Autorretrato
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Transgênero leva 2 anos a mais para entrar no mercado de tecnologia

Estudo da Revelo compara contratação de cisgêneros com a mesma capacitação que transgêneros; startup lança iniciativa de carreira para grupo nesta segunda, 28, Dia do Orgulho LGBT

Leon Ferrari, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 05h03

Enquanto cisgêneros (pessoas que se identificam com o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento) levam em média 30 dias para conseguir uma vaga de emprego na área da tecnologia, transgêneros capacitados nas mesmas especialidades podem demorar até dois anos para ingressarem no mercado. O levantamento é da startup de recrutamento Revelo, que também mostra que o setor de tecnologia está aquecido desde o início da pandemia: o volume de processos seletivos na área cresceu 130% no período.

“De um lado, há uma demanda de profissionais da área de tecnologia que cresce e, do outro, a falta de oportunidade para pessoas trans, marcado pela transfobia”, diz Juliana Carneiro, diretora de Marketing e Comunidades da Revelo. A pesquisa foi feita entre maio e junho deste ano, período em que a empresa ouviu 100 pessoas transgêneros e travestis de São Paulo. As carreiras consideradas foram: desenvolvimento de software, UX/Design, business intelligence (BI), engenharia de dados, marketing, negócios, customer success (CS), produto, vendas e business.

Fernanda Nascimento, doutora em ciências humanas na área de estudos de gênero, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), concorda que a transfobia explica a disparidade. “A sociedade espera e pressupõe que todas as pessoas sejam cisgêneras, e quem está em desconformidade com essa norma é punido de diversas formas”, declara, ao explicar que uma das formas de punição é a exclusão do mercado de trabalho.

Para quem consegue uma vaga no mercado, a luta para romper o preconceito ainda continua. Nem mesmo o diploma em redes de computadores e a pós-graduação em governança de tecnologia da informação (TI) puderam proteger Noah Scheffel, de 34 anos, do preconceito quando, em 2019, decidiu fazer sua transição de gênero. Na época, ele coordenava havia 10 anos um setor de tecnologia na empresa em que trabalhava.

A partir do momento em que mostrou quem de fato era aos colegas de trabalho, passou a sofrer uma série de represálias: algumas pessoas se recusavam a falar com ele ou a chamá-lo pelo seu nome social. Além disso, a empresa não contava com um banheiro inclusivo. “Eu passava oito horas sem ir ao banheiro, esperava a hora que chegasse em casa”, conta ele, que criou uma empresa para capacitar colegas de forma gratuita (leia mais abaixo).

Para coordenar sua equipe, Scheffel precisava se comunicar com outros setores da empresa. Preterido por alguns colegas, seu trabalho tornou-se cada vez mais complicado, até o momento em que percebeu que seu desempenho havia decaído. Ao constatar o fato, desabou: “Eu sentia que tudo seria melhor sem minha existência.” Essa série de preconceitos fizeram com que ele desenvolvesse ansiedade e depressão, precisando passar por uma internação psiquiátrica.

Na visão de Juliana Carneiro, não foi só Scheffel que sofreu com a transfobia encontrada no local de trabalho, mas também a empresa em questão. “Um ambiente de trabalho diverso favorece a criatividade e a motivação dos funcionários. As equipes de perfil plural aumentam o potencial competitivo de uma empresa”, explica. 

Isso se dá, conforme um estudo da consultoria McKinsey sobre o estado da diversidade corporativa na América Latina, porque em ambientes de trabalho mais inclusivos os funcionários se sentem mais felizes e motivados. Também podem mostrar suas ideias de modo mais livre e isso leva à inovação.

0,2% de transgêneros no ensino superior

“A realidade no Brasil é bem pior”, declara Scheffel, que está ciente de que faz parte do pequeno número de pessoas transgênero que possuem diploma de ensino superior. Conforme a V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos(as) Graduandos (as) das IFES, de 2018, da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), apenas 0,2% do total de estudantes das instituições federais de ensino superior é composto por transgêneros.

Rihanna Borges, de 27 anos, é um exemplo de evasão escolar causada pela transfobia. Após sofrer agressões e perseguições no ambiente escolar, deixou os estudos aos 12 anos. Retomou o ensino apenas aos 20 anos, quando saiu de Ilhéus, na Bahia, em direção à capital paulista. Hoje, ela tem o ensino médio completo. Em São Paulo, ela também pôde realizar alguns cursos de especialização que lhe garantiram postos de trabalho formal.

Se com formação superior e cursos de capacitação, pessoas transexuais têm muitas dificuldades para acessar ao mercado de trabalho, sem isso fica ainda mais difícil. Esse cenário leva ao fato de que, conforme o Dossiê Assassinatos e Violência contra Travestis e Transexuais brasileiras, da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% da população transexual brasileira tem a prostituição como única fonte de renda, enquanto outros 4% se encontram na informalidade.

Programa de mentoria da Revelo 

Para reduzir essas desigualdades, a Revelo decidiu lançar nesta segunda-feira, 28, no Dia do Orgulho LGBTQIA+, uma iniciativa que vai oferecer gratuitamente cursos, equipamentos e mentoria de carreira para transgêneros e travestis em situação de vulnerabilidade de casas de acolhimento. O projeto é permanente e pretende alcançar ao menos 200 pessoas até o final de 2021.

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“Queremos transformar as vidas de todos os envolvidos, e acreditamos que o caminho é por meio do trabalho e da educação”, explica Lucas Mendes, cofundador da startup. Mesmo após formados, os estudantes receberão destaque da Revelo, a fim de facilitar a contratação deles pelas empresas clientes. O projeto faz parte do Revelo Up, programa de aceleração de carreira da startup, com capacitações certificadas das escolas Iron Hack, Tera, Mergo e Impacta. Além das aulas, os transexuais atendidos contarão com a tutoria de funcionários da Revelo para tirarem suas dúvidas. 

Ao mesmo tempo, a Revelo também financiará o processo de captação de computadores e tablets que serão distribuídos entre as instituições beneficiadas, além da instalação de internet banda larga. Os equipamentos captados por meio de doação serão avaliados e, se necessário, consertados pela Infopreta, assistência técnica formada por mulheres pretas.

Quem quiser doar eletrônicos precisa se cadastrar neste site. Neste primeiro momento, serão captados até 50 notebooks e tablets em toda a Região Metropolitana de São Paulo. Inicialmente, o programa atenderá aos residentes da Casa Florescer e da Casa 1, em São Paulo. Outras casas de acolhimento interessadas e instituições de ensino focadas em capacitação na área de tecnologia podem entrar em contato para colaborar por meio do site da Revelo.

Segundo Alberto da Silva, gerente e fundador da Casa Florescer, centro de acolhida para mulheres transexuais, a iniciativa irá ajudá-los na missão de “fazer as meninas sonharem." Entre elas está Ryana, que mora na casa de acolhimento há cinco meses após ficar desempregada na pandemia. “Sou muito grata à Casa Florescer, mas quero sair, sair empregada.”

Programa educaTRANSforma

Após sentir na pele a transfobia no mercado de tecnologia, Noah Scheffel decidiu fundar o educaTRANSforma, em 2019. O empreendimento busca capacitar de forma gratuita pessoas transgêneros, intersexo (que biologicamente desenvolve tanto características sexuais masculinas quanto femininas) e não-binárias (que não restringem seu gênero ao binarismo de ser homem ou mulher).

Em 2020, mesmo em regime de trabalho remoto, o empreendimento conseguiu formar 150 estudantes em tecnologia da informação. Neste ano, o objetivo é formar 400. De acordo com o educaTRANSforma, em média 82% dos alunos que passam por ali são absorvidos pelo mercado.

Para além da capacitação, o educaTRANSforma também presta consultorias de transformação organizacional em pautas de diversidade e inclusão. Nesse sentido, a ideia de Scheffel é a de que os transgêneros não apenas ingressem no mercado de trabalho, mas também sejam acolhidos.

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