Mario Bock
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Por que vagas de emprego para pessoas negras ainda incomodam?

Anúncio para assistente de roteirista do podcast do canal Não Inviabilize, exclusivo para mulheres negras e indígenas, gerou ameaças à podcaster Déia Freitas; especialista em diversidade Liliane Rocha explica que recrutamento é legítimo

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2022 | 16h40

Na última terça-feira, 11, uma vaga de emprego publicada no Twitter extrapolou a bolha da rede social e levantou comentários, ameaças e xingamentos à podcaster Déia Freitas, do canal Não Inviabilize. O motivo: a vaga é direcionada a mulheres negras e indígenas. 

A oportunidade de trabalho para ser assistente de roteiro dos podcasts do canal não é a primeira dedicada exclusivamente para profissionais negros. Em 2020, no contexto das grandes empresas, Magazine Luiza e Bayer criaram processos seletivos direcionados a pessoas negras no Brasil, que também foram alvo de críticas e acusações de discriminação, uma herança marcada pelo racismo no País. 

O anúncio da vaga é capaz de fazer brilhar os olhos de muitos candidatos pela grande quantidade de informações que apresenta - algo bastante incomum no mercado. Antes de mandar o currículo, quem se candidata já sabe a função, o salário, o valor do bônus, o tipo de contrato, o modelo de trabalho, as funções realizadas e o dia a dia da empresa. 

No entanto, foi a informação de que a oportunidade é exclusiva para mulheres negras e indígenas que fez com que Déia recebesse ameaças e tivesse o e-mail, disponibilizado para o envio dos currículos, suspenso por algumas horas. Desde quarta-feira, o e-mail voltou a funcionar e a podcaster contou no Twitter que, além dos currículos que fogem às exigências da vaga (como, por exemplo, de pessoas brancas), ela tem recebido muitas candidaturas que se enquadram no perfil do anúncio.

Para entender mais sobre o cenário de recrutamento direcionado e exclusivo a grupos minorizados no Brasil, o Sua Carreira conversou com a consultora de Sustentabilidade e Diversidade Liliane Rocha, da Gestão Kairós. 

“Já houve um entendimento do Supremo Tribunal Federal que é: ações afirmativas são válidas em uma sociedade marcada pelo preconceito. Então, quando a gente pode falar sobre a importância de ter uma ação afirmativa? Quando a gente, por algum contexto histórico, em algum momento da sociedade, criou institucionalmente um tipo de lacuna, uma desigualdade que a gente em algum momento vai ter que corrigir. A gente está falando agora em 2022 de correções de questões de 200 anos atrás, que é quando a gente fala, por exemplo, do processo de escravidão”, explica.

Ainda que haja grandes diferenças entre os processos seletivos feitos por uma pequena empreendedora e os criados por grandes empresas, principalmente na repercussão e na própria estrutura para lidar com ela, Liliane explica que uma postura antirracista precisa vir de todos os lugares.

“Para não ser racista, é necessário que a pessoa, independente de ser progressista ou conservadora, do partido político, da classe social, que ela tome consciência da história de construção do Brasil, do que foi o período de escravidão no Brasil, do legado que deixou para a gente enquanto sociedade e do quanto é importante que cada um de nós atue no nosso dia a dia, assim como a Déia Freitas fez, que é ter uma ação concreta e prática antirracista. Isso dá trabalho e demanda muita consciência e muito entendimento da sociedade”, comenta.

Confira, abaixo, o bate-papo com a consultora de Sustentabilidade e Diversidade Liliane Rocha:

Na sua experiência com consultoria de diversidade, como você vê a questão dos processos seletivos intencionais e direcionados. As empresas fazem? Também é difícil para elas lidar com a repercussão? 

As empresas têm feito ações e iniciativas focadas e direcionadas ou, como a gente chama historicamente no Brasil, ações afirmativas, como o caso da Bayer e da Magazine Luiza. A Ambev, por exemplo, tem programa de estágio focado e tem vagas focadas para profissionais negros no trainee. A Dasa, da área da saúde, também fez um programa recentemente, aberto para todo mundo, mas com vagas reservadas para pessoas com marcadores identitários de diversidade, inclusive pessoas negras.

Toda vez que elas fazem algo assim, elas sofrem com uma repercussão equivocada por uma parcela privilegiada da população que sinaliza esse tipo de ação como uma discriminação reversa, 'racismo reverso', preconceito e não o é. O caso do Magazine Luíza foi muito expressivo para a gente, porque o Supremo Tribunal Federal parou para olhar sobre essa questão e, em julgamento do Recurso Extraordinário 597285, que é um entendimento que versa para todos os casos parecidos com esse, diz que sim, ações afirmativas são válidas em uma sociedade preconceituosa. 

O e-mail que a Déia colocou para a vaga chegou a ser suspenso por um tempo e ela disse ter recebido muitas ameaças de processos por estar, segundo as pessoas que a acusaram, ‘discriminando homens e pessoas brancas’. Há algum cabimento nesse tipo de fala?

Não há um entendimento desse tipo de fala. As pessoas, se a processarem, vão perder, porque legalmente essa questão já foi entendida, já houve esse entendimento do Supremo Tribunal Federal que é: ações afirmativas são válidas em uma sociedade marcada pelo preconceito.

Então, quando a gente pode falar sobre a importância de ter uma ação afirmativa? Quando a gente, por algum contexto histórico, em algum momento da sociedade, criou institucionalmente um tipo de lacuna, uma desigualdade que a gente em algum momento vai ter que corrigir. A gente está falando agora em 2022 de correções de questões de 200 anos atrás, que é quando a gente fala, por exemplo, do processo de escravidão. 

É importante relembrar e afirmar o tempo todo que, quando falamos de reserva de vagas e ações afirmativas, não se trata de discriminação, porque essas ações atendem a critérios específicos. São sempre ações temporárias, proporcionais e que focam em um grupo que foi temporariamente discriminado, como é o caso, por exemplo, de mulheres negras e indígenas.

São medidas e ações temporárias que têm um tempo de começo e de fim, essa vaga, esse processo, nesse momento. Proporcionais, ou seja, a gente não tem pessoas negras aqui na empresa, o percentual de pessoas negras é muito baixo ou o percentual de pessoas negras, de pessoas indígenas, de mulheres é muito destoante do que a gente vê na demografia da sociedade brasileira. Então, precisamos atuar proporcionalmente nesse sentido e focando um grupo historicamente discriminado.

Quando a gente vê que nas grandes empresas brasileiras, segundo o Perfil Social Racial e de Gênero do Instituto Ethos de 2016, mulheres na liderança são 13%, negros são 4,7%, pessoas com deficiência são 0,6%, LGBTQPIA+ nem tinham os dados nesse estudo, pessoas indígenas o percentual extremamente baixo, a gente olha para esses percentuais e olha para a demografia da sociedade brasileira e vê que 52% são mulheres, 56% são negros, 24% são pessoas com deficiência e 10% são pessoas homossexuais e por aí vai. A gente entende que ações afirmativas no campo das políticas públicas, das ações e do planejamento estratégico empresarial são necessárias.

A gente tem constantemente esclarecido isso com a sociedade. Na gestão Kairós [consultoria], temos um guia gratuito e online que versa sobre a constitucionalidade de ações afirmativas de processos seletivos focados em grupos minorizados historicamente na sociedade. É muito importante a sociedade como um todo entender, apoiar e estimular para que as grandes empresas e o poder público também, cada vez mais, realizem ações como essas de cunho afirmativo, intencional e direcionado.

Por que processos seletivos e vagas exclusivas para grupos minoritários, nesse caso, o de profissionais negros, existem? Por que eles são necessários no Brasil?

Quando a gente fala sobre a correção de injustiças sociais, elas foram historicamente construídas e geradas por uma ausência, uma lacuna, uma falta de políticas públicas, como é o caso do Brasil, um País que teve 388 anos de escravidão, 388 anos onde a população negra foi privada de acesso a direitos básicos, como saúde, educação, trabalho, cultura e esporte. Um País onde a gente vê um processo de abolição como o que aconteceu, no qual a Lei Áurea tinha somente dois artigos.

Essa correção não foi feita lá na ocasião da abolição, então a gente chega no ano de 2022 falando de um País no qual a gente tem cerca de 200 milhões de brasileiros, com 56% da população composta por negros, ou seja pretos mais pardos, e a gente tem que falar em 2022 sobre essa realidade do Brasil de desigualdade para essa parcela da população, marcada por essa questão étnico-racial. 

Portanto, a gente tem obrigatoriamente que falar dentro de todos os espaços de poder e de geração de renda, inclusive dentro das grandes empresas, sobre como a gente traz essa parcela da população. Em particular nas grandes empresas, a gente tem estudos que mostram que dentro do quadro funcional delas há cerca de 30% de negros, na liderança cerca de 4,7% de negros, ou seja, um total de desnivelamento percentual - inclusive representativo - em relação à sociedade brasileira.

Um dos pontos que a Déia levantou no Twitter é que grande parte dos ataques que ela recebeu estavam vindo não só de conservadores, mas de pessoas ditas progressistas. Diante disso, por que você acha que as pessoas ainda se incomodam com vagas direcionadas exclusivamente a profissionais negros?

Bom, o Brasil é um País construído e sedimentado por meio do racismo estrutural. O racismo estrutural e institucional que a gente vive no permeia todas as classes sociais, permeia progressistas e conservadores. Ele permeia pessoas dos mais variados partidos políticos, pessoas com e sem marcadores identitários de diversidade. O racismo estrutural está em todos nós, por isso que ele é estrutural. 

Além disso, a gente tem a questão dos vieses inconscientes de raça, de gênero, que são aquelas ideias pré-concebidas, equivocadas e sedimentadas na nossa mente como se fossem um conhecimento, que nos levam a tomar decisões muito rápidas sem refletir, sem analisar, sem olhar dados, indicadores e a história do País. Então, a gente percebe essa reação das pessoas, essa reação racista - que é uma palavra que a gente não gosta de usar. Mas o que é esse racismo? É essa distinção entre brancos e negros inferiorizando, desqualificando, em geral, pessoas negras, ou naturalizando a ausência de pessoas negras em grandes empresas, no poder público, em espaços de poder. Quando a gente naturaliza essa ausência, acha que tudo bem e, portanto, faz parte desse pacto do racismo estrutural que a gente vê hoje no Brasil, a gente percebe que isso está presente em todas as pessoas. 

Para não ser racista, é necessário que a pessoa, independente de ser progressista ou conservadora, do partido político, da classe social, que ela tome consciência da história de construção do Brasil, do que foi o período de escravidão no Brasil, do legado que deixou para a gente enquanto sociedade e do quanto é importante que cada um de nós atue no nosso dia a dia, assim como a podcaster Déia Freitas fez, que é ter uma ação concreta e prática antirracista. Isso dá trabalho e demanda muita consciência e muito entendimento da sociedade.

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