André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Em meio à recessão, BC decide manter taxa de juros em 14,25% ao ano

Autoridade monetária encerrou o ciclo da alta da Selic, iniciado há um ano e repetiu o comunicado, onde cita a necessidade de convergir a inflação para o centro de meta, de 4,5%

João Villaverde, Célia Froufe, O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2015 | 20h24

Atualizado às 22h32

BRASÍLIA - O Banco Central decidiu nesta quarta-feira concluir o longo ciclo de elevação da taxa básica de juros, iniciado há mais de dois anos, com sete altas seguidas. O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic no patamar de 14,25% ao ano - ainda assim, o mais elevado nível desde agosto de 2006. O movimento era esperado por analistas do mercado depois que o PIB do segundo trimestre foi divulgado na semana passada, revelando uma recessão ainda mais grave do que a estimada pelo governo e pelo próprio setor privado (Confira especial sobre a crise no País). 

Em decisão unânime, o Copom repetiu o comunicado da última reunião, no fim de julho, quando a instituição tinha decidido pela elevação da Selic em 0,5 ponto porcentual. O Copom afirmou nesta quarta-feira entender que a manutenção da Selic a 14,25% ao ano “por período suficientemente prolongado” é necessária “para a convergência da inflação para a meta no final de 2016”.

A decisão do BC ocorreu no mesmo dia em que o dólar fechou cotado a R$ 3,753, o maior patamar em 12 anos. Com a desvalorização do real, os bens importados sofrem aumentos de preços e, com isso, pressionam a inflação. Apesar disso, o BC sinalizou, com a decisão, que o trabalho está concluído e que a inflação oficial, medida pelo IPCA, deve chegar ao centro da meta, de 4,5%, no fim de 2016.

Não é essa a opinião da equipe econômica, no entanto. Na proposta orçamentária de 2016, enviada pelo governo ao Congresso na segunda-feira, a projeção de alta do IPCA é de 9,25% neste ano e de 5,4% no ano que vem. As duas projeções trazem dor de cabeça para Alexandre Tombini, presidente do BC. Neste ano, o IPCA vai romper o teto da meta de inflação pela primeira vez desde 2003, o que exigirá uma carta de Tombini para a presidente Dilma Rousseff explicitando as razões para esse descumprimento. 

Ao mesmo tempo, caso a projeção do governo para 2016 se confirme, será o sétimo ano consecutivo de inflação acima do centro da meta. Tombini, que assumiu o comando do BC em janeiro de 2011, nunca conseguiu ver o IPCA chegar a 4,5% ao final de um ano. A projeção orçamentária do governo, fechada pelos ministérios da Fazenda e do Planejamento, comandados por Joaquim Levy e Nelson Barbosa, respectivamente, aponta que o IPCA somente chegará a 4,5% no fim de 2017.

Apoio. O Estado apurou que a decisão foi bem recebida pelo Palácio do Planalto. A avaliação da presidente Dilma, segundo um auxiliar próximo, é que novas elevações dos juros produziriam pouco efeito sobre a taxa de câmbio e, consequentemente, sobre o ritmo da inflação. Além disso, a pressão produzida pelos juros nas contas públicas não é desprezível. O gasto do governo com os juros da dívida pública saltou de cerca de 4,2% do PIB em 2013 para quase 8% do PIB no momento. 

A avaliação do economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, porém, é que será pior para a atividade econômica manter a Selic inalterada do que aumentar os juros agora e cortar no ano que vem. “Parece uma boa notícia, porque o Copom não subiu a taxa de juros agora. Mas, levando em conta que o BC vai deixá-la elevada por mais tempo, é pior”, disse o economista, defendendo que um aumento de 0,25 ponto porcentual da Selic nesta quarta-feira teria sido “suficiente” para sinalizar ao mercado a rigidez no combate à inflação. 

Para Flávio Serrano, economista sênior do Besi Brasil, ao manter a Selic estável em 14,25% ao ano e repetir o comunicado da reunião anterior, o Copom “parece entender que o aperto promovido até agora ainda é capaz de acomodar a recente piora do balanço de riscos para a inflação”. Segundo ele, o BC pode voltar a agir se o câmbio continuar subindo ou permanecer em patamares tão elevados. “Se o dólar continuar subindo, pode, de fato, demandar uma reação da política monetária”, disse. / COLABORARAM IGOR GADELHA E MÁRCIO RODRIGUES

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