Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Projetos gratuitos formam pessoas negras para incluí-las no mercado

Iniciativas criadas por profissionais que vivem o racismo onde atuam buscam combater desigualdades em áreas como mercado financeiro, tecnologia e aviação

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2022 | 05h06

Chegar ao mercado de trabalho e perceber que não há pessoas negras. Conseguir subir na carreira, mas ver que quem veio do mesmo lugar que você não sobe junto. Passar anos desempenhando a sua profissão com o risco de sofrer racismo e ainda ter de enfrentá-lo de forma solitária, sem o acolhimento da empresa e de colegas.

Experiências como essas fazem parte da realidade de grande parte dos profissionais negros no Brasil, País cuja população de pretos e pardos chega a 56%, segundo o IBGE, mas não se reflete em diversas áreas do mercado de trabalho. Com os dados e as experiências em mente, profissionais criaram projetos próprios a fim de formar mais pessoas negras e incluí-las em áreas como mercado financeiro, tecnologia e aviação.

“Há a necessidade de se remover os ciclos de reprodução de desigualdades e desvantagens, o que, por sua vez, caminha lado a lado com o racismo, são entrelaçadas e mutuamente reforçadas. Se há um buraco, seja ele qual for, que impeça a oportunidade de acesso, precisamos construir caminhos para superá-lo e transformar realidades e culturas empresariais já naturalizadas, por exemplo, com a ausência de negros”, explica Raphael Vicente, diretor da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial e coordenador geral de cursos da Universidade Zumbi dos Palmares.

No mercado financeiro, faltam dados em relação à demografia dos funcionários, mas uma caminhada pela Avenida Faria Lima, em São Paulo, deixa nítido que, entre as várias multidões de pessoas com roupas sociais, há pouquíssimas pessoas negras. Para quem não conhece, a região é o centro financeiro da capital paulista, famoso endereço de bancos de investimentos e empresas de tecnologia.

Mas não precisa ir ao local para entender a predominância de pessoas brancas nesse setor. Em agosto de 2021, viralizou nas redes sociais uma foto com os funcionários da Ável Investimentos, escritório credenciado da XP. Na imagem, há cerca de cem pessoas brancas. O ocorrido fez com que entidades sociais entrassem com uma ação civil pública na Justiça do Trabalho contra a empresa. Este mês, a companhia anunciou um plano de diversidade para 2022.

Ainda no setor, o NuBank também enfrentou problemas. Em 2020, a fintech foi acusada de racismo nas redes sociais após declarações da cofundadora Cristina Junqueira sobre diversidade nas contratações de profissionais negros, feitas no programa Roda Viva, da TV Cultura. De lá para cá, a empresa estabeleceu a meta de contratar 2 mil profissionais negros até 2025. No primeiro semestre do ano passado, 500 já haviam sido admitidos.

A experiência neste mercado fez com que os amigos Gabriel Souza, Victor Sátiro, Eduardo Lima e Matheus Cruz criassem a Black Finance, projeto gratuito que capacita universitários negros para atuar em bancos de investimento. Gabriel e Victor são estudantes de administração em duas grandes universidades de São Paulo. Eduardo e Matheus já são graduados e atuam no mercado. 

“É um movimento de não se sentir representado nas carreiras que a gente tem. Eu sempre comentava com o Victor que eu era o único negro no meu setor e por isso eu recebo vários apelidos. Muita gente sequer sabe, até hoje, que o meu nome é Gabriel. Então, entendemos que podíamos dar uma resposta para aquilo que nos incomoda no mercado através da educação, de formar pessoas, já que não conseguimos encontrar pessoas negras no mercado financeiro, principalmente nas áreas de negócios, que são áreas com salários altos”, conta Gabriel. 

A metodologia é baseada em três pilares: educação (com aulas sobre mercado financeiro), apadrinhamento (profissionais que já atuam na área mentoram os alunos) e conexões com instituições financeiras. Por enquanto, o projeto ainda não tem patrocínio e a conexão com as empresas é feita informalmente, mas eles contam que já foram procurados por várias organizações interessadas em contratar profissionais negros. 

“A ideia é aproximar o aluno da vida real, porque quando a gente chega no cara da periferia, muitas vezes, ele não sabe nem que a Avenida Faria Lima existe, que tem uma avenida em São Paulo que é cheia de banco. Então, a ideia é colocar os alunos e os profissionais que já atuam na área em contato para eles construírem uma rede de relacionamento”, explica. 

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A primeira turma, com 14 alunos, começou em janeiro e vai até junho, de forma híbrida. Puderam participar alunos negros que tenham, pelo menos, um ano de gradução completo em qualquer curso, mas há preferência por estudantes de administração, economia, contabilidade, direito, engenharias e relações internacionais. No momento, ainda não há previsão para novas inscrições, mas os interessados podem entrar em contato pelo site da Black Finance

“Nós entendemos que tem um déficit de pessoas negras nas universidades, mas o nosso foco é pegar quem já conseguiu acessá-las, mas que por algum motivo não consegue ou não entende o investment bank como oportunidade de carreira”, explica Victor. 

Mais profissionais negros na programação

Após seis anos trabalhando em empresas que apoiam o empreendedorismo, Cleber Guedes sentiu que faltava algo em sua carreira. “Eu nasci em Santo André, no ABC Paulista, e estudei a vida inteira em escolas públicas. Em 2020, comecei a reparar que o impacto que eu estava gerando no mundo talvez não era para as pessoas que eu queria gerar. Eu voltava para casa e ninguém entendia o que eu fazia, ninguém usava as soluções das empresas que eu apoiava”, conta.

Uma pesquisa feita pela PretaLab, iniciativa de inclusão de mulheres negras na inovação e na tecnologia, em 2018, constatou que brancos representam 58,3% dos profissionais no setor, contra 36,9% de negros. O levantamento também mostrou que, em 32,7% dos casos, não há nenhuma pessoa negra nas equipes de trabalho em tecnologia.

Para gerar renda e empregabilidade para jovens negros, Cleber considerou o déficit de profissionais em áreas da tecnologia no Brasil (cerca de 106 mil talentos, segundo a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais) e criou o Programadores do Amanhã, escola social que forma jovens negros em programação. Os participantes também têm aulas de inglês — já que saber a língua potencializa as chances de conseguir um emprego —, terapia, preparação para o mercado de trabalho e mentorias para desenvolver habilidades comportamentais, as famosas soft skills

A formação é totalmente online e gratuita e o público-alvo são jovens negros nos últimos anos do ensino médio ou que tenham acabado de se formar no colégio. O projeto ainda empresta computadores para os alunos e paga a internet para quem não tem acesso. Não é preciso ter conhecimento prévio em programação para se inscrever. A primeira turma, com 20 alunos, teve início em julho de 2021 e a segunda, desta vez com 60 alunos, em janeiro deste ano. As aulas ocorrem por 18 meses.

João Luiz Marcelino, de 17 anos, foi um dos selecionados para a segunda turma. No terceiro ano do ensino médio, ele trabalha como jovem aprendiz em análise de qualidade e, embora não seja necessário, tinha familiaridade com programação. Há alguns anos, o pai dele precisou trancar a faculdade na área por questões financeiras e sobraram os livros, com os quais João aprendeu sobre o tema.

Além da expectativa com um emprego na área, o estudante encara o curso como uma oportunidade de desenvolver melhor um projeto de empreendedorismo que coordena, chamado Brillusion, que visa democratizar o acesso à educação e oferecer aulas diversas para alunos de escola pública.

“Eu espero conseguir um emprego e aprender a desenvolver autonomia, não no sentido de saber me virar, mas de saber conseguir criar um site do zero, sem buscar muitas informações de terceiros. O convite para participar do programa ainda incentiva a minha plataforma, já que, além de programação e inglês, também aprendo sobre empreendedorismo jovem e social”, conta. Para arcar com os custos do curso, o Programadores do Amanhã faz parcerias com empresas patrocinadoras, que escolhem a quantidade de alunos que podem financiar. 

“O nosso objetivo é garantir renda e empregabilidade. Fechar o ciclo com as empresas é importante para a gente. As patrocinadoras são as mais interessadas nesses jovens. Elas têm os 12 meses de curso para treiná-los antes de contratá-los, então já falam o que precisam e eles vão criando essa relação com a marca empregadora. Os funcionários da empresa também podem ser mentores desses jovens. No fim do curso, a gente faz a conexão com o mercado de forma mais estruturada”, explica Cleber.

A Pier, startup de seguros brasileira, patrocina cinco alunos da turma atual e já contratou uma aluna da primeira edição. Além do investimento financeiro da empresa, alguns funcionários se tornaram mentores no projeto.

“Um dos nossos desejos é ser um celeiro de talentos. Na maioria das vezes, isso traz um senso de que eu espero que o mercado me dê esses talentos prontos, mas o Programadores do Amanhã é uma troca. Não é esperar que o mercado produza os talentos, mas o que nós estamos fazendo para ter talentos no mercado? É um equilíbrio entre os talentos que eu procuro e os que eu formo”, explica Cauhana Pinheiro, responsável pela área de RH. Dos 191 colaboradores da empresa, 30% se declaram como não-brancos. 

Pretos que voam

A aviação é outra área em que os profissionais negros estão minimamente inseridos. Não há dados oficiais sobre o setor, uma vez que as companhias aéreas e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) não têm ou não disponibilizam essas informações. De acordo com o Quilombo Coletivo, organização formada por profissionais negros da aviação civil brasileira, a estimativa é de que haja entre 5% a 7% de comissiários de bordo negros no Brasil e aproximadamente 2% de pilotos negros. Segundo eles, também não há nenhuma mulher negra atuando como piloto no País.

“Eu criei a página Voo Negro, porque vivo muitas cenas de racismo no voo. É um ambiente majoritariamente branco, então dificilmente eu tenho outros colegas que vivenciam a mesma coisa. Eu tive um problema psiquiátrico forte por causa do racismo, me afastei e quando voltei a trabalhar não queria mais ser comissária. Mas encontrei outras pessoas pretas que narravam coisas parecidas com as que eu vivia e, então, nos juntamos no Quilombo Coletivo. Ele nasce de uma dor: vários pretos que sentem o racismo na aviação e que tentam fazer diferente para os próximos que vão vir”, conta Kenia Aquino, comissária de bordo há 14 anos. 

Dentro do coletivo, eles criaram o projeto Pretos que Voam para capacitar e patrocinar a formação de pessoas negras e periféricas que queiram se tornar comissárias de bordo. A partir de um edital de aceleração, eles arrecadaram R$ 90 mil, utilizados para financiar o curso de comissário, os exames físicos, o exame exigido pela Anac, uniformes, treinamentos e mentorias. Como a maioria das companhias também exige fluência em um idioma, eles fornecem bolsa de estudo completa.

Dez alunos se formaram na primeira turma, no fim de 2021. Segundo Kenia, alguns já foram aprovados na prova da Anac e, agora, o coletivo está em contato com companhias aéreas para fazer a ponte com o emprego.

“É um momento delicado, não são todas as companhias que estão contratando, mas estamos com diálogos em aberto. É um desafio, porque não basta só entregar o currículo, tem de ter conversa sobre letramento racial, senão voltamos para o padrão estereotipado eurocêntrico, de que para ser comissário é preciso ser uma mulher alta, loira, magra, de olhos claros”, explica Kenia. “Além disso, vive-se o racismo a bordo, por parte do cliente, então é necessário que as companhias estejam abertas para receber o funcionário que sofre racismo, tem de ter acolhimento.”

Por ser um projeto-piloto, a primeira edição ocorreu em Porto Alegre, mas a expectativa é conseguir ampliar para outras partes do Brasil. No momento, o foco é apenas em comissários, uma vez que a formação de pilotos tem custo maior. Para 2022, o plano é abrir e registrar o coletivo em um CNPJ, estabelecer um espaço físico e pedir a homologação do curso na Anac para que, em vez de terceirizar a formação (como foi feito na primeira turma), eles próprios consigam ministrá-la, o que pode aumentar a capacidade de oferta de bolsas para futuros comissários.

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