Winnie Au/The New York Times
Winnie Au/The New York Times

Trabalhador vê pouca segurança econômica, apesar de escassez de mão de obra

A pandemia supostamente deu vantagem a trabalhadores do setor de serviços, mas muitos têm horas e salários instáveis porque as empresas miram a flexibilidade

Noam Scheiber, The New York Times

09 de fevereiro de 2022 | 05h02

Nos últimos dois meses, Brenda Gracia, que trabalha em uma das filiais do restaurante Chipotle no Queens, em Nova York, tem lutado para trabalhar mais de 20 horas por semana, o que dificulta não mexer em suas economias. Ao conversar com seu gerente, ele prometeu tentar conseguir mais horas de trabalho para ela, mas o problema continuou. Em uma semana recente, o estabelecimento a chamou para trabalhar apenas um turno de 6,25 horas.

“Isso não é suficiente para mim – eles não estão me oferecendo um emprego estável”, disse Brenda, cujo trabalho inclui cortar vegetais e outras tarefas antes de montar os burritos. “Eles não estão me dando o número de horas e dias que eu deveria estar recebendo.”

O número limitado de horas de trabalho de Brenda não é algo raro no Chipotle, que tem muitos funcionários trabalhando em grande parte durante meio período. Um cronograma semanal de sua filial do início de janeiro mostrava pelo menos uma dezena de profissionais com menos de 20 horas e vários com menos de 15 horas.

Com trabalhadores em todo os Estados Unidos pedindo demissão em taxas elevadas e empresas reclamando que não conseguem preencher vagas, talvez se esperasse que os empregadores repensassem sua dependência dos expedientes de meio-período. Enquanto alguns funcionários preferem a flexibilidade, muitos dizem que isso os deixa com poucas horas de trabalho, renda insuficiente ou sem horário fixo.

No entanto, aquele repensar não parece ter acontecido. Dados do governo americano mostram que nas empresas de varejo a quantidade de trabalhadores de meio expediente em 2021 continuou quase a mesma de antes da pandemia, e que aumentou ligeiramente no setor de hospitalidade, como restaurantes e hotéis.

Em uma pesquisa realizada duas vezes por ano por Daniel Schneider, sociólogo da Universidade Harvard, e Kristen Harknett, socióloga da Universidade da Califórnia, em São Francisco, um quarto dos trabalhadores de grandes empresas de varejo e cadeias de restaurantes disseram que estavam escalados para trabalhar 35 horas por semana ou menos e gostariam que esse total fosse maior. Em 2019, eles eram cerca de um terço, mas a mudança foi impulsionada por uma redução no número de trabalhadores que desejam mais horas de expediente, provavelmente devido aos riscos de saúde relacionados à pandemia e aos conflitos entre vida profissional e pessoal, não porque os empregadores estavam oferecendo mais horas de trabalho.

Mesmo que os empregadores se queixem da dificuldade para preencher as vagas, há poucos indícios de que os trabalhadores de serviços estejam conseguindo ganhos significativos de longo prazo. Embora as empresas tenham aumentado os salários, esses aumentos podem ser facilmente prejudicados pela inflação, caso já não tenha acontecido isso. A taxa nacional do total de filiados a sindicatos – que podem obter aumentos salariais para os trabalhadores mesmo na ausência de escassez de mão de obra – atingiu seu nível mais baixo já registrado no ano passado.

E os expedientes imprevisíveis que surgem quando os empregadores ajustam constantemente o quadro de funcionários em resposta à demanda de clientes, algo comum entre aqueles que trabalham meio-período, são quase tão frequentes como eram antes da pandemia. A pesquisa de Schneider e Kristen descobriu que cerca de dois terços dos trabalhadores continuam a receber seus horários de trabalho com menos de duas semanas de antecedência.

“As empresas estão fazendo tudo o que podem para não tornar fixo quaisquer ganhos que sejam difíceis de retirar”, disse Schneider. “A força dos trabalhadores no mercado de trabalho não está, por enquanto, rendendo dividendos duradouros.”

De volta aos anos 1960: terceirização do trabalho

As mudanças que correspondem a trabalhos com salários mais baixos, menos estáveis e geralmente com condições mais precárias remontam aos anos 60 e 70, quando o mercado de trabalho se transformou de duas maneiras importantes. Primeiro, as empresas começaram a direcionar mais trabalho para fora da empresa – dependendo cada vez mais de trabalhadores terceirizados, temporários e de franquias.

Depois, muitas empresas que continuaram a empregar trabalhadores diretamente começaram a contratar profissionais para cargos de meio período em vez de cargos com expediente integral, principalmente no setor de varejo e de hospitalidade.

De acordo com os pesquisadores Chris Tilly, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e Françoise Carré, da Universidade de Massachusetts, em Boston, o incentivo inicial na transição para o trabalho de meio período foi a entrada em massa de mulheres no mercado de trabalho, inclusive de muitas que preferiam cargos assim para poder estar em casa quando os filhos voltassem da escola.

Pouco tempo depois, no entanto, os empregadores viram uma vantagem na contratação de funcionários de meio período e passaram a contratá-los deliberadamente. “De repente, eles tiveram uma ótima ideia”, disse Tilly. “‘Se aumentarmos o número de funcionários de meio período, não precisamos oferecer benefícios e podemos oferecer um salário mais baixo.’”

No final da década de 80, os empregadores começaram a usar softwares de agendamento para prever a demanda dos clientes e contratar funcionários de acordo com ela. Ter uma grande quantidade de trabalhadores de meio período, que poderiam trabalhar mais horas quando os estabelecimentos ficassem movimentados e menos horas quando o ritmo dos negócios diminuísse, ajudou a permitir essa prática, conhecida como agendamento “just-in-time”.

Mas a prática  sujeitou os trabalhadores a horários instáveis que não lhe garantiam uma carga de trabalho constante, atrapalhando suas vidas pessoais, seu sono e até mesmo o desenvolvimento do cérebro de seus filhos. Entretanto, o modelo continuou a se espalhar e a mudança para uma imensa mão de obra de meio período foi amplamente alcançada no varejo em meados dos anos 90.

Um estudo recente encomendado pela Kroger, empresa de varejo americana que opera supermercados e lojas de departamento, descobriu que cerca de 70% dos seus quase 85 mil funcionários na Califórnia, no Colorado, Oregon e no estado de Washington trabalhavam meio período. Uma pesquisa com mais de 10 mil funcionários da Kroger em nome de quatro sindicatos locais pelo Economic Roundtable, um grupo de pesquisa sem fins lucrativos, encontrou indícios generalizados da prática de agendamento just-in-time, com mais da metade dos trabalhadores dizendo que seus horários de trabalho mudavam, no mínimo, a cada semana.

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A Kroger, uma das maiores empregadoras dos EUA, disse em comunicado que muitos de seus funcionários procuram por empregos de meio período devido a sua flexibilidade e pelos benefícios de assistência médica que seus concorrentes não ofereciam, assim como por oportunidades de ascensão social. “Nós fornecemos a centenas de milhares de pessoas o primeiro emprego (pense nos empacotadores, caixas, estoquistas, etc.), segundas chances, emprego na aposentadoria e enquanto estão na faculdade”, dizia o documento.

A empresa também disse que os representantes locais do sindicato United Food and Commercial Workers (UFCW) negociavam e concordavam com as cláusulas relevantes de seus contratos de trabalho há décadas.

Uma porta-voz da rede Chipotle, onde o sindicato local do setor de serviços, o 32BJ, está ajudando os trabalhadores a se organizarem, também disse que gestores e funcionários concordaram mutuamente sobre os horários e que a empresa permitiu que os funcionários pegassem turnos adicionais em outras filiais na cidade de Nova York quando eles estavam disponíveis.

Mas as práticas continuam contestadas. Em meados de janeiro, mais de 8 mil trabalhadores da região de Denver do King Soopers, rede de supermercados da Kroger, entraram em greve, citando a falta de emprego em tempo integral como principal motivo.

Renae Vigil, que trabalha na seção de carnes de um King Soopers em Denver e atua como representante sindical, disse que muitos de seus colegas gostariam de trabalhar em período integral para “não se preocuparem em como pagar as contas, como pagar isso ou aquilo, mas no King isso é como ganhar na loteria.”

As frustrações sugerem uma maneira mais ou menos direta de os empregadores reduzirem a escassez de mão de obra: oferecer mais empregos em tempo integral. Mas Kim Cordova, presidente do UFCW Local 7, que representa os funcionários do King Soopers, disse que empregadores como a Kroger raramente mudam de postura seguindo essa lógica. “Eles nos disseram que acham que o mercado vai dar um jeito nisso sozinho e que a situação é temporária, e eles não querem ficar presos a mudanças permanentes”, disse ela. O sindicato calculou que o King Soopers tinha 2.400 vagas não preenchidas na região de Denver no início deste ano.

Embora a greve tenha terminado no mês passado, depois de a empresa se comprometer a aumentar os salários, contribuir mais com os benefícios de saúde e adicionar pelo menos 500 empregos em tempo integral, a maioria dos trabalhadores do King Soopers provavelmente continuará trabalhando meio período.

A maioria dos profissionais do varejo e de restaurantes, que não têm um sindicato para organizar uma greve e pagá-los enquanto não recebem salário por conta da paralisação, talvez tenha mais dificuldade em conquistar essas mudanças.

Retenção de profissionais em meio à escassez

Susan Lambert, pesquisadora de serviço social da Universidade de Chicago que estuda as práticas de organização de expedientes dos empregadores, disse que ela e um colega entrevistaram recentemente gerentes de lojas em Seattle e Chicago e descobriram que alguns, na verdade, tentaram oferecer horários de trabalho com menos alterações durante a pandemia.

A mudança era motivada por uma combinação de dados, mostrando que buscar expedientes mais humanos não precisam prejudicar a lucratividade, e o desejo de alguns empregadores de reter profissionais em meio à escassez de mão de obra, disse Susan. Mas ela reconheceu que as mudanças aconteceram principalmente em empresas menores. “Não há grandes investimentos na mudança dos principais sistemas”, disse ela.

Dados coletados pelo Departamento de Trabalho dos EUA indicam que a quantidade de empregos de meio período nos setores de varejo e de hospitalidade continua muito acima do que era no início da década de 70.

O mesmo parece poder ser dito em relação à dependência das empresas de terceirizados e temporários, o que, segundo pesquisadores, ajudou a enfraquecer o crescimento salarial nas últimas décadas.

Os empregadores que terceirizam o trabalho ou contratam temporários não parecem ter repensado esses sistemas devido à pandemia, disse Susan Houseman, economista do trabalho do Instituto para Pesquisa de Emprego W. E. Upjohn. Ela chamou a atenção para o retorno do setor de serviço temporário para perto do nível que estava antes da pandemia e um aumento do trabalho autônomo durante os últimos dois anos.

As empresas que oferecem serviços por aplicativos e recorrem a profissionais terceirizados autônomos dizem que houve um aumento no número de trabalhadores nos últimos dois anos. De acordo com a Uber, o número de motoristas e entregadores trabalhando para ela em um determinado mês cresceu cerca de 70% de janeiro a outubro do ano passado, ou aproximadamente 640 mil.

A DoorDash disse que o número de pessoas trabalhando por meio de seu aplicativo de entrega no último trimestre mais que dobrou durante a pandemia, para mais de 3 milhões. E a Instacart disse que o número de ajudantes de seu serviço – que compram e entregam produtos de mercadinhos – aumentou mais de 2,5 vezes, para mais de 500 mil.

As empresas dizem que os trabalhadores que usam seus aplicativos valorizam a flexibilidade desse tipo de emprego, que ajuda a manter financeiramente as pessoas durante os períodos ociosos ou em locais onde encontrar trabalho pode ser difícil, como em comunidades rurais. Mas esse tipo de emprego costuma não oferecer uma variedade de benefícios e proteções, como um salário mínimo, e podem reforçar a insegurança econômica.

Para Schneider, a insegurança que os trabalhadores do setor de serviços continuam a enfrentar durante a pandemia, supostamente um período de vantagem fora do comum, mostra como a área é resistente a mudanças.

“Acho que isso revela como os empregadores estão apegados a esse sistema just-in-time”, disse ele. “Isso é algo que é parte importante de seus modelos de negócios.”

/ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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