Tiago Queiroz/Estadão
Érica Buganza, gerente do Núcleo de RH do Itaú Cultural, implementou estratégias que ajudassem os funcionários a entenderem aspectos da saúde mental, em um processo de educação do tema. Tiago Queiroz/Estadão

Setembro Amarelo: empresas fazem educação em saúde mental de olho em prevenção

Companhias como Itaú Cultural e L’Oréal apostam em acompanhamento contínuo de psicoterapia e bem-estar para evitar depressão e suicídio; saiba como ajudar e onde buscar ajuda

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2021 | 05h02

A proposta de conversar sobre saúde mental nas empresas ainda pode encontrar resistência e se tornar mais temerosa quando envolve o tema suicídio, cercado de tabus. Para transpor o medo de falar sobre os próprios desafios e os julgamentos inadequados, a psicoeducação vem sendo adotada por algumas empresas. Não se trata de mergulhar em livros de psicologia ou nas teorias de Freud e Jung, mas de uma prática de ensino do psiquismo para reconhecer em si e no outro indicadores de saúde mental.

“A gente entra com psicoeducação e consegue dar e receber feedback a fim de tornar o profissional mais saudável mentalmente dentro da empresa”, diz a psicóloga e consultora em gestão de pessoas Kátia Saraiva. Há 20 anos, ela realiza esse trabalho nas corporações, embora perceba que, em termos de divulgação, é algo recente. Mais do que oferecer psicoterapia online, palestras e cursos em datas pontuais, a psicoeducação demanda periodicidade e se concretiza pela atuação de um profissional da saúde mental, psicólogo ou psiquiatra. Atendimentos individuais nas empresas completam o serviço.

“Por meio da psicoeducação, tento mostrar a importância da identificação da pessoa com o que ela faz para que tenha saúde emocional, porque o sofrimento psíquico no trabalho é uma realidade. Por que eu preciso saber do meu psiquismo? Para entender o que acontece comigo, desenvolver empatia, melhorar relações interpessoais, identificar quando estou triste, deprimida, separar emoção de sentido, projeção de introjeção”, explica. A campanha Setembro Amarelo, organizada desde 2014 (leia mais abaixo), reforça a pauta ao conscientizar sobre a prevenção do suicídio, uma vez que transtornos mentais, principalmente a depressão, estão associados ao ato.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, as taxas de suicídio diminuíram 36% em todo o mundo entre 2000 e 2019, mas aumentaram 17% na região das Américas no mesmo período. Além das questões mentais, problemas financeiros, rompimento de relacionamento, dor crônica e doenças podem levar uma pessoa a atentar contra a própria vida. O principal a destacar é que há prevenção, tratamento e uma vida pessoal e profissional possíveis.

Como um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a promoção de saúde mental e bem-estar terá de ser cada vez mais responsabilidade das empresas também. “A partir de 2022, a nova Classificação Internacional de Doenças vai ter uma CID de síndrome de burnout, que é causada pelo trabalho, e isso coloca a empresa como ‘culpada’”, diz o psiquiatra Frederico Porto, que explica que a classe médica ainda não pode apontar a causa de uma depressão, por exemplo. “Esse diagnóstico oficial vai ser uma revolução.”

Saúde mental vira rotina 

Atenta a essas questões, a gerente do Núcleo de RH do Itaú Cultural Érica Buganza tem promovido mudanças apartadas do que já é oferecido pelo banco. No ano passado, deram início a uma rodada de palestras mensais com psiquiatras por meio de uma empresa terceirizada. “Falamos de ansiedade, depressão, burnout e teve uma roda de conversa só para mulheres e mães”, conta. Quando o retorno ao presencial ficou mais distante, outros profissionais foram chamados: de ioga, meditação, oftalmologista, nutricionista e infectologista para falar de vacina. “Fomos incorporando aspectos da saúde que reverberam no emocional.”

Depois, a equipe entendeu que era hora de agir com as lideranças e lançou em maio um programa de formação para educar gestores em saúde mental. Na primeira fase, já concluída, o foco foi no individual para os líderes conseguirem manejar as próprias questões. Agora, a segunda etapa visa o entendimento do outro. “Não é para a liderança agir como psicóloga, mas entender os sintomas de ansiedade, depressão, falar sobre o manejo, de como perguntar para uma pessoa como ela está, se devo dar ou não abertura”, diz Érica. Quem se sente desconfortável com essa posição tem uma equipe de apoio para auxiliar.

Aos colaboradores, as rodas de conversa continuam mensalmente, agora voltadas a temas como ansiedade pelo retorno ao escritório, convívio social e medo de contaminação. Em breve, o Itaú Cultural vai implementar o SOS Saúde, um canal telefônico com atendimento psiquiátrico 24 horas para situações de urgência e emergência, como risco de suicídio, e casos de leve a grave. “Queremos dar essa possibilidade ao funcionário, sentir como acontece esse movimento e expandir para os dependentes mais próximos no sentido de dar acolhimento.”

Na relação entre suicídio e trabalho, os estudos são segmentados e é difícil ter uma visão ampla, que pode ser subnotificada também. Sabe-se que doenças ocupacionais como lesões por esforço repetitivo, assédio e síndrome de burnout podem estar associadas. A própria pandemia fez a carreira piorar, com renda e saúde mental sendo mais afetados. Isso também fez a L'Oréal Brasil investir em um programa de saúde mental e equilíbrio de vida mais completo, chamado Você Vale +, que é dividido em quatro pilares: emocional, físico, trabalho e relacionamentos.

No primeiro, além de uma plataforma online de psicoterapia com 40% das sessões subsidiadas pela companhia, há rodas de conversa e workshops conduzidos mensalmente por uma psicoeducadora. “Vamos abordar como quebrar o tabu sobre a terapia, como lidar com a montanha russa de emoções na pandemia, ser vulnerável, evitar o estresse, lidar com o luto e gerenciar a ansiedade”, enumera Isabella Teixeira, gerente de remuneração e benefícios da empresa.

Essa educação em saúde mental estará alinhada com os demais pontos de atenção do plano, que buscam melhorar o clima organizacional e as relações interpessoais, promover trabalho saudável e pausas, estimular momentos de descompressão, trocas de gentileza e a prática de exercícios físicos para o bem-estar do corpo e da mente. “O programa trabalha a cultura nos diversos níveis da organização, porque não adianta promover esse discurso, fazer rodas de conversa e, por outro lado, ter demanda muito grande”, completa.

Os resultados da psicoeducação foram transformadores no escritório de advocacia Renato Von Mühlen, que no ano passado solicitou os serviços de Kátia Saraiva. “Todo mundo foi trabalhar de casa e, aos poucos, as pessoas foram ficando desanimadas, deprimidas, abaladas. Contratamos uma profissional para conversar com elas, para se sentirem mais seguras e animadas”, conta Angela Von Müllen, sócia da empresa. Ela diz que já tinha sido orientada pela consultora, em um coaching anterior, sobre perceber sinais na equipe, o que facilitou o manejo atual.

Há um ano, de forma voluntária, os 28 colaboradores da companhia podem conversar com Kátia a qualquer momento por aplicativos de mensagem sobre questões profissionais e pessoais, além de participarem de encontros virtuais em grupo. Houve um pouco de resistência no começo, diz Angela, talvez pela falta de conhecimento da importância do atendimento ou medo de que os assuntos fossem compartilhados com a liderança - o que não ocorre.

“Depois de um mês que a maioria já tinha conversado com ela, senti o impacto positivo, inclusive feedback dos colaboradores de como foi bom ter esse apoio. Fizemos uma avaliação no fim do ano e esse apoio foi um dos pontos positivos. Acho que ela tem ajudado muito mais na vida pessoal do que profissional, mas isso reflete diretamente no trabalho”, completa a advogada.

Depressão e suicídio: como ajudar e onde buscar ajuda

O Setembro Amarelo é organizado desde 2014 pela Associação Brasileira de Psiquiatria em parceria com o Conselho Federal de Medicina e disponibiliza no site uma lista de médicos psiquiatras disponíveis para atendimento. Outras ações também convidam a refletir e aprender sobre saúde mental, como o Movimento Falar Inspira Vida, que desenvolveu um jogo para mostrar os desafios de quem tem depressão. Há, ainda, guias de orientação e acolhimento, um deles focado no ambiente de trabalho. Já o projeto Conta, Mana foca nas mulheres para conscientizar sobre a importância do bem-estar e autocuidado.

Fundado há quase 60 anos, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio. Quem precisa de ajuda pode entrar em contato pelo telefone 188 (24 horas por dia e sem custo de ligação), pessoalmente nos mais de 120 postos de atendimento (consulte endereço) ou pelo site, por chat ou e-mail. O psiquiatra Frederico Porto indica quando é hora de buscar ajuda. “Quando interfere no padrão de vida, a pessoa passa a dormir mal, perde a esperança com o futuro, o sentido da vida e coisas que davam prazer agora não mais.”

Segundo a psicóloga Patricia Lenine, da Zero Barreiras Psicoterapia Online, o suicídio pode ser evitado tratando a saúde mental. “Precisamos conscientizar as pessoas doentes e seus familiares que a dor e a tristeza não são frescura. E merecem intervenções com profissionais de saúde.”

A psicóloga Christiane Valle, da mesma plataforma, diz que, se a própria pessoa não percebe o sofrimento que vive, familiares, amigos e colegas de trabalho podem ajudar. Ao identificar sinais que possam estar relacionados à depressão ou pensamentos suicidas, o mais indicado é buscar ajuda de um profissional.Se o caso é no trabalho, é importante avisar um membro da família.

Se estiver diante de um caso iminente de tentativa de suicídio, as especialistas orientam se aproximar da pessoa e dar as mãos, acolher, ouvir sem fazer qualquer julgamento da situação, sem nem dizer “calma que isso vai passar”, porque a pessoa precisa apenas voltar ao seu estado de controle emocional e saber que tem alguém com ela no momento de dificuldade.

Sinais podem indicar depressão no trabalho e pensamentos suicidas

Depressão

  • Procrastinação constante
  • Reclamar sempre de novas tarefas
  • Tentar não participar de reuniões e, nas onlines, nunca ligar a câmera
  • Chorar com facilidade
  • Gritar, se irritar e até bater na mesa com constância
  • Nunca demonstrar qualquer otimismo para atingir metas ou superar problemas
  • Apresentar sinais físicos de problemas mentais com frequência, como dor de cabeça, dor muscular, gastrite nervosa, cansaço por dormir mal, sonolência excessiva, perda de peso
  • Começar a se descuidar de forma repetitiva

Pensamentos suicidas

  • Não demonstrar ter planos para o futuro
  • Sempre dizer que a vida não tem sentido e não merece ser vivida
  • Dizer que, se morresse, não teria problema algum
  • Dizer que se sente completamente incapaz de mudar a sua vida para melhor
  • Machucar-se ou se mutilar quando está em sofrimento.

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Ferramentas para promoção da saúde mental crescem no mercado de trabalho

Segurança psicológica ganha holofote da área de RH, mas empresas ainda oferecem escassos benefícios para saúde mental de funcionários; plataformas e cursos ajudam na psicoeducação

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2021 | 05h00

Uma pesquisa feita pela Gupy, startup voltada para recrutamento e seleção online, em parceria com a consultoria Ideafix, mostrou que 54% dos 500 profissionais de RH ouvidos em todo o Brasil acreditam que a segurança psicológica será um dos principais indicadores de recursos humanos no futuro. Porém, um mapeamento mais recente constatou que, entre as 60 mil vagas publicadas mensalmente na plataforma, apenas 2% ofereciam benefícios para saúde mental no último semestre.

Os serviços mais oferecidos são de benefício ou auxílio de saúde mental (49%), horários flexíveis (26% ), benefício ou auxílio de saúde física (10%) e benefícios flexíveis para uso de acordo com preferência do colaborador (15%). Para aprimorar uma demanda crescente por soluções como essas, empresas têm investido em psicoeducação, uma técnica para ensinar de forma didática as questões da mente e os desafios emocionais vividos individualmente.

Nesse processo, é fundamental ter periodicidade e um profissional acompanhando e instruindo de perto, mesmo que virtualmente. Como aliado, plataformas online usam questionários validados cientificamente e linguagem acessível para instruir e orientar sobre alguns temas. A Health & Safe Place to Work (HSPW), por exemplo, oferece uma avaliação em quatro aspectos: mental, física, financeira e organizacional.

A ferramenta interativa permite acesso a um relatório acerca das perguntas respondidas diariamente, diagnósticos possíveis, dicas práticas e uma lista de serviços, desde psicólogo até crédito, que podem ser parceiros da empresa contratante. “Por meio desse instrumento, a gente coloca a informação na mão do ser humano”, diz Nestor Sequeiros, CEO da HSPW.

Os empregados são questionados sobre como estão se sentindo, como percebem a realidade e a si mesmos, qualidade do sono e do trabalho. “A ideia é promover autogestão, autoconhecimento imediato, apresentar hipóteses e opções para lidar, como exercícios, vídeos e dicas.” O desafio, segundo ele, é gerar aderência do usuário da ferramenta, de modo que ele a interaja todos os dias. Até agora, porém, os resultados têm sido positivos. Ele cita que, em uma empresa, houve 60% de adesão no primeiro ciclo do programa.

Esse engajamento deve partir principalmente da liderança. Kátia Saraiva, psicóloga e consultora em gestão de pessoas, afirma que, para promover a psicoeducação, é preciso convencer gestores de que pessoas saudáveis e felizes produzem mais e melhor. “À medida que o empregador tem essa consciência, ele aceita que o processo seja implementado e todos ganham”, diz.

O psiquiatra Frederico Porto também percebe o receio de alguns gestores por não saberem lidar com a questão, principalmente se o tópico ‘suicídio’ aparecer. “Fala-se do tema, desde que abordem a saúde mental. Tem de ter humanização do trabalho, como programas de treinamento que ajude a pessoa a se conhecer melhor, do que ela gosta .”

Conversa e gamificação

Outra ferramenta, que será lançada no próximo dia 23, também busca instruir os colaboradores sobre saúde mental por meio de jornadas de conhecimento, com linguagem gamificada e estilo de conversa. É a Training Box, desenvolvida pela startup de aprendizagem Joco, que tem a jornalista Carol Barcellos como guia desse processo de ensinar questões como sentir medo, ter conversas difíceis e empatia. A cada jornada, ela aparece em vídeos curtos, de 30 segundos, explicando alguns conceitos e fazendo perguntas de múltipla escolha ou livre resposta.

“A gente não vai substituir o trabalho mais próximo, olho no olho.O que a gente propõe é aumentar a sensibilidade e consciência de aprender a identificar questões emocionais, criar uma onda de conhecimento”, explica Fernando Gouvea, CEO da Joco. Na sessão sobre lidar com o medo, por exemplo, é discutido que se trata de uma emoção comum a todos, que o mais adequado é observá-la e não negá-la e que diversos fatores influenciam seu surgimento e reação. Ao concluir, a pessoa pode se aprofundar no assunto por meio de materiais escritos ou audiovisuais.

“Na plataforma, tem uma área que apresenta o seu perfil, com uns insights sobre você, dicas e conteúdos complementares que tem a ver com as respostas que você deu”, ele completa. Gouvea diz que não é uma indicação para buscar ajuda psicológica, por exemplo, porque a ferramenta será usada nas empresas e, segundo ele, cabe à companhia definir a própria política sobre o assunto.

A psicóloga Kátia Saraiva reforça que esses recursos tecnológicos podem ser usados como um instrumento a mais, porém sem substituir a psicoeducação nem o serviço de apoio psicológico ao funcionário. “Um aplicativo não pode substituir o julgamento clínico, a avaliação personalizada que um profissional é capaz de fazer que se baseia não apenas nas respostas da pessoa, mas numa observação profissional, de linguagem verbal, não-verbal, histórico, contexto, que faz toda a diferença para um diagnóstico, tratamento e orientação efetivamente seguros”, afirma.

Curso forma socorristas em saúde mental

Em abril deste ano, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz lançou um curso de formação de socorristas em saúde mental para empresas. A proposta é capacitar profissionais para identificarem pessoas em situação de risco mental e emocional e uma nova turma está prevista para o começo de 2022. A primeira edição formou 140 alunos há menos de um mês.

“São quatro módulos. O primeiro traz uma base de conceitos em que se discute o que é saúde e saúde mental, quais são as principais doenças, sintomas de depressão e ansiedade, conceito de felicidade e bem-estar. O segundo foi sobre estratégias que podem impactar na saúde mental, como superalimentos, ambiente e estilo de vida. No terceiro, falamos de estratégias terapêuticas não medicamentosas, como mindfulness, musicoterapia e espiritualidade. O último bloco foi para empoderá-los do que fazer a partir dali, então é sobre gestão de conflitos, gestão de mudanças, estratégia antiburnout, liderança e comunicação não violenta. Por último, fizemos uma mesa de debate para discutir alguns casos clínicos”, explica Daniela Laranja, neurologista do hospital.

O time de professores inclui psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, neurologistas e profissionais ligados a temas de sustentabilidade. Com isso, é possível dar a dimensão dos diversos fatores que influenciam na saúde mental das pessoas. “Cada um recebe um selo específico no crachá que o identifica como socorrista dentro da instituição e eles são acompanhados por uma psicóloga para apoiá-los em alguma situação mais difícil ou quando se sentem abalados por algum problema emocional”, completa.

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