Felipe Rau/ Estadão
Egnalda Côrtes largou a carreira em vendas para assessorar criadores de conteúdo negros Felipe Rau/ Estadão

Profissionais dão guinada na carreira para trabalhar com tecnologia

Chamada de 'pivotagem', adaptação em área que não é a de formação prolonga sobrevivência no mercado, dizem especialistas

Érika Motoda e Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2020 | 05h00

Antes da internet, era impossível pensar na importância de um analista de mídias sociais ou de um redator especializado na experiência do usuário durante a navegação de um site. Hoje, essas e outras frentes digitais vêm absorvendo uma mão de obra que não é graduada especificamente na área, mas que se adaptou para ocupar postos de trabalho criados pela internet.

A guinada na carreira – ou “pivotagem”, como é chamada no jargão corporativo – pode até ser considerada uma estratégia de sobrevivência, já que, para especialistas, quem não se adaptar vai acabar sendo preterido no mercado de trabalho.

Por isso, vai ser cada vez mais comum encontrar gente como Egnalda Côrtes, que largou a carreira em vendas para assessorar criadores de conteúdo negros. Ou como Daniel Laurentino, que mal pegou o diploma em Design e foi programar aplicativos. Ou também Camila Gaidarji, que durante o antigo emprego percebeu um nicho de mercado se abrindo e foi estudar por conta própria sobre UX (user experience) para participar da novidade. Tem também Jéssica Souza, que descobriu a área de tecnologia durante a faculdade de Engenharia Elétrica e Eletrônica e hoje atua como cientista de dados.

Para entender a dinâmica da criação de carreiras no mundo digital, é necessário voltar à década de 1980. Foi durante a “década perdida” que aumentou a demanda por profissionais da área de computação, explica Tania Casado, professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Escritório de Carreiras (ECar). A principal tarefa deles, conta, era automatizar funções para auxiliar empresas a reduzir o quadro de funcionários.

As tecnologias foram ficando sofisticadas e fizeram muitas carreiras desaparecerem nos últimos 30 anos. Por outro lado, inúmeras frentes de trabalho em diferentes áreas foram criadas graças às inovações. 

“Não é só o profissional que desenvolve o aplicativo que tem emprego, o que faz uso também tem”, fala Tania. A pandemia pode ter acelerado a necessidade de estar nas redes sociais e oferecer serviços online, um movimento que parece não ter volta.

Segundo o ranking dos dez profissionais mais procurados pelas empresas, feito pelo LinkedIn entre junho e julho, nove estão diretamente ligados à área de tecnologia. No começo do ano, a rede social profissional também havia divulgado uma lista com as 15 profissões emergentes no Brasil, das quais nove estavam diretamente relacionadas à tecnologia da informação (TI)

Uma das principais áreas beneficiadas por essa tendência é a de desenvolvimento de novas tecnologias. Além da criação de softwares, a expansão do mercado exige profissionais que lidem com cibersegurança, infraestrutura e análise de dados.

Entre 2007 e 2019, a quantidade de empregos em TI no País saltou de 241 mil para 472 mil. Os dados são de um estudo feito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) com a Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação do Paraná (Assespro-PR). 

Adriano Krzyuy, presidente do Assespro-PR, afirma que a TI segue crescendo porque é um vetor de desenvolvimento para os demais setores. “Você aplica a TI na medicina com a telemedicina, no varejo com o delivery, na diretrização na indústria com a Indústria 4.0”, cita.

Nessa transformação digital, o conceito de interdisciplinaridade fica mais forte. A Ciência de Dados, exemplifica Krzyuy, demanda um conhecimento em estatística profundo. “Engenheiros, por exemplo, têm um domínio fortíssimo em matemática, física e estatística. Eles teriam uma pré-disposição para migrar”, explica.

Geração redes sociais

No ano passado, os brasileiros gastaram uma média de 3h40 por dia no smartphone, segundo uma pesquisa da consultoria App Annie. O mesmo estudo revela que o tempo gasto em aplicativos de compras cresceu 30% entre 2018 e 2019 no País. Com tanta gente online, criar uma carreira na internet ou usá-la para vender mais pode ser uma solução acertada.

Tania, da USP, ressalta que o consumidor não quer mais perder tempo no trânsito para ter acesso a algum serviço. Por isso, oferecer soluções online pode abrir novas oportunidades de negócio. Para construir uma boa rede de trabalho e se apropriar do espaço oportunizado pela mídias sociais, ela diz que o profissional precisa ter agilidade, ser capaz de executar várias tarefas simultaneamente e se articular bem. “Na internet, você está mais aberto a novas conexões que exigem respostas rápidas.” 

Além disso, a habilidade de interpretar as emoções e as mensagens na internet fica ainda mais importante, segundo o diretor de marketing Vinícius Taddone, pois, por mais que os chatbots tenham vindo para otimizar os serviços, ninguém gosta de ser atendido por um robô. 

“É preciso ter a habilidade de fazer a leitura dos comentários nas redes sociais. Quando uma pessoa comenta com um emoji de palminha, será que ela está batendo palmas porque gostou ou está sendo sarcástica?” E essa interpretação os robôs ainda não fazem. 

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Tecnologia oferece trabalho da produção do conteúdo à programação

Agenciadora de ‘influencers’ e redatora de experiência do usuário são exemplos de carreira; falta de formação superior leva profissionais a buscar estudo de forma autodidata

Érika Motoda e Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2020 | 05h00

Com Facebook, Instagram, Youtube e agora Tik Tok, os criadores de conteúdo adquiriram bastante relevância entre o público e as marcas. Por trás dos influenciadores digitais, existe uma cadeia que engloba mentores como a Egnalda Côrtes, fundadora do que considera a primeira agência de criadores de conteúdo negros da América Latina. Ela tinha uma carreira em vendas, e a sua guinada na carreira se deu especialmente para dar suporte ao filho, Pedro Henrique, de 18 anos. 

Tudo começou quando Pedro, aos 11 anos, passou a postar vídeos no YouTube. “E estourou aos 13”, contou. Foi nessa época em que o menino começou a fazer um quadro sobre heróis negros, inspirado pela peça O Topo da Montanha, com Lázaro Ramos e Taís Araújo. Sete meses depois, ele decidiu que “não queria mais ser ativista, e sim influencer.” 

A mãe explicou que ele poderia continuar com a trabalho de conscientização racial e ganhar dinheiro com isso, mas Pedro Henrique achava a ideia impossível porque não enxergava ninguém com esse conteúdo no mercado.

“Ele me disse ‘mamãe, nenhuma agência trabalha com gente como nós (negros)’. Nesse momento nasceu a Agência Côrtes. Surgiu da necessidade de fazer com que meu filho não duvidasse do que ele poderia ter.”

Egnalda, que gerencia a carreira de influenciadores como Gabi Oliveira (@gabidepretas no Instagram), dá dicas para quem quer seguir na área. “É importante você ter conhecimento técnico sobre o que está falando para virar uma autoridade no assunto e construir sua marca”, diz. 

Outro ponto é a valorização do trabalho de influenciador, especialmente na hora de fechar contratos de publicidade com empresas. “Quando você aceita uma proposta indecente, você está passando a mensagem de que todo mundo pode ser sucateado”.

Programação e design

Formado em Design, mas um grande entusiasta da linguagem de programação desde a adolescência, Daniel Laurentino, de 28 anos, é engenheiro de software em uma fintech de crédito. Se tivesse que escolher uma graduação hoje, ele escolheria Ciência da Computação, mas não se arrepende de ter cursado Design por um bom motivo. 

“Adquiri muitos conhecimentos que são muito úteis para programação. Cada vez mais, as empresas querem programadores que tenham pelo menos alguma noção de design, porque hoje em dia existem muitos produtos iguais, então o cliente escolhe o que tem a melhor experiência. Por ter esse pano de fundo, muitas vezes consegui ter um olho mais clínico para entregar os layouts.” 

Para migrar de área, Daniel teve que estudar por fora. “No começo, tinha medo de não ter a base teórica que meus amigos tinham na faculdade, mas eles me falavam que não era para eu me sentir daquela forma, porque eu pegaria a base com o tempo. Mas ainda acho interessante ter essa base na faculdade, por isso acho que eu faria outro curso. Consegui pegar a base, mas tive que correr muito atrás.”

UX ou user experience

Camila Gaidarji, de 25 anos, está cursando o último semestre de Comunicação Organizacional e quer pegar o diploma por questão de segurança. “Mas, para a minha área, a graduação não é super essencial porque não é o que eu faço.” Ela é redatora de UX (user experience ou experiência do usuário). Ou seja, se é possível saber com facilidade onde clicar em um site quando se quer finalizar uma compra, por exemplo, é porque há várias “Camilas” por trás. 

“Quando comecei a pensar em sair da redação publicitária, eu realmente pensei em ir para UX, porque via que esse mercado estava crescendo e comecei a estudar”, diz. “Demanda muita vontade, porque é uma área nova e não há uma graduação específica para isso. Procurei no Google, li muitos textos, a maioria em inglês, porque é um mercado novo ainda no País, procurei cursos (online) que ofereciam o primeiro módulo de graça. Foi realmente muito garimpo.” 

Ela conta que, como não tinha portfólio, resolveu reformular o seu perfil no LinkedIn para demonstrar que tinha o conhecimento necessário para ingressar no segmento. “Mesmo não sendo da área, todo conteúdo que a gente carrega, de alguma forma, serve como bagagem para somar na nova área.” 

Ciência de Dados

A carioca Jéssica Souza, de 26 anos, é formada em Engenharia Elétrica e Eletrônica. Quando ingressou no curso, não sabia da possibilidade de construir uma carreira na área da tecnologia e pretendia trabalhar com energia renovável. Foi ao longo da faculdade que descobriu a robótica e a computação - e se apaixonou.

Hoje, ela atua como cientista de dados e precisou complementar a formação para se manter no mercado. “A base matemática eu adquiri na faculdade, mas os conceitos de tecnologia e ciência de dados eu aprendi com cursos online, treinamentos, palestras e manuais. A faculdade não deixa ninguém pronto.” Ela também participa de eventos da área para ficar por dentro das tendências e criar uma rede de contatos profissionais.

Se não fossem as oportunidades oferecidas pela tecnologia, a engenheira acredita que teria mais dificuldade para ingressar no mercado de trabalho. Com dois anos de formada e muita persistência — ela conta que fez dez entrevistas até conseguir o primeiro emprego —, Jéssica já passou por três empresas, sempre conquistando um espaço melhor.

“O mercado de engenharia tradicional é muito fechado. São poucas empresas com poucas vagas. Já o de tecnologia está super aquecido. Se o profissional trabalha bem, consegue se posicionar bem no mercado”.

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