Taba Benedicto|Estadão
A profissional Aline Teles. Taba Benedicto|Estadão

A profissional Aline Teles. Taba Benedicto|Estadão

Sobram vagas de tecnologia, mas não para o primeiro emprego

Alta demanda faz abundar vagas, mas empresas disputam profissionais experientes para acelerar transformação digital; número de vagas para experientes é quase o triplo daquelas para iniciantes

Marcos Leandro , Especial para o Estadão

Atualizado

A profissional Aline Teles. Taba Benedicto|Estadão

Com mais vagas de emprego na área de tecnologia do que profissionais capacitados para ocupá-las, o setor se tornou um dos mais promissores do mercado. Até 2024, o Brasil vai precisar de mais de 300 mil profissionais de TI, mas só forma 46 mil alunos na área por ano. Assim, na hora de escolher uma profissão, investir no segmento pode parecer garantia de trabalho, mas não é bem assim. A disputa atual no mercado é por profissionais experientes - e os iniciantes estão sendo colocados de escanteio.

Aline Teles, de 30 anos, é moradora de São Paulo, recém-formada em Gestão de Tecnologia da Informação e conta que está com dificuldades para se inserir no mercado de trabalho. Os requisitos para os cargos de entrada acabaram se tornando uma barreira.

“Durante a faculdade, eu não cheguei a estagiar, mas fiz várias entrevistas. O que eu pude perceber, infelizmente, é que até para vagas de estágio há muitas exigências”, diz ela.

Aline conta que sempre gostou de tecnologia e lembra que o seu primeiro contato com um computador foi aos 9 anos, mas nunca imaginou que poderia se tornar um ofício. Com 15 anos, ela começou um curso de Informática, mas precisou trancar para trabalhar. Nesse meio tempo, foi babá, cuidadora de idosos, entregadora de panfletos e até tosadora de animais.

Na hora de escolher uma nova profissão, ela viu que a área de tecnologia estava precisando de profissionais e, após pesquisas e conversas, optou por estudar TI. Ela afirma que observa, sim, uma grande quantidade de vagas, porém a maioria destinada para quem já está no mercado há mais tempo. 

“As empresas estão basicamente disputando os profissionais que já têm experiência. Mas até chegarmos lá ainda há uma caminhada muito grande. No meu caso, que estou iniciando e nem consegui estagiar, é muito complicado por conta das muitas exigências, que às vezes nem serão utilizadas para o cargo que você vai ocupar.”

Formada e sem trabalhar na área, ela conta que não deixa de buscar aprendizado. “Hoje eu ainda trabalho como atendente e tosadora, mas sigo sempre atualizando e aprimorando meus conhecimentos na área de tecnologia. No momento, estou participando de uma trilha de Python com a empresa ShareRH, que se chama Afrodev. É um programa voltado para pessoas negras.” 

Em paralelo, ela busca por vagas diariamente e está cadastrada em diversas plataformas, como Revelo, Catho e InfoJobs, além de conferir as chances disponíveis no LinkedIn. “Eu devo enviar em média uns 20 currículos por dia.”

Essa também é a realidade de Ednavan Lima, de 23 anos, que mora em Campina Grande (PB), e se formou recentemente em Análise e Desenvolvimento de Sistemas. “Além da experiência profissional, as empresas pedem conhecimentos em inúmeras linguagens de programação, o que torna ainda mais difícil para um iniciante entrar no mercado de trabalho.” Segundo ele, muitas empresas acabam não dando oportunidade para quem está começando. 

“Recentemente, participei de um processo seletivo para uma empresa que estava com chances para profissionais juniores e estagiários. Em uma das etapas, enviei alguns trabalhos que eu já havia feito, mas no final eu não fui selecionado. Eu pedi um feedback para o recrutador como forma de saber o que precisava melhorar e soube que as vagas foram ocupadas por programadores mais experientes”, conta. 

Atualmente, Ednavan trabalha na área de suporte e busca por uma vaga de desenvolvedor. No dia a dia, ele usa o LinkedIn para fazer networking com recrutadores e profissionais da área.

Segundo Ronaldo Takahashi, CTO do Distrito, a busca por uma digitalização dentro do menor prazo possível faz com que as empresas recorram a perfis com um nível de senioridade maior. “Desenvolvedores com menos experiência precisam de um tempo maior para adaptação e capacitação. Em alguns casos, o próprio tempo de desenvolvimento também acaba sendo maior”, explica.

As vagas ofertadas nas plataformas

Para entender esse cenário de contratações, o Estadão consultou as principais plataformas de recrutamento do País. Em 2020, de todas as oportunidades anunciadas para a área de tecnologia no Vagas.com, 60,4% eram destinadas para profissionais plenos e seniores, enquanto 20,4% eram para cargos de estágio e trainee ou júnior. 

Apenas as vagas para sênior (28,2%) tiveram maior representatividade do que todas as chances para iniciantes. Analisando os meses de janeiro a abril deste ano, o cenário não mudou muito, com 59,2% das chances para cargos especialistas e 26,4% para cargos de entrada.

Dados da Catho mostram que, de janeiro a março deste ano, 87,96% das vagas de emprego em tecnologia anunciadas eram destinadas a profissionais especializados com ensino superior. Para quem tem apenas nível médio ou técnico, as chances não chegaram a 1% (0,97%). Além disso, enquanto cargos de chefia e supervisão representavam 6,8% das vagas, as posições de estágio somaram apenas 1,2%.

Na Gupy, a maioria das vagas de TI publicadas recentemente também é para cargos pleno e sênior, sendo 45% e 33%, respectivamente. Já as oportunidades para posições juniores representaram 24%. No geral, a área de tecnologia é uma das que mais geram oportunidades de trabalho, sendo 17% de todas as vagas da plataforma, mas, segundo Guilherme Dias, CMO e cofundador da Gupy, também é uma das áreas mais difíceis para se encontrar talentos.

No InfoJobs, o cenário se repete. Das vagas anunciadas atualmente na plataforma, 57,8% são destinadas para analistas, especialistas, coordenadores e outros cargos com nível maior de senioridade. Para estagiários, trainees e cargos juniores, esse percentual é de 5%. 

“Por se tratar de uma área técnica, muitas vezes em posição urgente, conhecimentos técnicos são exigidos e necessários. Esses conhecimentos aparecem em profissionais com mais experiências e, assim, a chance de obter sucesso na contratação e agilizar a transição e absorção dos processos torna-se ainda maior”, explica Ana Paula Prado, country manager do InfoJobs.

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Empresas dão capacitação em tecnologia para treinar profissionais

Magalu e Samsung promovem formação técnica, enquanto Revelo dá financiamento estudantil; veja requisitos exigidos do profissional de TI e dicas de como montar o currículo

Marcos Leandro, Especial para o Estadão

08 de maio de 2021 | 23h56

Mesmo contando com todos os profissionais iniciantes, não há gente suficiente para ocupar todas as vagas que o mercado oferece. Na era digital, uma boa estrutura tecnológica é necessária para que as companhias se mantenham competitivas. Dessa forma, algumas empresas investem no setor, com iniciativas voltadas para os seus públicos interno e externo, como é o caso do Magalu.

“Temos o Labs School, que oferece formação técnica em vários temas de tecnologia para nossos colaboradores com a ajuda de outros colaboradores, ou seja, nosso próprio time compartilha conhecimento”, conta Caio Nalini, gerente de Gestão de Pessoas do Magalu. Além disso, a empresa concede reembolso de parte das formações externas e subsídios pontuais para participações em eventos, congressos ou cursos de curta duração. 

Outra iniciativa da empresa é o LuizaCode, um programa voltado para mulheres e que, segundo Caio, visa contribuir com a diversidade em tecnologia. Dados do YouthSpark mostram que apenas 25% dos profissionais de TI no Brasil são do sexo feminino. 

“O propósito do Magalu é levar ao acesso de muitos o que é privilégio de poucos, portanto investir em formação está totalmente alinhado ao nosso propósito”, pontua o gerente.

Ao final do programa, as formandas são convidadas a participar de processos seletivos da empresa. Na última turma, 30% das mulheres que concluíram a formação foram contratadas pelo Luizalabs, que é a área de tecnologia e inovação do Magalu. O gerente conta que há atualmente oportunidades em aberto para os mais diversos níveis hierárquicos, inclusive para iniciantes.

“Cuidamos muito para que todos tenham aderência a nossos valores e nossa cultura, além de conhecimento técnico necessário para cada vaga. Na prática, isso significa que ter fit cultural com o Magalu é absolutamente necessário e fortemente avaliado em nosso processo seletivo.”

A Samsung oferece capacitação tecnológica à comunidade e fomenta a criação de startups através do Samsung Ocean, que é uma iniciativa global da empresa e está presente no Brasil. “O programa superou a marca de 100 mil participações em treinamentos em cerca de 3.900 sessões desde seu início, em 2014”, conta Eduardo Conejo, gerente sênior de Inovação na área de Pesquisa e Desenvolvimento da Samsung.

A iniciativa tem parceria com a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nessas instituições públicas são mantidos espaços físicos para as atividades, mas elas estão sendo feitas no formato online desde abril de 2020. “O modelo online unificou os conteúdos regionais, gerando uma diversidade de oferta para todo o território nacional.”

Qualquer pessoa com acesso à internet pode se inscrever e aprender sobre tecnologia e inovação por meio do site ou via aplicativo do Samsung Ocean, disponível para Android. 

“Acreditamos que o setor de inovação só tem a ganhar com essa constante parceria da academia com o mercado, permitindo que os profissionais sejam atualizados com os temas mais pertinentes do momento, como IoT (internet das coisas) e IA (inteligência artificial) e a linguagem Phyton.”

Cursos profissionalizantes

Outra iniciativa do mercado que ajuda o setor é a Revelo UP, programa de financiamento estudantil que ajuda a trazer profissionais para o mercado de tecnologia por meio de cursos profissionalizantes. Patricia Carvalho, diretora de experiência do candidato e marketing da Revelo, conta que módulos práticos realizados em cursos ajudam a preparar o candidato para começar a trabalhar.

“Na Revelo, procuramos também sempre orientar o empregador a nivelar as expectativas de acordo com o cargo que está sendo contratado”, diz ela. Durante um processo seletivo, para chegar até a entrevista, Patricia conta que profissional inexperiente tem que atender a três pontos fundamentais, que precisam estar no currículo. 

São eles: os conhecimentos técnicos (hard skills), informações de contato e os objetivos profissionais. “Se o profissional possuir experiências profissionais, elas precisam estar descritas também”, completa. 

As habilidades técnicas podem variar de acordo com a vaga, mas a diretora conta que as linguagens de programação Java, SQL, JavaScript, AWS, Linux e Agile ganharam um destaque importante durante o período de pandemia. 

Outro ponto que as empresas analisam nos candidatos são as habilidades comportamentais (soft skills). Segundo Patricia, para os profissionais de tecnologia, comunicação efetiva, bom relacionamento interpessoal e capacidade analítica estão entre as mais importantes. Durante um processo seletivo, informações falsas no currículo, perfil não aderente com a empresa ou a vaga e a falta de bom relacionamento interpessoal são critérios que podem eliminar um candidato. Por fim, a especialista pontua três dicas para os novos profissionais.

  1. Estude inglês, pois em tecnologia é um idioma fundamental

  2. Fique de olho nas linguagens de programação mais pedidas nas vagas

  3. Conecte-se com profissionais do mercado nos fóruns de tecnologia

Como se vender e preencher o currículo

Para a tech recruiter Michele Barbosa, a falta de experiência é um empecilho para o início de carreira em todas as áreas, porém, em tecnologia, existem formas de contornar essa situação.

“Bootcamps, hackathons, academias, cursos, certificações, pequenos projetos e até trabalhos freelance abrem portas para o pessoal de TI”, afirma ela. Por haver uma menor oferta de vagas para quem está começando, Michele conta que é preciso se atentar a alguns erros que podem acabar dificultando ainda mais nessa inserção no mercado de trabalho. 

“O principal problema que eu encontro no profissional de TI é não saber se vender. Muitos não conseguem transmitir os seus conhecimentos para o currículo, o que acaba impedindo que esses candidatos prossigam em um processo seletivo.” 

Ela também chama atenção para o LinkedIn, que deve ter palavras-chave com a posição que o profissional deseja atuar e as tecnologias que domina - para aparecer na busca dos recrutadores.

Para quem deseja começar a carreira em tecnologia, ela aconselha primeiramente definir em que área deseja atuar, como FrontEnd, BackEnd, Full Stack ou Data, por exemplo. Além disso, é importante guardar os trabalhos feitos para mostrá-los em um portfólio.

A dica da especialista é criar um cadastro no GitHub, plataforma de hospedagem de código-fonte e arquivos. Dessa forma, será possível armazenar os códigos criados, além de observar a evolução na qualidade dos mesmos.

Patricia Carvalho, da Revelo, conta que o cargo de desenvolvedor é o mais comum para quem inicia a carreira em tecnologia e também uma das posições mais procuradas pelas empresas atualmente. Além disso, segundo ela, é possível ser contratado mesmo não tendo uma graduação. 

“A área de tecnologia chega para romper uma série de paradigmas, e a desobrigatoriedade de um curso superior é um deles. Existem diferentes opções de cursos e bootcamps que preparam muito bem o profissional para trabalhar nesse universo”, afirma.

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