Gabriela Biló/Estadão-17/06/2015
Para o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente, instituições de ensino precisam ir além do quadro de alunos e mirar também na diversidade entre o corpo docente. Gabriela Biló/Estadão-17/06/2015

Questão racial está diretamente vinculada a índices socioeconômicos no Brasil

Brancos têm, historicamente, renda maior, mais anos de educação e mais espaço no mercado do que negros; especialistas chamam a atenção para a presença de profissionais negros também no corpo docente

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 05h00

Ao se falar em critérios socioeconômicos para o acesso às instituições de ensino particulares, as questões raciais têm um aspecto muito central no Brasil. Para entender o ponto, basta analisar dados relativos ao rendimento médio, à educação e à presença da população no mercado de trabalho.

De acordo com a publicação “Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil”, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio domiciliar per capita da população branca, em 2018, era quase duas vezes maior do que o da população preta ou parda - R$ 1.846 contra R$ 934.

Na educação, os brancos também têm números superiores aos dos pretos e pardos em todos os grupos de idades e níveis de ensino. A proporção de jovens brancos entre 18 e 24 anos que frequentavam ou haviam concluído o ensino superior em 2018 era de 36,1%, enquanto entre os jovens negros era de 18,3%, quase o dobro. 

Já no mercado, apesar de serem um pouco mais da metade da força de trabalho (54,9%), os profissionais pretos e pardos ocupam apenas 29,9% dos cargos gerenciais. Segundo o Instituto Ethos, há apenas 5% de executivos negros no País. Para as mulheres negras a situação é ainda pior, elas são apenas 0,4% nesse cenário. 

“A gente sabe da correlação entre renda e raça. Quando observamos a diversidade racial na instituição, vemos que ela está no programa de bolsas. A maior parte dos estudantes negros está entre eles. Cerca de 25% dos nossos bolsistas são autodeclarados negros”, conta Ana Carolina Velasco, gerente de relacionamento institucional do Insper. 

Criada há 18 anos em São Paulo, a Faculdade Zumbi dos Palmares surgiu para impulsionar a participação dos jovens negros aos espaços educacionais. Criada e gerida por pessoas negras, a instituição oferece hoje cursos de graduação e pós-graduação, em áreas como administração, direito, pedagogia e comunicação social.

“As universidades públicas já tinham feito parte de seu trabalho, ao instituírem as cotas para negros, e os espaços privados de educação ficaram para trás. Agora, colégios e faculdades estão correndo atrás de tentar tirar o atraso, de efetivamente ter uma ação mais objetiva e impactante nesse tema. É lógico que é estimulante e enriquecedor que eles cumpram essas coisas, mas façam isso de uma forma permanente e consolidada e com honestidade. Muita gente vai pelo embalo porque está na moda”, destaca o doutor em educação e reitor José Vicente. 

Ele chama a atenção que é preciso ir além do quadro de alunos e mirar também na diversidade entre o corpo docente. “É preciso falar de gestores negros, professores negros, comunicação que inclua negros.”

Entre os cerca de 1.600 alunos da Faculdade Zumbi dos Palmares - 70% são negros - 20% possuem bolsa de estudo, com modalidades distribuídas entre os atletas, o coral e demais alunos. 

No caminho para a universidade

Para atrair mais candidatos negros ao vestibular, o Insper criou uma parceria com a Educafro, organização que fornece cursinhos pré-vestibulares comunitários para jovens afrodescendentes e em situação de vulnerabilidade social. 

“Só no cursinho nós geramos 50 bolsas dinâmicas. A cada 15 dias aplicamos uma prova. Os 50 melhores alunos daquela prova recebem uma bolsa de R$ 250. Se na próxima quinzena, o mesmo aluno estiver entre os 50 melhores, ele recebe mais R$ 250. Estamos motivando jovens desempregados, principalmente na pandemia, a entrar nessa dinâmica. O nosso sonho é colocar muitos negros no Direito do Insper, por exemplo. Queremos ter um monte de jovens negros da Educafro disputando vagas e bolsas”, explica o diretor da Educafro, Frei David. 

Para atingirem o maior número possível de pessoas, além de gratuitos, os cursos são online. 

“As empresas têm discutido a inclusão de negros nos seus espaços, como a Magazine Luiza e Bayer, que reconheceram que inconscientemente excluem negros porque nunca se preocuparam com isso e que a prepocupação faz parte dessa nova etapa delas. Quando conseguimos fazer com que faculdades de primeira linha tenham planos de inclusão de jovens negros, estamos fazendo um encontro da academia com a empresa”, destaca. 

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Bolsa para aluno de baixa renda ajuda a promover diversidade no mercado

Faculdades privadas dão auxílio-moradia e alimentação para estudantes levando em conta renda familiar; quadro diverso de profissionais é tema de discussão atual nas empresas

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 05h00

Quando falamos em diversidade e inclusão (D&I), geralmente, o foco é nas empresas que criam programas para tentar corrigir injustiças sociais, mas a construção de um profissional começa antes do mercado de trabalho. A busca das organizações por mais diversidade entre os seus funcionários move também a estrutura educacional. Com isso, instituições particulares de ensino superior, consideradas ‘de elite’, têm corrido atrás de diversificar seus quadros de alunos, ampliando o alcance de bolsas integrais e auxílios para moradia, transporte, alimentação e material didático. 

“O ano de 2020 foi um ápice sobre diversidade e inclusão no mercado corporativo, principalmente na questão racial, que teve um crescente interesse das empresas. Elas acabam pressionando todo o ecossistema de busca por profissionais e o mercado de formação”, explica a consultora em diversidade e inclusão Margareth Goldenberg, da Goldenberg Diversidade. 

Oferecer bolsas de estudo não é algo inédito entre universidades particulares - já acostumadas a premiar os melhores colocados com isenções de mensalidade -, mas com o tema da diversidade e inclusão em destaque, há instituições apostando em processos menos meritocráticos e mais focados nas condições socioeconômicas dos estudantes. 

Até o início de dezembro, o Insper está com inscrições abertas para o vestibular 2021. Além dos cursos de Administração, Economia e as Engenharias da Computação, Mecânica e Mecatrônica, oferecidos há anos, a instituição inaugura o Direito. Com a nova graduação, é prevista uma ampliação no programa de concessão de bolsas, que se dividem entre integrais, parciais e auxílio-moradia.

“Estamos buscando pluralidade no corpo docente e discente. Queremos pessoas diversas, de diferentes regiões do País, gênero e raça. Não há número mínimo ou máximo de bolsistas. O critério é vinculado à renda”, explica o advogado e professor Caio Farah Rodríguez, um dos líderes do projeto. 

A instituição não oferece bolsas essencialmente meritocráticas, ou seja, baseadas na colocação obtida no vestibular. Os candidatos são avaliados de acordo com critérios socioeconômicos, como renda mensal de até 1,5 salário mínimo por membro da família para bolsas integrais, entre outros aspectos. 

Para ir além de apenas inserir os alunos no curso, mas também mantê-los ao longo dos anos, foi criado o auxílio-moradia para os bolsistas integrais que são de fora de São Paulo. 

“O vestibular é online justamente porque queremos atrair pessoas de várias regiões do País. Quando chegam a São Paulo, eles ficam na residência estudantil e depois de um tempo começam a receber o auxílio-moradia. Também existem as bolsas-manutenção. Como os cursos são integrais, eles não conseguem trabalhar, então tem esse auxílio para alimentação, deslocamento e outros gastos”, explica Ana Carolina Velasco, gerente de relacionamento institucional do Insper. 

Cada um dos auxílios (moradia e manutenção) é de R$ 1 mil. A mensalidade do curso de Direito, sobre a qual os bolsistas têm isenção ou desconto parcial, é de R$ 4.990. Atualmente, a instituição tem 6.236 alunos, sendo 274 deles bolsistas.

A estudante de Engenharia de Computação Thalia Loiola, de 23 anos, saiu de Fortaleza para estudar no Insper, o que só foi possível porque ela conseguiu uma bolsa integral e o auxílio-moradia. Hoje, divide um quarto com uma amiga na residência estudantil, a 10 minutos da faculdade, na Vila Olímpia. 

“Sem bolsa seria extremamente inviável estudar aqui. Meus pais não teriam condições de pagar a mensalidade.” Thalia já teve duas experiências de estágio - durante as férias, que é quando a instituição aconselha que eles sejam feitos. O último foi na área de tecnologia do BTG Pactual. 

“Eles prezam pela questão de levar mais mulheres para o mercado de trabalho, então eu me identifiquei. A gente sabe que o mercado financeiro atualmente está bastante saturado de homens.”

Uma ponte para as empresas

Se o ensino superior de qualidade é um dos itens que empurram profissionais a bons lugares no mercado de trabalho, quando as instituições de ensino diversificam o seu quadro de alunos isso provoca, ainda que indiretamente, um impacto na inclusão desses profissionais nas empresas. 

“O resultado é que a médio e longo prazos isso cause uma profunda mudança no mercado, uma vez que pessoas oriundas de realidades diferentes consigam chegar em locais de tomada de decisão, gerando organicamente maior inovação. Essas ações são extremamente importantes e, aliadas às discussões naturais do ambiente educacional, favorecem a construção de ambientes corporativos mais inclusivos”, explica Camila Santos, consultora Jr. em cultura inclusiva na B4People.

Para o coordenador da graduação da FGV Direito, Roberto Dias, o impacto ocorre na instituição e no mercado ao mesmo tempo. “Origens, pensamentos, formações diferentes permitem que as atividades seja riquíssimas. Com isso, conseguimos ampliar a inserção desses jovens com origens diversas desde o estágio até grandes cargos.”

Entre as modalidades de bolsa, a faculdade possui a Bolsa de Estudos da Presidência, que oferece isenção integral ou parcial a estudantes com base em critérios socioeconômicos. Os contemplados com a bolsa integral podem também solicitar um auxílio-manutenção (de R$ 1.113 por mês) para uma instituição parceira formada por ex-alunos, pais e professores. Cada escola da FGV possui as suas próprias regras para bolsas. 

A estudante Leticia Gongora, de 20 anos, está no quarto período de Direito na FGV e, desde o início do curso, possui bolsa integral e auxílio-manutenção, que utiliza para se alimentar, comprar os materiais didáticos e se locomover do extremo leste de São Paulo, onde mora, até o campus da faculdade, na região central.

“Sem a bolsa, eu não teria conseguido entrar na instituição”, conta. No ensino médio, ela foi bolsista integral em um colégio parceiro da Ismart (Instituto Social para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talento) - organização que concede bolsas de estudo para estudantes em situação de vulnerabilidade social. Pela própria Ismart ela ficou sabendo das bolsas na FGV. 

“Quando você está em uma faculdade considerada de elite, você está onde tudo acontece. Estar num ambiente desses te abre uma porta direta para o mercado de trabalho”, diz Letícia. “Hoje eu vejo amigas que foram bolsistas e fazem parte de coletivos negros e LGBT trabalhando em grandes escritórios. É uma quebra de bolhas, você está inserido na faculdade e no mercado.”

COMO SE CANDIDATAR ÀS BOLSAS:

Educafro

As inscrições para o curso preparatório para o vestibular do Insper estão abertas no site. Ao longo do ano, há cursos para outras faculdades. Informações em: nucleos@educafro.org.br. ​

Faculdade Zumbi dos Palmares

As inscrições para o vestibular e para as bolsas ainda não estão abertas, mas os interessados podem preencher uma ficha de interesse no site

FGV Direito

Edital para bolsas sai durante o processo de vestibular. Por isso, é preciso ter prestado o vestibular, cujas inscrições vão até 02 de dezembro, via FGV (no site) ou ENEM. Informações em: fundodebolsas.srasp@fgv.br 

Insper

Inscrição para a bolsa deve ser feita no momento momento da inscrição para o vestibular, até 7 de dezembro no site. A solicitação de isenção de taxa da inscrição pode ser feita até 23 de novembro.

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