Trava contra furto de estepes tira empresa da falência

Empresário paulistano desenvolve produto inovador para dificultar o trabalho dos ladrões e volta a lucrar  

Naiana Oscar, de O Estado de S. Paulo,

21 de fevereiro de 2011 | 23h00

Com dívidas que somavam R$ 2,5 milhões na praça, José Tadeu Nogueira já se considerava um empresário "tecnicamente" quebrado. Dono de uma distribuidora de autopeças desde o fim da década de 80, ele viu o pequeno negócio ruir em 2005, quando perdeu seu principal fornecedor. Na mesma época em que tentava administrar os problemas da empresa, teve o estepe do carro roubado por três vezes. Parecia uma maré de azar, mas Nogueira conseguiu enxergar ali uma oportunidade.

Com formação em engenharia eletrônica, o empresário começou a desenvolver sozinho um dispositivo que bloqueia o estepe do carro e impede que a roda reserva seja roubada. Passou um ano e meio trabalhando nesse projeto com oficiais de Justiça batendo à sua porta para cobrar as pendências do antigo negócio. "Tive a serenidade de perceber que eu sou eu e a empresa é a empresa", lembra. "Se misturasse as duas coisas entraria em pânico e não conseguiria ter saído do lugar."

De cabeça fria, Nogueira criou uma peça que fica presa no lugar de um dos parafusos do estepe e que só é removida com uma "chave segredo", que tem 150 combinações possíveis. Certo de que a demanda pelo produto seria crescente, o empresário renegociou a dívida, fez novos empréstimos, investiu numa pequena fábrica e começou a produzir sua invenção. Com ferramentas e máquinas, ele gastou R$ 400 mil.

Em 2007, quando começou a vender suas peças para concessionárias e oficinas mecânicas, a JTN Indústria fabricava uma dúzia de bloqueadores de estepe por mês. Agora, está na marca de 4 mil. "Parece que os ladrões estão roubando mais estepe do que rádio ultimamente", diz. "Eles levam a roda principalmente em estacionamentos, sem que o motorista perceba porque não tem o hábito de checar esse item antes de pegar o carro." Não há estatísticas oficiais sobre o roubo de estepes porque esse tipo de crime é registrado pela polícia, genericamente, como furto.

Virada. Nogueira conseguiu virar completamente o jogo quando, um ano e meio atrás, fechou negócio com a Suzuki Veículos no Brasil. A montadora encomenda 300 peças por mês e oferece aos clientes como acessório. Antes de ganhar o contrato, o empresário da capital paulista teve de demonstrar aos japoneses que conseguia desbloquear as travas da concorrência com facilidade. "Meu gerente industrial tirou a chave que eles usavam até então nos carros da Suzuki em 12 segundos", lembra.

Não satisfeito, o gerente de planejamento da Suzuki no Brasil, Ricardo Takeo, quis submeter o produto a um novo teste. Instalou o bloqueador desenvolvido por Nogueira em seu carro particular e estacionou o veículo num endereço da Vila Mariana onde seu estepe já tinha sido roubado por duas vezes seguidas. "Os ladrões de lá são muito bons e fazem o serviço com o carro estacionado por apenas 15 minutos", lembra Takeo. "Mas o dispositivo passou no teste. "

Segundo o gerente de planejamento da montadora, as travas antifurto que já estavam à venda no mercado são feitas fora do País e não atendem à realidade brasileira. "Os ladrões daqui são muito mais criativos", diz. "O mérito da invenção da JTN é ser um produto ‘made in Brasil’, à prova de brasileiros." Agora, Nogueira tenta negociar também com a Fiat. Se conseguir, deve quadruplicar o faturamento.

 

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