Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Recolocação no mercado após período sem trabalhar é mote de programas

Empresas como Oracle, Pepsico e IBM ajudam profissionais na reinserção após afastamento por licença-maternidade, sabático ou desemprego; curso gratuito da FIA ajuda na recolocação

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2022 | 05h03

Embora sejam idealizadas como uma caminhada rumo ao topo, carreiras dificilmente são lineares. Questões como cuidar dos filhos, um tempo para equilibrar a saúde mental ou até mesmo uma demissão podem levar ao afastamento do mercado de trabalho. O que era para ser temporário pode se prolongar e, quanto mais tempo fora dele, mais difícil pode ser voltar. Do lado do mercado, empresas passaram a olhar para esses profissionais e criaram programas para reinseri-los no mundo corporativo.

Neste mês, a Oracle lançou no Brasil e no México um programa para recolocar no mercado profissionais que pausaram suas carreiras há pelo menos um ano por diversos motivos, como formar família, cuidar de parentes idosos, fazer trabalho voluntário, viajar, estudar, abrir o próprio negócio, priorizar a saúde mental ou mudar de carreira. A primeira edição oferece seis vagas nas áreas de recursos humanos, vendas, nuvem e engenharia de soluções.

“Queremos trazer profissionais talentosos que ficaram fora do mercado e, a partir daí, gerar valor para a empresa. Se a pessoa tinha carreira em outra área e quer ir para o RH, ela pode. Nós temos um portal para ensinar habilidades técnicas e fazer upskilling (aprimorar conhecimentos em sua área) e reskilling (desenvolver novas habilidades). O que mais gera oportunidade hoje, na atração de talentos, é oferecer treinamento. A pessoa pode trazer o que ela tem de conhecimento e vamos adicionar o que a gente precisa”, explica Daniele Botaro, Head de Diversidade & Inclusão na Oracle América Latina.

Após a seleção, já com vínculo empregatício, os selecionados passam por 12 semanas de treinamento e integração para se adequar à cultura da empresa e entender os processos, depois de muito tempo fora do mercado ou até mesmo sem nunca antes ter estado nele.  Entre as atividades estão elaborar um plano de carreira, mentorias e um rodízio de funções para entender as áreas correlatas. As inscrições vão até o dia 28 de abril e podem ser feitas pelo site do programa.

Em 2018, a PepsiCo criou o Ready to Return (pronto para voltar, em português) para inserir pessoas afastadas do trabalho há dois anos ou mais. Ao longo de três edições, foram preenchidas 11 vagas. Assim como no caso da Oracle, o principal escopo do programa é treinar e capacitar os futuros funcionários.

“Na abertura das inscrições, o RH mapeia oportunidades abertas nas diferentes áreas da companhia e parte dessas vagas integram o programa. As pessoas são selecionadas para trabalhar nas áreas das vagas para a qual se inscreveram e contam com mentoria, treinamentos e imersões para capacitação”, explica Fábio Barbagli, vice-presidente de Recursos Humanos da PepsiCo Brasil. Segundo ele, a empresa terá uma nova edição do programa neste ano, ainda sem previsão de data. 

Mulheres são foco de programa

Entre as pessoas que buscam voltar para o mercado, o perfil mais comum é o de profissionais que se afastaram do trabalho para cuidar da família. Em um mercado como o brasileiro, esse peso recai sobre as mulheres. Segundo uma pesquisa da plataforma Catho, 30% delas deixam o mercado de trabalho para cuidar dos filhos (7% entre os homens).

Durante a pandemia, o índice de participação de mulheres no mercado atingiu o ponto mais baixo em 30 anos, com 45,8% no último trimestre de 2020. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na mesma época, entre as mulheres com crianças de até 10 anos de idade em casa, houve um recuo de 7,7% na atuação profissional. 

De olho nesse público, a IBM criou, em 2018, o Tech Re-Entry (reentrada na tecnologia, em português) para treinar e empregar profissionais afastados do mercado há pelo menos dois anos. Embora não seja exclusiva para mulheres, o líder de recursos humanos da IBM Brasil, Bernardo Marinho, conta que elas são o principal foco.

“Ao longo dos anos, observamos que muitas mulheres talentosas sentiam a necessidade de fazer uma pausa em suas carreiras, muitas vezes por cuidados com crianças e familiares. Temos clareza de que isso não é algo que prejudique o desempenho delas no retorno. Pelo contrário, geralmente outras competências podem ser desenvolvidas nesse momento”, explica. 

O programa é destinado para posições técnicas, como desenvolvimento de software, design e ciência de dados. Os selecionados passam por seis meses de capacitação e mentoria, já com vínculo empregatício. Ao fim, recebem certificação da IBM, comprovando que atualizaram as habilidades técnicas e profissionais, e podem permanecer nas mesmas funções ou ser transferidos para outras posições na empresa. Não há uma periodicidade definida para que o programa aconteça.

Capacitação gratuita para voltar ao mercado

Além da inserção direta pelas empresas, também há a opção de capacitação para ter mais chances de conseguir a recolocação no mercado de trabalho. Há 15 anos, a FIA Business School oferece gratuitamente o CAPExecutivo, uma formação nos moldes de um MBA para profissionais que estejam desempregados há pelo menos quatro meses. 

Durante dois semestres, os 40 selecionados anualmente têm aulas de estratégias gerenciais, gestão de pessoas, marketing, finanças, governança, ética, ESG e gestão de projetos. Com a pandemia, o curso passou a ser 100% online.

“Nós queremos que o profissional volte a brilhar o olhar. Quando você fica fora do mercado, suas reservas financeiras acabam e você não se atualiza, a autoestima é a primeira vítima. Eles chegam no curso em um estado de desalento e percebemos que, com o tempo, a autoestima melhora. Depois, quando são produtivos, a sociedade inteira ganha”, conta Almir de Sousa, coordenador do programa.

Entre os 40 formandos da última turma, que será concluída neste mês, 31 já foram recolocados - seis no empreendedorismo, 12 como consultores e 13 com vínculo empregatício. Segundo Sousa, a média, desde o início do curso, é de 75% de recolocação. 

Aos 49 anos, André Alonso faz parte desse índice. Graduado em Administração Financeira e com pós-graduação em Engenharia de Software, ele se inscreveu para o CAPExecutivo no ano passado, quando estava havia quase dois anos afastado do mundo corporativo. Em 2018, pediu demissão da empresa em que trabalhava para empreender, mas, com a chegada da pandemia, precisou fechar o negócio. 

“O curso foi uma oportunidade de tomar um banho de loja, dar uma atualizada nos meus conhecimentos e fazer networking. Depois de 30 anos de mercado, a gente foca só no ramo em que atuamos e ficamos desatualizados, principalmente em soft skills. As aulas me ajudaram a ter uma nova visão, o que me permitiu repensar a carreira e procurar trabalho de uma forma diferente”, conta.

Antes da demissão, André era gerente de sistemas em uma consultoria de tecnologia e gerenciava um time de 60 pessoas. Para conseguir voltar ao mercado, precisou, primeiro, dar um passo para trás para, então, ir em frente. 

“Por que não voltar a ser coordenador? Eu tenho a bagagem técnica, consigo ampliar o meu leque de oportunidades e, dentro da empresa, mostrando o meu serviço, eu vou abrindo novas oportunidades”, conta. Antes de finalizar o curso, André conseguiu uma vaga como coordenador digital na Lello Imóveis.

A próxima turma do CAPExecutivo, que se inicia em junho, está com as inscrições abertas até 10 de maio, pelo site da FIA

Dicas para se recolocar no mercado

A especialista em Recursos Humanos e recrutadora Carolina Martins dá dicas para quem está afastado do mercado de trabalho e quer voltar:

  1. Prepare-se com antecedência

É preciso entender que o mercado demora um tempo para absorver quem está afastado, então, mesmo que a pessoa não queira voltar agora, o ideal é que ela já comece a se movimentar para entender o tempo que demora para ser chamada para um processo seletivo e como ela performa na entrevista de emprego. 

  1. Saiba explicar a pausa

Vá preparado porque essa pergunta vai acontecer, principalmente se for uma pausa recente, nos últimos cinco anos. O ideal é construir a resposta dizendo o motivo da pausa (“fui demitido”, “engravidei”, “saí para um sabático” etc), por quanto tempo, e mostrar o que estava fazendo tanto pessoalmente quanto profissionalmente para se desenvolver durante esse tempo.

Se você saiu para cuidar da família, por exemplo, durante a pausa você aprendeu alguma coisa? Um novo idioma, fez algum curso, participou de algum evento? É importante mostrar que não ficou 100% parado, sem dar uma mínima atenção à carreira.

  1. Atualize e saiba usar o LinkedIn

Atualize o LinkedIn, use as palavras-chave corretas para ser encontrado pelos recrutadores, movimente a plataforma, conecte-se com pessoas chaves e produza conteúdo. Claro que não precisa se tornar um blogueiro, mas alguns conteúdos são importantes, como assuntos específicos da área de atuação, atualidades, cursos que a pessoa fez, mostrar que tem competências técnicas e comportamentais.

O LinkedIn também tem uma funcionalidade nova para acrescentar a pausa na carreira. O usuário clica em ‘adicionar seção’ no perfil e já vai abrir a opção de adicionar a pausa. Adicione o motivo mais próximo da razão da sua pausa e as datas de início e fim. Tem uma parte também para adicionar mídia, então se você tem algum curso que fez nessa pausa, pode colocar o certificado.

No campo da descrição não é necessário dar muitas explicações, mas é bom colocar, ainda que brevemente, o que aconteceu nesse período. 

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