Taba Benedicto/Estadão
Gabriele Lima Silva, analista de experiência do cliente na Gerencianet, tem aproveitado a sexta-feira livre para passar mais tempo com a família.  Taba Benedicto/Estadão

Semana de trabalho de 4 dias? Empresas começam a testar modelo no País e veem eficiência aumentar

Bem-estar profissional, retenção de talentos e aumento de receitas estão entre os benefícios observados; pesquisa indica que 74% dos trabalhadores seriam mais produtivos em uma semana mais curta

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2022 | 14h00

Mais de um século desde a adoção da semana de cinco dias de trabalho pelo americano Henry Ford, que virou regra no mundo todo, um novo modelo com apenas quatro dias de atividades começa a ser testado, com resultados positivos. No Brasil, empresas que instituíram a nova jornada veem melhorias de eficiência, bem-estar dos trabalhadores, retenção de talentos e até aumento de receitas. Por ora, a mudança tem sido adotada mais em companhias de tecnologia, como Crawly, NovaHaus, Winnin, AAA Inovação, Gerencianet e Eva Benefícios.

Mas o modelo, que reduz a carga horária de 40 horas para 32 horas semanais sem alteração de salário, exige um planejamento prévio com atenção à legislação trabalhista e à cultura organizacional. Além disso, para ter êxito em termos de gestão de pessoas e negócios, é necessário revisar metas e tarefas diárias e mensurar com frequência os resultados. 

O conceito é inspirado em experiências de empregadores em países como Islândia, Reino Unido, Bélgica, Nova Zelândia, Escócia e Estados Unidos. Muitos decidiram adotar regimes mais flexíveis diante do fenômeno da grande debandada (profissionais pedindo demissão) e do esgotamento profissional provocado pelo trabalho, condição oficializada na lista da Organização Mundial da Saúde (OMS).

No Brasil, 61% dos trabalhadores consideram mudar de emprego em caso de problemas de saúde mental e 74% acreditam que seriam mais produtivos em uma semana de quatro dias. Dados da plataforma de recrutamento Indeed, obtidos com exclusividade pelo Estadão, indicam ainda que 79% concordam em aumentar as horas diárias de trabalho para terem uma semana mais curta e a maioria está disposta a apoiar a empresa na implementação do novo modelo (84%). 

De acordo com a pesquisa, a redução da carga também melhoraria a saúde mental (85%) e o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal (86%). É o que vem ocorrendo com Gabriele Lima Silva, analista de experiência do cliente da Gerencianet, desde que ganhou a sexta-feira livre. “Aproveito o momento para estar mais próxima da minha família, filho e cachorro, além de cuidar mais de mim.”

O diretor de vendas da Indeed Brasil, Felipe Calbucci, afirma, porém, que a semana de quatro dias pode não fazer sentido para todo tipo de negócio, o que requer avaliar bem a mudança. Isso implica atenção especial à cultura organizacional, diz Evanil Paula, presidente da Gerencianet. 

“O que precisa ser replicado entre os empregadores não é a redução da jornada de trabalho e, sim, a cultura. É o que vai permitir pessoas extremamente engajadas e querendo fazer boas entregas. Quando isso ocorrer, vai perceber naturalmente que é possível o funcionário ter mais um dia de descanso na semana. É uma consequência”, explica o executivo. 

A empresa de meios de pagamentos adotou a sexta-feira livre no início de julho e manteve o controle do ponto para as oito horas de serviço diárias de segunda à quinta. Para implementar o modelo, a Gerencianet fechou acordo com os sindicatos para um novo contrato com os profissionais, atualizando a jornada por seis meses de teste. “Isso é importante, porque a companhia consegue reverter a decisão, caso necessário, sem traumas.”

Na visão do CEO, processos seletivos eficientes também favorecem a semana de quatro dias, uma vez que resultam na contratação de talentos alinhados aos valores e princípios da empresa. “O mercado em geral ignora pontos interessantes, como o fato de que a ergonomia e o ócio impactam diretamente na produtividade”, acrescenta.

De forma semelhante, a startup Eva Benefícios organizou uma assembleia e fechou acordos individuais com os funcionários para reduzir a carga horária a partir deste mês de julho. “Antes de definir o dia do descanso, é fundamental um estudo para avaliar os impactos e alinhar às expectativas de todos”, diz o presidente da empresa, Marcelo Lopes.

O que diz a legislação

A legislação brasileira é diferente da de outros países, como a Bélgica, afirma a advogada da NovaHaus, Laila Ottaiano, especialista em direito internacional do trabalho. Quando o colaborador é registrado por meio de carteira de trabalho no País, é necessário fazer um acordo individual de trabalho, para a implementação da semana de quatro dias, sem alteração salarial. 

“Esse formato não requer outorga do sindicato, a empresa delibera diretamente com seus empregados, e é fundamental para evitar problemas futuros, caso seja preciso retomar a carga horária que prevalecia anteriormente”, alerta a advogada.

A empresa redige uma minuta com todas as cláusulas, as quais não podem infringir a Constituição Federal, a CLT e a convenção coletiva de trabalho, e precisam passar por aprovação de todos os colaboradores interessados na redução da jornada. Outra modalidade, prevista na legislação, são os acordos coletivos de trabalho, realizados por meio de negociações sindicais.

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Semana mais curta de trabalho é estratégia para retenção de talentos

Num cenário de mercado aquecido, como o de tecnologia, em que sobram vagas e faltam profissionais, o benefício tem reduzido a rotatividade e aumentado a receita das empresas

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2022 | 14h00

A semana de quatro dias de trabalho tem se mostrado uma boa estratégia de retenção de talentos. Num cenário de mercado aquecido, como o de tecnologia, em que sobram vagas e faltam profissionais, ao oferecer um dia a mais de descanso como benefício, as empresas conseguem disputar mão de obra com companhias estrangeiras que têm salários maiores.

Na NovaHaus, essa redução da rotatividade já teve impacto nos custos. O presidente da empresa, Leandro Pires, diz que houve uma perda na entrega, mas não na produtividade. Ou seja, as pessoas diminuíram a jornada de trabalho em 20%, com a quarta-feira livre, mas deixaram de produzir somente 7%. “Todavia, essa porcentagem foi compensada com a queda da rotatividade e com um aumento de receita.”

A redução da jornada de trabalho foi definida por meio de acordos individuais e, inicialmente, tem duração de oito meses contados a partir de março. Entre os benefícios ofertados aos funcionários, ainda consta um vale cultura, no valor de R$ 400, e duas assinaturas de streaming, os quais têm sido muito bem aproveitados por Alyne Passarelli, gerente de contas da NovaHaus.

“Faço várias coisas na quarta off, desde passeios, que no final de semana são mais concorridos, a maratona de séries. A ideia é ter uma pausa no meio da rotina turbulenta e não um final de semana prolongado.” 

Para medir o sucesso da estratégia, a NovaHaus adotou como indicadores de avaliação o comparativo de entregas, pesquisas internas para medir o nível de felicidade, valores dos projetos e a quantidade de faltas. “Os funcionários estão mais felizes, faltam menos e a receita aumentou.”

Resultados semelhantes foram observados na Crawly, que instaurou a semana mais curta em março. “Tivemos um aumento de demanda por causa do comercial e do marketing e conseguimos entregar tudo sem atrasos”, afirma a gerente financeira da empresa, Luisa Lana Stenner. 

Tanto para Crawly quanto para a AAA Inovação, o sucesso da estratégia é atribuído, entre outros fatores, a uma reorganização dos processos internos. “Acabamos com o e-mail, grupos de whatsapp, e adotamos metodologias e ferramentas ágeis de gestão de projetos e comunicação interna, como Slack, Runrun.it e Discord”, afirma o presidente da AAA Inovação, Juan Pablo Boeira. 

A aceleradora de negócios adotou a jornada mais curta de trabalho em janeiro deste ano. Em cinco meses, foi constatado um crescimento de 120% do faturamento. “Quando a gente percebeu que estava mais eficiente, criamos o ‘Reset Day’ (dia de resetar) às sextas-feiras.”

Além de monitorar semanalmente aspectos como entregas (performance), custos fixos, eficiência e saúde mental, a AAA Inovação mantém contato constante com os clientes para saber o nível de satisfação. “Muitos relataram que nem notaram a alteração na jornada de trabalho”, diz o CEO, que também passou a receber cerca de 80 currículos por semana. "Antes, eram 30."

 

“A decisão de adotar a semana de quatro dias diz muito mais sobre como evoluir a sua produtividade e eficiência do que reduzir um dia de trabalho”, afirma o presidente da Winnin, Gian Martinez. A empresa de tecnologia carioca adotou a sexta-feira livre em agosto do ano passado e já consegue mensurar aumento de bem-estar entre colaboradores, satisfação dos investidores e redução da rotatividade. 

“A gente costuma gastar muita energia com atividades que não são tão importantes. A semana de quatro dias é um estímulo para repensar processos. Times focados entregam melhores resultados”, explica o executivo, que revisou objetivos, metas e rituais de trabalho e investiu na comunicação assíncrona. Agora, por exemplo, as reuniões duram no máximo 30 minutos.

O primeiro passo para a redução da jornada envolveu um trabalho de educação junto aos trabalhadores. “Dedicamos um tempo para que todos estudassem o assunto e entendessem porque fazia sentido para o nosso contexto e como isso apontava para o futuro do trabalho”, diz Martinez. 

A startup observou, por meio de pesquisas internas de clima e felicidade, que o aumento do bem-estar dos colaboradores refletiu diretamente na produtividade. Inicialmente, o dia livre era usado para resolver pendências, como ida ao médico. Hoje, muitos dedicam o momento ao estudo, à leitura e realização de cursos, o que, segundo o executivo, têm trazido resultados positivos para o trabalho, os quais já são notados pelos investidores. 

“Falamos muito do dia a menos e pouco de como as pessoas estão aproveitando esse dia a mais em suas vidas”, ressalta ele, que acredita ser um processo de implementação e aprendizado constante porque envolve novas contratações.

Sete dicas para a implementar a semana de quatro dias na sua empresa

Na opinião de gestores ouvidos pela reportagem, empresas que queiram adotar a semana de trabalho mais curta, sem alteração de salário, precisam observar os seguintes aspectos: 

1. Cultura organizacional: Verifique se a cultura interna contribui para a formação de pessoas engajadas, com vontade de fazer boas entregas e que estejam alinhadas aos valores e princípios da empresa. 

2. Educação: Antes da redução da jornada de trabalho, dedique tempo para que todos, principalmente a liderança, estudem o novo modelo e entendam porque, de forma objetiva e prática, faz sentido para o contexto da empresa. 

3. Legislação: Atente para as questões regulatórias, leis trabalhistas e orientações dos sindicatos para que a adoção da semana de quatro dias seja feita de forma correta e sem traumas futuros, caso seja necessário reverter a decisão.

4. Objetivos: Reveja os objetivos da empresa e sequencie o que for mais urgente. Mais do que resolver todos os desafios de uma vez, é importante focar no que realmente irá fazer a diferença. 

5. Rituais: Repense os rituais e tarefas diárias para tornar os processos mais eficientes e aumentar a produtividade, por exemplo, a redução do tempo de reuniões.

6. Comunicação: mantenha as expectivas entre todos os envolvidos alinhadas antes da decisão oficial. Ferramentas de comunicação assíncrona, como o Slack, também são boas aliadas. Os colaboradores têm de estar cientes de que se trata de uma estratégia nova, que pode não dar certo futuramente. 

7. Monitoramento: estabeleça indicadores de monitoramento e avaliação do sucesso da estratégia, tais como como entrega e produtividade, custos, receita, eficiência e níveis de felicidade entre os colaboradores.

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