Roger Monteiro
Roger Monteiro

‘Talentos pretos não estão sendo aproveitados para trabalhar’, diz publicitário

Agência Gana, criada e ocupada por profissionais negros, quer levar diversidade ao mercado de trabalho e à publicidade; entre clientes há grandes empresas como Coca-Cola

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2021 | 10h00

Uma agência de comunicação formada 100% por profissionais negros, em todos os níveis hierárquicos, é a proposta da Gana, criada em março deste ano. De um lado, o objetivo de construir uma publicidade mais conectada com a realidade do Brasil, onde 56% da população se autodeclara negra e mais da metade pertence às classes C e D. Do outro, a vontade de mostrar a potência e a criatividade dos profissionais negros e periféricos, muitas vezes sem espaço nas agências tradicionais e afastados dos cargos de liderança.

“Longe de dizer que a gente quer formar talentos, porque as pessoas negras têm muita inteligência e talento para oferecer. Essa inteligência já está formada, com profissionais que já produzem muita coisa boa. Não é só o lado de dar oportunidade e formar, é reconhecer talentos, atrair as melhores pessoas que não estão sendo valorizadas pelo mercado. Queremos ter um lugar que os aproveite e mostre para as marcas que há talentos que não estão sendo aproveitados”, explica Felipe Silva, publicitário com mais de 14 anos de mercado e cofundador da agência.

A Gana surgiu como um coletivo em 2019, mas logo os fundadores perceberam que precisariam de uma estrutura de agência para dar conta do mercado, mesmo sem investidor. No último mês, a agência conquistou a conta do Kuat - que faz parte do grupo Coca-Cola - e será responsável pela estratégia de relançamento da marca no País.

Hoje, são 10 funcionários fixos, que trabalham em home office. “As pesquisas mostram que as pessoas da classe C são as mais afetadas pela covid-19, então para a gente não faz nenhum sentido juntar todo mundo em um lugar físico nesse momento. Estamos integrados no online. Disponibilizamos auxílio-internet e tudo o que a gente puder para que as pessoas possam trabalhar bem”, destaca Felipe. A agência conta ainda com outros 35 profissionais espalhados pelo Brasil e contratados por projeto.

Confira a seguir trechos da entrevista com o cofundador da Gana Felipe Silva:

Quando foi criada a agência Gana, por quem e por quê?

A Gana nasceu primeiro de uma reunião de profissionais em um coletivo de criativos negros da propaganda. A gente já se conhecia do mercado, já era amigo, mas trabalhava em agências diferentes. Cada um com muitos anos de carreira, mas nunca tínhamos trabalhado juntos. Nos reunimos com o objetivo de tentar impactar o mercado de alguma forma, conscientizá-lo sobre a potência de criatividade preta

Dessa reunião do coletivo, a gente começou a fazer movimentos e percebemos que o nosso caminho de impacto mais forte seria ter uma agência, porque começamos a ser demandados a criar. Vimos que o caminho mais forte para que a gente pudesse trazer o impacto da potência da criatividade preta seria esse. O coletivo surgiu em 2019 e o movimento para virar uma empresa foi em 2020. 

Neste ano tivemos o lançamento, com a minha liderança. Nascemos com a visão de trazer a potência da criatividade preta e periférica e que está sendo desperdiçada por outras agências. Passamos por quase todas (as principais agências de publicidade) e não tem espaço. Os talentos pretos não estão sendo aproveitados para trabalhar e criar para as marcas. 

Um dos objetivos da agência é criar uma visão mais conectada com os consumidores. O que isso significa?

A gente tem um País que é composto por 56% de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas e que são quase 70% das classes C e D. A maior parte do nosso País é negra e das classes mais baixas. Quem está pensando nas marcas e na publicidade é uma elite da classe A e B: os criativos, os marketeiros, os donos de agência, os estrategistas são da classe A e B. As marcas são pensadas por essas pessoas.

Estamos desconsiderando a potência, a vivência e o entendimento que as pessoas negras e das classes C e D têm do Brasil. A publicidade brasileira criou até hoje marcas desconectadas do público, vemos cada vez mais erros de marca por desconhecimento do público. Oferecer o que a Gana tem de potência é trazer essa vivência, porque são pessoas que vêm desses lugares, falamos com conhecimento de quem viveu e quem entende. 

Como a Gana ajuda a carreira de profissionais negros?

Se a gente pegar as top 50 agências de publicidade do Brasil e olharmos para os cargos de liderança, não chegamos nem a 10 pessoas negras. Isso porque eu estou botando um número alto. É muito sintomatico que não temos negros nas agências nem nos cargos de liderança, nem sócios de agência. 

A Gana é 100% feita de profissionais negros, sócios, diretores, todos os profissionais são negros, periféricos, do Brasil inteiro também para quebrar o eixo Sul-Sudeste que domina a comunicação.

Com isso, a gente dá espaço para essa potência, para a criatividade e a estratégia das pessoas pretas em espaços e cargos de liderança para que elas possam trabalhar, exercer e mostrar os seus talentos. Longe de dizer que a gente quer formar talentos, porque as pessoas negras têm muita inteligência e talento para oferecer. Essa inteligência já está formada, com profissionais que já produzem muita coisa boa. 

Não é só o lado de dar oportunidade e formar, é reconhecer talentos, atrair as melhores pessoas que não estão sendo valorizadas pelo mercado. Queremos ter um lugar que aproveite esses talentos e mostre para as marcas que há talentos que não estão sendo aproveitados. 

Nos últimos anos, a gente tem visto um movimento de grandes empresas para pensar sobre diversidade e inclusão, mas dá para trabalhar a diversidade racial na propaganda sendo uma pequena empresa?

É muito importante identificar duas coisas, têm dois movimentos muito importantes. Primeiro, o movimento de trabalhar a questão racial, mas de ser genuíno. Por outro lado, tem esse movimento das marcas se preocupando com a inclusão e a diversidade. Eu acho que isso é um movimento de todas as marcas, pequenas e grandes.

Se você vende para o povo brasileiro, tem que, no mínimo, espelhar esse povo nas suas linhas de produção, na contratação, na diretoria, no seu núcleo de conselho, gerentes, diretores. As mulheres são mais da metade da população, mas chegamos em empresas que são lideradas por homens brancos de classe média altíssima. A Gana tenta trazer um pouco mais desse espelho. A gente trabalha com metade mulheres e metade homens na liderança. Não é essa visão que tem dentro das marcas e das agências de publicidade hoje.

Desde a criação do coletivo até hoje, qual o maior desafio que vocês enfrentam no mercado? 

O principal desafio é a gente mesmo que se coloca. A Gana se coloca o desafio de ser um parceiro das marcas para a construção delas e não apenas para a questão da diversidade. O que a gente se coloca todo dia é não ser um parceiro apenas para falar sobre diversidade. 

A razão de ser da Gana é trazer a potência preta e periférica para trabalhar para as marcas, para criar, não só para quando o assunto for inclusão. Não é uma agência para falar só de diversidade, mas para falar do Brasil, porque o Brasil é diverso. Diversidade não é uma causa pequena no Brasil, diversidade é o Brasil.

Você passou por diversas agências antes de montar a Gana. Quais são as diferenças, no dia a dia, de estar em uma agência só com profissionais negros?

Muda muito. Primeiro, muda a visão que a gente tem, o relacionamento interpessoal de como a gente consegue ser a gente mesmo, colocar as nossas coisas. Passei muito tempo em grandes agências tentando esconder algumas origens, tentando parecer ser aceito por aquele grupo. Quando estamos num lugar de pessoas 100% iguais a gente, estamos mais à vontade para espelhar as nossas vivências.

Imagina você ser negro e viver em uma estrutura como a publicidade, que já é uma profissão de elite no Brasil, onde você passa no dia a dia situações como ser barrado na catraca do prédio em que você trabalha por acharem que você não trabalha ali.

(Com a Gana) é conseguir estar em um espaço em que você se espelha nas pessoas e elas conseguem se entender, se enxergar no outro, vivenciar esse momento. Estamos vivendo um momento muito feliz desses primeiros passos de vivência interpessoal.

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