Refugiados ganham treinamento e espaço em empresas de tecnologia

Refugiados ganham treinamento e espaço em empresas de tecnologia

Marcos Leandro, especial para o Broadcast

11 de março de 2021 | 12h07

O refugiado Khaled Al Jadaan (centro): administrador de empresas na Síria, que vendia salgados no Rio, virou desenvolvedor na Tecnologia Única

 

Khaled Al Jadaan tentava sair da Síria desde 2013, por conta da guerra civil. “Fui batendo nas portas de todo mundo, mas o pessoal sempre me mandava para a ONU”, diz. Foi aceito na embaixada brasileira e chegou ao Rio de Janeiro em 2016. Formado em Administração de Empresas, levou um ano para revalidar o diploma pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas conseguir emprego foi bem mais difícil. “Trabalhava na rua, vendendo comidas e salgados árabes”, afirma. “Primeiro em Copacabana, depois em Botafogo.”

Até que, por indicação de uma amiga colombiana, conheceu a Toti Diversidade, startup que capacita refugiados e imigrantes na área de tecnologia. Fez o curso que oferecem no início do ano passado e, em poucas semanas, conseguiu duas entrevistas de emprego: uma na Stone Pagamentos, no Rio de Janeiro, e outra na Tecnologia Única, em São Paulo. A segunda proposta fez mais sentido para ele.

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Com grandes clientes, principalmente na área de seguros, para os quais desenvolve sistemas como gestão de banco de dados, inteligência artificial e robotização, a Tecnologia Única – como muitas empresas da área – sofre para conseguir mão de obra qualificada. Estudo da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom) estima que, mantido o número de profissionais formados na área no Brasil, haverá um déficit de 260 mil profissionais da área, até 2024.

Digitalização na pandemia fez explodir busca por programadores

Com a digitalização forçada causada pela pandemia, o cenário ficou ainda mais desafiador. Segundo a GeekHunter, empresa de recrutamento especializada na contratação de profissionais de tecnologia, no ano passado houve aumento de 318% no número de vagas em startups e companhias da área, na comparação com o ano anterior. No entanto, o número de pessoas capacitadas para ocupar essas posições não cresceu na mesma proporção.

“Existe uma demanda incrível e uma oferta muito limitada de profissionais de tecnologia de todos os níveis”, diz Gustavo Gierun, cofundador do Distrito, plataforma de inovação e tecnologia. “Isso gerou inflação de salários, alta rotatividade e, em média, pouco tempo de experiência dos profissionais, em relação aos cargos que ocupam.”

Com essa disputa diária por desenvolvedores, Adriano Garcias, sócio da Única, conheceu a proposta da Toti e resolveu fazer um teste. “Refugiado parece um assunto que só se vê na televisão”, diz ele. “Mas é um problema real e, desde que começamos a experiência, deu para perceber que eles têm muita vontade de dar certo.”

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Na entrevista de seleção feita via Skype, por exemplo, Jadaan disse a Garcias que não tinha plano B, só o plano A: se dar bem em tecnologia. “A postura foi fundamental para a contratação porque vimos que ele estava disposto a entrar no mercado e evoluir”, afirma. “O que ele não tinha até então era oportunidade.”

O teste deu tão certo que a Única resolveu fazer uma parceria com a Toti e passou a financiar um programa de treinamento personalizado. A startup selecionou dez refugiados para a capacitação, em fevereiro de 2020. Com a pandemia, o treinamento passou a ser remoto e oito pessoas concluíram o curso. Desse total, quatro foram aproveitados pela Única. Com 150 funcionários, a empresa planeja aumentar o número de estrangeiros.

Nem todos, evidentemente, se adaptam à área. Caso o refugiado não consiga desempenhar a função, ele retorna para a Toti, que fica encarregada de conseguir outra oportunidade mais adequada a seu perfil. “Tivemos uma experiência com uma cubana, que também saiu fugida do país com o marido”, afirma Garcias. “Só que ela tinha muita dificuldade para aprender sobre a ferramenta e entender como as coisas funcionavam.”

Criada em 2016 como um projeto de alunos do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet-RJ), a Toti ganhou independência em 2019. Colocou naquele ano oito refugiados no mercado de trabalho, sendo que a primeira contratação aconteceu em menos de 45 dias. “Com essa correria pela contratação de desenvolvedores, as empresas têm tido muita dificuldade em encontrá-los”, diz Caio Rodrigues, sócio da Toti Diversidade. “Buscamos entender as demandas da companhia e encaminha os candidatos. A empresa paga apenas uma taxa de sucesso e, com esse dinheiro, formamos mais pessoas, sem cobrar nada do aluno.”

Hoje, a taxa de contratação da Toti está em 74%. Segundo Bruna Amaral, também sócia da Toti, as empresas também costumam gostar da diversidade trazida pelo grupo de refugiados. “É um setor formado majoritariamente por homens brancos heterossexuais”, diz ela. “No grupo de refugiados, há uma diversidade cultural absurda, mas também de gênero, raça e orientação sexual.”. Apesar de algumas empresas terem o estigma de que os refugiados são incapacitados para o trabalho, 63% dos alunos da Toti falam três idiomas, 45% são graduados e 28% têm pós-graduação.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 09/03/2021, às 08:00:08.

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