo principal (o de programação front end básica), o curso foca em dar para as alunas uma perspectiva de futuro, mostrando as possibilidades de atuação profissional quando elas tiverem idade para isso. 

“Nós trabalhamos um pouco as habilidades sociocomportamentais durante o curso. Elas trabalham em grupo, recebem mentoria de professoras do mercado, com conteúdo sobre carreira e visão de mercado, para mostrar o que dá para fazer em tecnologia, que não é só programação. Também temos uma orientadora pedagógica, que auxilia nas questões psicológicas. Reforçamos a sensibilização e o empoderamento, para que elas entendam que não é um monstro de sete cabeças, que não precisa tirar 10 em matemática para trabalhar com tecnologia”, diz Bárbara Santiago, coordenadora de Operações e ex-aluna da {reprograma}.

A iniciativa, online e gratuita, está na sua terceira edição e seleciona, em média, 60 meninas por turma. Bárbara explica que, por serem muito jovens, o objetivo do curso é mais focado em abrir o leque de possibilidades do que uma empregabilidade imediata, mas que, após a conclusão, há um acompanhamento das ex-alunas.

“Nós fazemos pesquisas para entender o que elas fizeram após o curso. É mais difícil trabalhar a empregabilidade com as jovens do que com as adultas. Nós procuramos saber o impacto que o curso teve na vida delas, se ele abriu a mente e as oportunidades para buscar outras coisas na vida profissional”, conta.

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