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Presença feminina no ecossistema de inovação demanda aliados

Jornada tripla e dificuldade para acessar investimentos estão entre agravantes dos desafios que mulheres enfrentam no mercado de trabalho, escreve gerente de programas do Google for Startups Brasil

Fernanda Caloi, Especial para o Estadão

10 de março de 2021 | 15h00

Não é novidade para ninguém que o mercado de trabalho é muito desafiador para mulheres – uma realidade que se repete no ecossistema de startups do Brasil e do mundo. Um estudo divulgado pela Crunchbase em 2020 indicou que, mesmo apresentando um aumento de oito vezes nos últimos dez anos, os investimentos em empresas fundadas por mulheres representam apenas 2% do total.

Trabalhar dentro desse mercado e levantar a bandeira pelo desenvolvimento do empreendedorismo feminino há muitos anos me permitiu perceber alguns pontos que contribuem para esse dado tão discrepante. Se você jogar no Google o substantivo "mulher" somado a termos como "investimento", "investimento-anjo" ou "venture capital", você verá que o substantivo some porque a maior parte dos resultados serão de investidores homens ou de empresas lideradas por homens. 

Esse fator pode dificultar o acesso ao capital, pois nós, humanos, tendemos inconscientemente a escolher os nossos iguais, e assim diminui a confiança de mulheres empreendedoras pela dificuldade em encontrar personagens de sucesso nas quais se inspirar. No ano passado, ouvi uma história muito simbólica sobre isso: uma das startups da nossa rede, fundada por um homem e por uma mulher, recebeu cinco contatos de investidores. Mas, mesmo tendo a mulher como líder formal da empresa, a pessoa procurada pelos fundos de venture capital para negociar foi o homem.

A comunidade de empreendedores brasileiros formada pelo Google for Startups nos últimos anos, aliás, nos ajuda a ter uma boa ideia do panorama do ecossistema. Ela aponta para uma melhora no cenário da desigualdade entre os gêneros, mas que ainda está longe de ser a ideal. Quando inauguramos o Campus em São Paulo em 2016, as mulheres fundadoras representavam 21% da rede. Hoje, são 28%. O fato mais curioso nesse dado é o de que as startups das nossas redes têm mais colaboradoras mulheres que homens – 51% versus 49% – e quando olhamos para a presença das mulheres na comunidade como um todo, o percentual cresceu mais, partindo de 31% para 43%.

Existe ainda o fato de a mulher ser indiretamente considerada responsável por uma série de obrigações pessoais que fazem com que muitos investidores duvidem de sua capacidade em liderar uma empresa. "Ela vai dedicar seu tempo a cuidar da casa e dos filhos ou a desenvolver o seu negócio?". "É muito difícil para a mulher conciliar a vida pessoal com a vida profissional". 

Realmente, é muito difícil. Não só para as mulheres, como para qualquer pessoa em uma época em que todas as informações circulam o tempo todo na palma das nossas mãos. Mas esse não é o ponto. Hoje, já é provado que as mulheres carregam um papel cada vez mais importante como líderes. Segundo um estudo do Boston Consulting Group (BCG), as mulheres conseguem desenvolver uma visão mais completa do negócio, obtendo melhores resultados a longo prazo. A pesquisa afirma que as startups fundadas por mulheres têm, para cada dólar investido, resultados financeiros cerca de 50% maiores do que as fundadas por homens.

Aos poucos, o ecossistema está percebendo isso. Existem iniciativas que fazem um trabalho incansável nesse sentido, como a aceleradora e hub de inovação B2Mamy, ou a versão regional da Female Force, rede de mentoria de mulheres para mulheres, liderada pelas fundadoras de um dos únicos fundos de venture capital do mundo que tem 100% das sócias mulheres, o MAYA Capital. A cada dia, vemos novos projetos nascendo para endereçar essa lacuna, seja com foco em educação, advocacy, redes de suporte, programas de preparação e o que eu considero uma das mais importantes: dando a visibilidade que essas mulheres merecem.

Se há uma coisa que eu aprendi trabalhando ao lado de mulheres brilhantes, vendo como elas conseguem superar os obstáculos e chegar ao seu lugar de destaque, é que isso não é possível se os homens também não estiverem ao seu lado. Os aliados – neste caso os homens que entendem a importância de lutar por igualdade de gênero – são cruciais neste movimento, tanto no campo profissional, quanto no pessoal.

Cabe aos homens compartilharem seus espaços de fala, reconhecerem o trabalho e investirem em startups de mulheres, e elevarem a presença delas no mercado, seja em uma palestra, um painel, uma entrevista ou mesmo em uma reunião dentro da sua própria empresa. 

A ONU estima que mais igualdade entre homens e mulheres na economia poderia impulsionar o PIB global em mais de 6 trilhões de dólares, um número impressionante. É fato que ainda falta percorrer um bom trajeto para atingirmos esse patamar e termos uma sociedade que ofereça oportunidades iguais para todos. Mas olhar para trás e ver o quanto evoluímos nos últimos cinco anos me dá força para acreditar que estamos no caminho certo. 

* Fernanda Caloi é gerente de programas do Google for Startups Brasil

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