Empresas de recuperação de crédito usam tecnologia com jovens endividados

SMS e conversas em chats são novos meios de negociar dívida com este público

Yolanda Fordelone, do Economia & Negócios,

27 de agosto de 2010 | 12h55

O aquecimento do mercado e a facilidade de crédito fizeram um novo personagem ganhar destaque no mercado de empréstimos e financiamentos: o jovem endividado. Os cartões de crédito, dizem especialistas, são os maiores vilões dos marinheiros de primeira viagem, que sem terem tido nenhuma experiência com pagamentos a prazo, acabam se descontrolando com as dívidas.

Empresas especializadas em recuperação de crédito, no entanto, já conseguiram encontrar um meio de cobrança que tem gerado bons retornos. Além das tradicionais cartas de cobrança e telefonemas, estas empresas têm adotado estratégias mais tecnológicas, como uso de SMS e chats para negociar as dívidas. "Todo mundo hoje em dia tem um celular e o que percebemos é que entre os jovens esse meio de comunicação é mais dinâmico, gera maior retorno do que no público em geral", comenta o sócio do Grupo Cercred, Leonardo Coimbra.

Coimbra conta que 90% da recuperação de crédito ainda se dá pelo meio tradicional. Mas nos 10% restantes, as empresas têm de usar estratégias mais criativas. No caso do SMS entre os jovens, ao ver a mensagem de texto no celular, boa parte retorna a ligação. "Enquanto no público em geral temos retorno de 4%, nos jovens esse número é de 8%", diz. Veja ao lado um exemplo de mensagem que é mandada para este público.

A intenção de todo consumidor é pagar as suas dívidas, mas especialistas acreditam que até por serem iniciantes no mercado de crédito, os jovens muitas vezes não têm o hábito de se programar para pagar todo mês as contas. Às vezes, por uma questão de esquecimento, acabam não acertando o compromisso. Por isso, a mensagem SMS gera bom retorno, já que muitas vezes funciona como um lembrete. "A partir de mais ou menos 20 dias que o devedor não paga a conta mandamos um SMS, para lembrá-lo", diz Coimbra.

A TeleCheque, empresa especializada em verificação de crédito em compras com cheques, um meio de cobrança que também é utilizado é o chat. "Isso tem muito a ver com a inclusão digital. O jovem que está interessado em negociar sua dívida não precisa nos ligar ou marcar uma reunião. Entra na internet e conversa com um funcionário pelo chat", explica o vice-presidente da TeleCheque, José Antônio Praxedes Neto.

Outra maneira adotada para tentar negociar a dívida é organizando eventos em hotéis periodicamente. Na Cercred, quando o evento é sobre dívidas com veículos, 18% do público que comparece é jovem. Em outros créditos - financiamento de roupas, bicicletas, etc - a participação é de 42%.

Cerca de 1% a 2% do público não é encontrado em nenhum destes meios. Então, as empresas vão a casa da pessoa com negociadores profissionais. "Em geral dá certo porque mandamos outro jovem. Então o consumidor se sente próximo", afirma Coimbra.

O jovem endividado

Segundo uma pesquisa da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), consumidores endividados com idades de até 20 anos correspondiam a 4% do público total endividado em março de 2009, valor que subiu para 8% em março deste ano. "A recessão técnica que o mundo viveu absorveu muitos jovens no mercado de trabalho. Não é pela idade e sim por ser a primeira experiência com um meio de pagamento a prazo que muitos jovens acabam se endividando", diz o economista da ACSP, Emílio Alfieri, ao lembrar que a classe de renda baixa, que nos últimos anos também teve o primeiro acesso ao crédito, também sofreu aumento do número de endividados.

Se o jovem possui somente um cartão de crédito não há problema. O banco lhe dá exatamente o limite de crédito que ele conseguirá quitar. "A questão é que ele tem acesso a vários meios de pagamento. Ele não possui somente o cartão do banco X, mas também do Y e do Z. Ele alavanca a sua capacidade de crédito", diz Praxedes Neto.

O jovem endividado, contam os especialistas, é justamente o consumidor que possui diversos cartões, cheques e financiamentos. A dívida, no entanto, geralmente envolve valores menores. Já que é a partir de 25 anos que normalmente o consumidor passa a fazer financiamentos de imóveis e automóveis.

Entre as causas de inadimplência, conta Alfieri, a mais comum é o desemprego, 38% dos pesquisados. "O descontrole do gasto (14%), que mostra justamente a falta de experiência em lidar com o crédito, é a segunda causa", diz o economista da ACSP.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.