Vitor Souza
Vitor Souza

Semana de quatro dias ganha espaço no Brasil em prol do bem-estar profissional

Empresas alteram jornada de trabalho sem mexer no salário e mantêm produtividade; para neurocientista, trabalhador sente recompensa ao equilibrar melhor vida pessoal e profissional

Bruna Klingspiegel, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2022 | 05h01

Você já teve a sensação de que precisava de mais horas no seu dia para dar conta de tudo? Afinal, além das responsabilidades do trabalho, precisa ir ao médico, fazer compras, estudar, ter uma vida social e ainda descansar. Trabalhar menos é uma coisa que todo mundo quer. Mas e se você pudesse otimizar o seu trabalho e como recompensa tivesse um dia a mais de descanso para se concentrar na sua vida pessoal?

A semana de trabalho de quatro dias é vista como uma tendência na Europa e vai ganhando reflexos no Brasil. Empresas como Winnin, AAA Inovação e Crawly entenderam que, a partir da demanda dos funcionários, poderiam tentar adaptar a rotina de modo que não se perdesse produtividade, mas houvesse um ganho de bem-estar e satisfação entre os talentos.

Para isso, as startups otimizaram a comunicação, eliminaram reuniões improdutivas e mantiveram as oito horas de trabalho diárias, sem redução de salário. O benefício transformou positivamente o dia a dia dos colaboradores e provou que funcionários felizes produzem mais.

No primeiro semestre de 2021, por meio de uma pesquisa interna, os sócios da Winnin, uma martech que utiliza a ciência de dados para compreender o mercado de influência digital, descobriram que o alto índice de estresse estava causando uma queda na felicidade dos seus colaboradores. Eles estudaram diversas possibilidades para reverter o problema e chegaram à teoria dos quatro dias de trabalho por semana. Os dados analisados eram otimistas e eles decidiram arriscar. 

“Juntamos a empresa toda e contamos que iríamos fazer um experimento social, mas era um segredo porque podia não dar certo”, conta Gian Martinez, cofundador e CEO da Winnin. O sucesso da iniciativa dependia de duas variáveis: o aumento da qualidade de vida e a manutenção ou a melhoria na produtividade dos colaboradores.

Planejar cada passo foi essencial para o sucesso do experimento. Gian conta que a ideia não era simplesmente tirar um dia útil da semana, mas pensar em como a equipe poderia trabalhar de forma mais inteligente e eficiente. “Se a gente simplesmente tivesse tirado o dia sem ter pensado nessas questões, com toda a certeza isso ia ter dado errado”, afirma.

O teste foi estendido para três meses e, depois, seis meses. Os resultados foram animadores: 40% dos colaboradores perceberam um aumento na atenção dada a suas saúdes mental e física em relação ao período antes do experimento.

“A gente teve que pensar em como podíamos treinar a empresa a trabalhar de forma mais produtiva e como consequência ganhamos um dia a mais de descanso, sem culpa", conta Gian.

Whatsapp comedido, reuniões restringidas

Em janeiro deste ano, a AAA Inovação - consultoria com foco em tecnologia e inovação - também decidiu reduzir os dias da semana na jornada de trabalho. Sua versão da semana de trabalho de quatro dias incluiu a sexta-feira como o “AAA Reset Day”, dia específico para fazer cursos, participar de eventos ou simplesmente descansar. 

Com mais tempo para relaxar a mente, os gestores viram uma melhora no equilíbrio entre vida pessoal e profissional dos colaboradores e um aumento na criatividade das equipes. “A gente se tornou muito mais eficiente, muito mais criativo e também conseguimos melhorar a qualidade da nossa entrega”, afirma Juan Pablo Boeira, CEO da startup. 

Horas e mais horas gastas em reuniões desnecessárias e comunicações constantes via Whatsapp também foram abolidas. Para diminuir os dias de trabalho e ainda conseguir manter a produtividade em dia, foi necessário transformar todos os setores da empresa e torná-los mais ágeis. Como resultado, os colaboradores ficaram mais felizes e conseguiram se dedicar ao trabalho sem tantas distrações, afirma Juan.

No caso da Crawly, o funcionário Pedro Maximino folga às sextas-feiras desde que entrou na empresa, há seis meses. A startup trabalha com o final de semana de três dias desde 2018 e é uma das precursoras da jornada no País. 

Para o analista de marketing, apesar do estranhamento inicial, a adaptação a esse novo modelo foi rápida. “Com quatro dias de trabalho, a gente tem que ter uma proatividade muito maior. É aprender a fazer mais em menos tempo”, conta.

Neurociência explica

A ideia de diminuir os dias trabalhados pode parecer radical para algumas pessoas ou um verdadeiro “sonho” para outras, mas o fato é que, segundo especialistas, longos dias e horas de trabalho não nos tornam mais produtivos.

A produtividade é um fenômeno complexo, explica Thais Gameiro, neurocientista e sócia da consultoria Nêmesis. Ela envolve diversos fatores como motivação, instinto de sobrevivência, engajamento, hidratação, boa alimentação e descanso. Nosso cérebro cansa e a sobrecarga de trabalho, ao invés de aumentar nossa capacidade produtiva, nos esgota.

“É só a gente pensar como é que a gente se sente no dia em que trabalhamos muito. Parece que a gente realmente correu uma maratona, mas a gente só ficou sentado olhando para o computador”, conta.

Ao diminuir os dias de trabalho, os colaboradores também conseguem aumentar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. “Existe ali um ganho de bem-estar e saúde. As pessoas conseguem usufruir melhor do seu tempo livre e isso faz com que elas estejam melhores para trabalhar e fiquem muito mais engajadas”, conclui.

* Estagiária sob a supervisão da editora do Estadão Carreira e Empreendedorismo, Ana Paula Boni Quer debater assuntos de Carreira e Empreendedorismo? Entre para o nosso grupo no Telegram pelo link ou digite @gruposuacarreira na barra de pesquisa do aplicativo. 

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