Fraqueza na indústria

Produção industrial decepcionante deve provocar revisão das projeções mais otimistas para 2018

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2018 | 21h00

O resultado da indústria em março é mais decepcionante do que mostram as frias estatísticas.

Primeiramente, os números. Em relação a fevereiro, o desempenho da produção industrial recuou 0,1%, já levado em conta o desconto sazonal. A expectativa começou a ser frustrada aí, uma vez que as projeções apontavam para um avanço de algo entre 0,5% e 0,8%.

O indicador mais expressivo é o de que o encolhimento foi espalhado. Atingiu 14 dentre os 24 subsetores, o que demonstra que a fraqueza não está concentrada em meia dúzia de atividades, como acontece às vezes, mas está relativamente generalizada.

O único contraponto relevante desse desempenho fraco está na área de bens de consumo duráveis (veículos e aparelhos domésticos), que avançou 1,0%, e na de bens de capital (máquinas e equipamentos), que foi além, foi a mais 2,1%. A maior procura de bens duráveis parece mostrar que os efeitos da antecipação de compras promovida em 2014 e 2015, pelo governo Dilma, se esgotaram. E o melhor desempenho da área de bens de capital indica que já há maior disposição para o investimento.

Não há explicações novas para o baixo desempenho. Tem a ver com o poder aquisitivo ainda raquítico do consumidor, embora o tombo da inflação e dos juros tenha atuado em direção contrária; e com as incertezas que pairam sobre o resultado das eleições deste ano e sobre a qualidade da condução da política econômica a partir de 2019.

O alto nível do desemprego é, ao mesmo tempo, causa e consequência. Se o desemprego é alto, o poder aquisitivo do consumidor também fraqueja e, ao mesmo tempo, induz ao adiamento do consumo. E se o desemprego é alto é porque o raquitismo da atividade econômica leva o empresário a pensar duas vezes antes de contratar pessoal.

São duas as principais consequências dessa anemia, uma econômica e outra política. A primeira empurra empresários, consultorias e analistas para revisão das projeções inicialmente otimistas para este ano. Fica difícil apostar em crescimento do PIB de 2,7% em 2018 e da indústria em torno de 3%, como constavam dos relatórios no início do ano. Mesmo que, no momento, os analistas e consultores, rastreados pela pesquisa Focus do Banco Central, contem com bons números para o PIB e a produção industrial, depois dos resultados desta quinta-feira o quadro deve se alterar. Os últimos levantamentos do Índice da Atividade Econômica do Banco Central, o IBC-Br, confirmam as projeções mais realistas, digamos assim. Números deverão agora ser revisados para baixo.

Também está para ser mais bem avaliado o impacto dessas estimativas mais conservadoras sobre o emprego e sobre o investimento. Marcha mais lenta do que a esperada tende, também, a conter a alta de preços.

A principal consequência política deve ater-se ao campo eleitoral. O governo e, com ele, o centrão do leque político contavam com excelente desempenho da economia para atrair o eleitor. Isso fica mais difícil de acontecer.

Em todo o caso, esses números são apenas do primeiro trimestre e, ainda assim, estão incompletos. Convém esperar mais alguns meses para formar uma opinião mais abrangente.

CONFIRA

» Limites para a disparada

Nesta quinta-feira, o dólar teve alguns solavancos. Abriu em alta, mostrando que o mercado não acreditou nas declarações de autoridades do Banco Central feitas na véspera, de que estavam prontas para cortar as asas do dólar. Logo em seguida, embicou para baixo diante dos leilões de contratos de swap cambial, que equivalem a oferta de dólares. A operação mostrou os limites para a escalada. O Banco Central entende que uma esticada excessiva (pelo critério dele) pode puxar de volta a inflação.

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