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Preconceito racial dificulta inserção no mercado para 75% dos profissionais

Na contramão, 65% dizem nunca ter sofrido racismo no processo seletivo; para InfoJobs, contraste de dados pode estar no preconceito velado e no melhor preparo do RH frente à empresa

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2022 | 11h43

Uma pesquisa, realizada pela plataforma de vagas InfoJobs, mostra a relação entre o racismo, muitas vezes velado, no mercado de trabalho e as dificuldades de profissionais negros em se inserir nas empresas. De acordo com os dados obtidos, 65% dos respondentes que se autodeclaram negros afirmaram que nunca sofreram preconceito racial durante os processos seletivos. No entanto, um outro dado obtido pelo levantamento contrasta com a informação: quando perguntados se a questão racial dificulta a colocação no mercado de trabalho, 75% disseram que ‘sim’ ou ‘às vezes’.

Outros dados revelados pela pesquisa reforçam os obstáculos que pessoas negras enfrentam no mercado de trabalho. Para 73% dos respondentes, pessoas negras não possuem as mesmas chances que outros profissionais. Para 85%, ainda que uma pessoa negra seja extremamente qualificada para uma posição, ela irá enfrentar dificuldades para conquistar uma vaga, quando comparada a um candidato branco. 

Segundo o InfoJobs, os dados revelam o preconceito racial que existe no mercado de trabalho, mas que, muitas vezes, é difícil de ser identificado. 

"Além da dificuldade em identificar de fato o que é uma forma de preconceito, já que muitas vezes o racismo pode ser velado - como por exemplo em um olhar ou uma forma de falar com diferentes candidatos - existe o fato de que talvez em algumas organizações o RH não expresse racismo durante o processo seletivo, mas ainda assim a questão racial seja um fator que dificulta a colocação profissional", explica Jefferson Silva, coordenador comercial do InfoJobs.

Entre essas dificuldades estão, por exemplo, as diferenças salariais, ainda que sejam proibidas por lei. Segundo um levantamento realizado pelo Insper, em 2020, um homem branco chegou a ganhar mais que o dobro do que as mulheres negras para executar o mesmo trabalho. 

Outro obstáculo é a inserção de profissionais negros apenas nos cargos de entrada das empresas, sem possibilidade real de ascenção à liderança. De acordo com a pesquisa, 86% dos entrevistados acreditam que exista dentro das empresas preconceitos velados ou não, que atuam como barreira que impede o crescimento profissional de pessoas negras. Entre não-negros, 67% acredita que exista preconceito velado nas empresas contra profissionais negros. 

Dificuldade para denunciar preconceito racial

O levantamento também perguntou sobre as experiências vividas dentro das empresas. 39% dos respondentes afirmaram já ter sofrido preconceito racial no trabalho. Quando perguntados sobre o que fizeram após o episódio, 61% disse que omitiu a situação, por receio de denunciar, 18% confrontrou a pessoa que cometeu a discriminação, 11% reportou aos superiores e apenas 10% compartilhou com o RH. 

O medo de denunciar a discriminação racial sofrida no trabalho pode ser explicado pelos dados da pesquisa. Em 48% dos casos, quem cometeu a discriminação foi alguém que ocupa uma posição superior na empresa. Embora, quando se trata de atos de racismo, toda a hierarquia da organização pode estar envolvida: 28% dos casos foram cometidos por pares e 23% por subordinados. 

A pesquisa foi feita em janeiro, com 1.567 profissionais, sendo 71% deles negros, 27% brancos, 1% amarelo e 1% indígena. Entre os respondentes, 72% estão desempregados. Entre os que estão empregados, 56% possui cargos mais baixos, como auxiliar e assistente, seguidos por analistas, com 13%. Diretores e gerentes são apenas 1% e 3%, respectivamente. 

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