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Esperanças e temores

Fragilidade financeira em emergentes, como Brasil, pode afastar investidores

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Barry Eichengreen*

03 Janeiro 2016 | 03h00

Se a primeira fase da crise global afetou os Estados Unidos e a segunda infectou a Europa, o terceiro estágio, que eclodiu com toda a força em 2014-15, concentrou-se nos mercados emergentes. O Fundo Monetário Internacional, em sua edição de outubro de 2015 de World Economic Outlook, imagina que 2016 será melhor agora, uma vez que a crise encerrou seu ciclo. Não só a recuperação econômica ganhará impulso nos EUA e na Europa, como a situação nos mercados emergentes se estabilizará, enquanto a China realiza sua transição para um crescimento mais lento e as economias brasileira e russa param de encolher.

As previsões do FMI costumam ser excessivamente otimistas, portanto vale a pena refletir por que isto poderia voltar a ocorrer em 2016. A começar pela China. Mesmo que a economia chinesa cresça 6,4%, conforme se espera, isso não será bom para os outros países. Com a indústria mal das pernas, o crescimento chinês será impulsionado em grande parte pelo setor de serviços, que utiliza pouca energia e matérias-primas e mercadorias importadas.

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Há também uma hipótese mais sombria, em que a China poderia desacelerar mais rapidamente e as autoridades responderiam desvalorizando o yuan mais 10% ou 20%. Agora que o FMI concordou em incluir o yuan na cesta de direitos especiais de saque, nada mais poderá detê-las. Porém, uma megadesvalorização chinesa afetaria gravemente a competitividade das exportações de outras economias emergentes.

Independentemente do que acontecer na China, a previsão do FMI, em outubro, de que a economia brasileira encolheria apenas 1% em 2016 deixou totalmente de ser algo plausível em razão dos acontecimentos recentes. O País está mergulhado numa série de escândalos e numa profunda crise política. É possível que o Banco Central brasileiro disponha das reservas em moedas estrangeiras para evitar um colapso da moeda, mas o governo não tem a vontade política de implementar um programa de ajustes fiscais e estruturais coordenados, como mostra claramente a recente renúncia do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A confiança da sociedade continua baixa, enquanto a inflação chega aos 10%. Juros altos, que freiam ainda mais o crescimento, são o único instrumento disponível para sanar o problema. Tudo isto torna um declínio adicional de 5% do PIB brasileiro, em 2016, mais provável do que o declínio irreal de 1% imaginado pelo FMI.

A instituição acredita que a economia russa sofrerá uma contração apenas marginal em 2016, e que a Turquia crescerá 3%. Mas se o FMI está superestimando o crescimento em outras economias emergentes, também superestima os preços do petróleo, que são fundamentais para as perspectivas da Rússia. E a Rússia, não devemos esquecer, é a segunda maior parceira comercial da Turquia. Portanto, as sanções de Moscou contra Ancara, impostas em reação à derrubada de um caça russo que violara o espaço aéreo turco, não deixam prever nada de muito positivo para nenhuma das duas economias, assim como acontece com o envolvimento de ambos os países no conflito sírio que não para de se alastrar.

Portanto, se o FMI imagina que o crescimento nos mercados emergentes acelerará em meio ponto porcentual em 2016, de 4% para 4,5%, há um cenário igualmente pouco plausível em que ele desacelerará para 3,5% ou mesmo abaixo deste patamar.

Desaceleração. Ainda existe a possibilidade de a desaceleração do crescimento atingir os EUA e a Europa – e em qual intensidade. Os efeitos diretos não parecem suficientes para prejudicar um crescimento econômico mais sólido nas economias avançadas. Mesmo que as importações de mercados emergentes cresçam apenas 3,5%, e não 4,5%, em 2015, isso reduzirá em apenas um terço de ponto porcentual o crescimento das exportações americanas e europeias, uma vez que menos de um terço das vendas externas dos EUA e dos grandes países da zona do euro dizem respeito aos mercados emergentes.

Além disso, as exportações para o resto do mundo correspondem a apenas cerca de 20% do PIB total dos EUA e da zona do euro. Pela lei das frações iteradas, a combinação destes efeitos produz um impacto muito reduzido no crescimento americano e europeu, favorecendo inclusive um generoso multiplicador keynesiano.

Tudo isto torna um pouco mais difícil compreender por qual motivo os mercados financeiros globais reagiram de maneira tão violenta à modesta desvalorização de 2% da moeda chinesa em agosto último. Isto é um fato, mesmo reconhecendo que o que alarmou os investidores não foi tanto a desvalorização em si quanto o temor de que a mudança da taxa cambial estivesse sendo adotada em resposta a uma acentuada desaceleração do crescimento chinês.

Talvez os investidores acreditem que simples cálculos como estes não levam em conta todos os efeitos globais, porque não só uma desaceleração nos mercados emergentes produzirá uma ligeira desaceleração inicial nas economias avançadas, como a desaceleração nas economias avançadas terá reflexos negativos para os mercados emergentes. Ou talvez os investidores percebam perigosas fragilidades financeiras, por exemplo, no caso de a desaceleração levar a inadimplências em cascata das empresas dos mercados emergentes fortemente endividadas – inadimplências que provocarão desânimo nos mercados financeiros americanos e europeus. Logo, seria imprudente minimizar estes temores. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*Professor de Economia da Universidade da Califórnia e ex-conselheiro do Fundo Monetário Internacional (FMI)

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