Simon Maselli/Creative Commons
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Você pode ser mais inteligente?

Perda da capacidade cognitiva é característica universal do envelhecimento, mas exercitar o cérebro pode adiar alguns de seus efeitos

Richard A. Friedman, The New York Times

26 de outubro de 2015 | 21h05

Você pode aumentar sua massa muscular ingerindo ferro e melhorar sua resistência  com exercícios aeróbicos.  Poderá ser mais inteligente se exercitando - ou  alterando - o seu cérebro?

Esta não é uma pergunta frívola considerando que o declínio cognitivo é uma característica quase universal do envelhecimento. A partir dos 55 anos nosso hipocampo, região do cérebro crucial para a memória, encolhe entre 1% e 2% a cada ano, sem mencionar o fato de que uma a cada nove pessoas com mais de 65 anos é acometida pela doença de Alzheimer. O número de afetados deve crescer rapidamente à medida que a geração dos anos 50 envelhece. 

Diante dessas estatísticas nefastas, não é de admirar que os americanos constituem um mercado cativo para tudo, desde supostas drogas e suplementos até exercícios para o cérebro, que prometem aumentar o funcionamento normal da mente ou conter o seu declínio.

A própria noção de melhora cognitiva é sedutora e plausível. Afinal, o cérebro é capaz de mudar e de aprender em todas as idades. Nosso cérebro tem uma neuroplasticidade formidável; ou seja, pode ser remodelado e mudar por si mesmo reagindo a várias experiências e lesões.  Então, pode ele ser exercitado para aumentar sua capacidade cognitiva?

A indústria multibilionária de exercícios do cérebro certamente pensa assim e afirma que você pode aumentar sua memória, sua atenção e raciocínio por meio de vários jogos mentais. Em outras palavras, use o seu cérebro da maneira correta e ficará mais inteligente.

Há alguns anos, em um estudo conjunto realizado pela BBC e neurocientistas da Universidade de Cambridge, o treinamento do cérebro foi  colocado à prova. A pergunta era esta: a ginástica cerebral realmente o torna mais inteligente, ou apenas o deixa melhor para realizar uma tarefa específica? 

Por exemplo, se fizer o quebra-cabeça matemático KenKen isto obviamente o tornará melhor em KenKen. Mas o efeito será transmitido para uma outra tarefa que você não praticou, como palavras cruzadas?

Os pesquisadores recrutaram 11.430 telespectadores do programa de ciências online da BBC chamado "Bang Goes the Theory", para seis semanas de treinamento do cérebro, com sessões de dez minutos três vezes por semana. Os indivíduos selecionados foram distribuídos aleatoriamente em três grupos: um grupo experimental dedicado a jogos de raciocínio, com testes de capacidade na solução de problemas; em um segundo grupo a ênfase foi nos testes de atenção, memória de curto prazo e habilidades matemáticas, comuns em jogos de treinamento do cérebro disponíveis no comércio; e um grupo de controle desempenhou o equivalente às buscas no Google respondendo a perguntas teste obscuras.

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O exercício contínuo do cérebro ajudou os indivíduos mais idosos a manter a melhora do raciocínio verbal
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Todos os participantes se submeteram a um teste cognitivo padrão, uma espécie de teste de QI modificado, no início e no final do estudo. Embora melhoras tenham sido observadas em cada tarefa cognitiva praticada, não houve evidências de que exercitar o cérebro torna as pessoas mais inteligentes. As notas no teste padrão, para o qual os participantes não puderam se exercitar, não aumentaram significativamente no final do estudo.

Entretanto um raio de esperança surgiu no caso dos indivíduos com idade superior a 60 anos. Ao contrário de participantes mais jovens, os mais idosos mostraram uma melhora significativa em termos de raciocínio verbal, um dos componentes do teste padrão, depois de seis semanas de exercício cerebral, de modo que os participantes mais idosos foram acompanhados em um estudo subsequente por mais 12 meses inteiros.

Os resultados deste segundo estudo, que em breve será publicado, mostraram que o exercício contínuo do cérebro ajudou os indivíduos mais idosos a manter a melhora do raciocínio verbal observada no estudo anterior. Tratam-se de boas notícias porque isso indica que exercitar o cérebro pode adiar alguns dos efeitos do envelhecimento.

Naturalmente os céticos argumentarão que as pessoas mais idosas já estão em uma trajetória de perda da faculdade cognitiva, de maneira que a melhora por meio de jogos cerebrais não implica um aprimoramento, mas uma redução no ritmo do declínio da perspicácia mental. 

Existem também maneiras fáceis e poderosas para reforçar o aprendizado em jovens. Por exemplo, há evidências interessantes de que a atitude que os jovens têm com relação à sua própria inteligência - e ao que seus professores pensam - pode ter um grande impacto sobre o quanto eles aprendem. Carol Dweck, professora de psicologia na Stanford University, mostrou que as crianças que acreditam ter uma inteligência maleável têm um desempenho melhor na escola e são mais motivadas a aprender do que aquelas que acreditam que sua inteligência é fixa e imutável.

Em um experimento, a Dra. Dweck e seus colegas deram a um grupo de alunos da sétima série com baixo aproveitamento um seminário sobre como o cérebro funciona. Os estudantes foram distribuídos em dois grupos. Ao grupo experimental foi explicado que o aprendizado muda o cérebro e que os alunos estão encarregados deste processo. No caso do grupo de controle, os estudantes tiveram uma lição sobre memória, mas não foram instruídos a pensar em termos de inteligência maleável.

No final de oito semanas, os alunos incentivados a ver sua inteligência como passível de mudança tiveram um desempenho significativamente melhor (85%) do que os participantes do grupo de controle (54%) em uma prova que envolveu o material que lhes foi ensinado no seminário.

Essas conclusões parecem ter profundas implicações para o ensino, porque sugerem que uma intervenção relativamente simples - os professores incentivando seus alunos a refletirem sobre sua própria capacidade cognitiva como uma qualidade que eles podem aprimorar  - tem um efeito poderoso: reforça o aprendizado e a motivação. (O cérebro adolescente é mais maleável do que o do adulto. Portanto, saber se as conclusões da Dra. Dweck podem ser aproveitadas para o aprendizado adulto é uma questão em aberto e fascinante).

Talvez não seja o mesmo que aumentar uma inteligência inata, mas ajudar os jovens a atingirem seu potencial intelectual é algo valioso e aparentemente não tão difícil de conseguir. De maneira que podemos claramente melhorar o aprendizado, mesmo se a ginástica mental não nos torna mais inteligentes.

Não se preocupe: muita coisa mais ainda  pode ser feita em pró do seu cérebro. Na verdade o exercício físico também melhora a função cognitiva e promove o crescimento e a criação de neurônios.Por exemplo: cobaias mantidas correndo em uma roda por 45 dias tinham mais neurônios em seu hipocampo - região do cérebro crítica para a formação da memória - do que as sedentárias. 

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Ajudar jovens a atingirem seu potencial intelectual é valioso e não tão difícil de conseguir
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No caso dos humanos, em um estudo recente foi selecionado aleatoriamente um grupo de pessoas mais idosas com alguma deficiência cognitiva que, em seguida, foi separado em três subgrupos: um envolvido em treinar sua resistência, outro que realizou exercícios aeróbicos e um terceiro grupo de controle concentrado em exercícios para tonificar os músculos e o equilíbrio. A seleção aleatória garantiu que quaisquer diferenças observadas entre os três grupos fosse resultado do tipo de exercício e não de quaisquer outras características dos indivíduos envolvidos no estudo. 

Os pesquisadores concluíram que, embora o grupo que treinou a resistência e o que realizou exercícios aeróbicos tenham melhorado igualmente a memória espacial, somente as mulheres que realizaram exercício aeróbico melhoraram sua memória verbal, sugerindo que tipos diferentes de exercício podem ter benefícios cognitivos especificamente diferentes.

Além disto, em um novo estudo, mulheres que realizaram exercícios de peso duas vezes por semana durante um ano não registraram uma atrofia cerebral em comparação com aquelas que se exercitaram apenas uma vez por semana ou praticaram exercícios de peso, embora o significado cognitivo deste efeito ainda não esteja claro.

Como pode o exercício produzir esses efeitos?  O fato interessante é que o exercício no caso de humanos e de animais aumenta o nível de uma proteína chamada Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro, ou BDNF (na sigla em inglês), no sangue e no cérebro. O BDNF promove o crescimento e a formação de novos neurônios e pode ser responsável, em parte, por um notável efeito do exercício sobre o cérebro: um aumento no tamanho do hipocampo que está ligado à melhora da memória.

Inversamente, experiências adversas, como a depressão, podem reduzir os níveis do BDNF e estão associadas a uma redução do hipocampo, fenômeno que ajuda a explicar algumas deficiências cognitivas que são marcas distintivas da depressão. Além de fazer as pessoas se sentirem melhor, os antidepressivos conseguem bloquear a queda do BNDF provocada pela depressão, de modo que essas drogas, em um certo sentido, são neuroprotetoras.

Sei que exercício é trabalho, de maneira que você sem dúvida gostaria de querer saber se existe uma pílula inteligente, tipo Adderall ou Ritalin, que resolvesse o problema. Bem, não há dúvida de que esses estimulantes aumentam o foco e fazem com que as pessoas vejam  o mundo como um lugar mais interessante, ao liberarem dopamina em circuitos chave do cérebro. Mas quanto aos seus efeitos sobre a memória e o aprendizado, os dados são ambivalentes.

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Há uma coisa que não exige receita e parece ajudar a preservar a boa forma cognitiva: outras pessoas
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O único benefício cognitivo consistente dos estimulantes é o seu efeito sobre a consolidação da memória de longo prazo, o que significa que eles fortalecem a capacidade de o indivíduo lembrar de informações absorvidas anteriormente - um efeito que pode propiciar alguma vantagem no mundo real.

Algumas pessoas se preocupam que os estimulantes possam, de algum modo, aumentar a eficiência em detrimento da criatividade, mas a pesquisa sugere o contrário. A preocupação reflete uma noção comum de criatividade, ou seja, que você necessita estar um pouco desconcentrado para pensar de uma maneira nova, sintética, e que os estimulantes impedirão este processo mental. 

Por exemplo, um estudo comparou dois grupos de jovens saudáveis aos quais foram ministrados aleatoriamente o Adderall ou um placebo. Os dois grupos foram submetidos a quatro testes diferentes de pensamento criativo. O Adderal aumentou o desempenho em um dos testes, o teste de imagem incorporada, que exige que os participantes reagrupem uma imagem inteira a partir de uma fragmentada. 

Mas estes são efeitos sutis e não há nenhuma evidência de que qualquer droga ou suplemento, ou bebidas especiais,  prescritos aumentarão o seu QI. Mas há uma coisa que não exige receita e parece ajudar a preservar a boa forma cognitiva: outras pessoas.

Há uma forte evidência epidemiológica de que as pessoas com uma ampla rede social e mais engajadas têm um nível reduzido de declínio cognitivo à medida que envelhecem. Lisa F. Berkman, professora e epidemiologista social na Harvard School of Public Health, e outros colegas, examinaram dados de um estudo do Health and Retirement  que acompanhou uma amostra representativa de quase 17.000 indivíduos com idade superior a 50 anos de 1998 a 2004. Eles foram avaliados  com um teste simples para lembrar palavras no início e depois em intervalos de dois anos, e a integração social foi medida pelo contato com a família, amigos e outras atividades sociais.

Os resultados mostraram que as pessoas com o maior nível de integração social tinham menos da metade do declínio da sua função cognitiva dos participantes menos socialmente ativos. Além disto, os efeitos protetores cognitivos da socialização eram mais fortes entre os indivíduos com menos de 12 anos de estudo.

Naturalmente é possível que a própria memória mais fraca provoque o isolamento social, de modo que os pesquisadores efetuaram uma segunda análise dos dados, retirando os participantes com a pior função cognitiva básica.  Os resultados continuaram inalterados.

No final, você ainda não pode ultrapassar sua inteligência inata. Mas isto parece menos importante do que o fato de que  pode fazer muita coisa para alcançar seu potencial cognitivo e mantê-lo. Esqueça as drogas e suplementos inteligentes: coloque sua bermuda e pratique exercícios. Se tem 60 anos ou mais, pense em exercícios para o cérebro. E faça isto com seus amigos./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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