Estelionato eleitoral não compensa

Derrocada de Dilma Rousseff teve como um dos ingredientes fundamentais o chocante estelionato eleitoral da sua vitória em 2014.

Fernando Dantas

18 de abril de 2016 | 19h12

Como comentado por esta coluna em 31/10/2014, o estelionato eleitoral não é uma base sólida para uma estratégia de desenvolvimento. Agora, os fatos demonstram que o estelionato eleitoral tampouco é uma base sólida para promover um ajuste de curto prazo e para garantir a sobrevivência de um governo. Aliás, os dois fatores estão ligados. Não conseguindo tirar a economia do abismo, a presidente Dilma Rousseff ajudou a cavar a provável (ainda há o Senado) sepultura do próprio mandato.

É certo que não foi apenas o estelionato eleitoral que impediu que o ajuste inevitável transcorresse de forma menos dramática. Erros crassos de política econômica a partir de certo ponto do governo Lula e no primeiro mandato de Dilma foram cometidos em escala descomunal, acumulando os grandes desequilíbrios que agora a economia brasileira enfrenta. Além disso, é inegável que a operação Lava-Jato tem um efeito paralisante sobre decisões empresariais, difícil de quantificar, mas relevante.

E é certo também que não foi apenas a economia que derrubou Dilma. Sem o envolvimento do PT e do seu governo em uma gigantesca malha de escândalos, seria muito mais difícil destituí-la.

As ressalvas acima não invalidam a tese de que o estelionato eleitoral foi peça central do esfacelamento do projeto de poder petista.

É preciso, porém, definir melhor a expressão. Todo político promete mais do que consegue cumprir. Todo político tende, na maior parte das vezes, a falar o que o interlocutor gostaria de ouvir, e não a verdade nua e crua. Neste sentido, pode-se dizer que o estelionato eleitoral é o estado natural da política num regime democrático.

É aqui, entretanto, que entra a questão das gradações. É comum se dizer que, antes de combater a grande corrupção, as pessoas devem vigiar os seus próprios desvios da lei e da norma no dia a dia, como, digamos, falar ao celular enquanto dirige ou estacionar o carro em uma vaga proibida. Este é um ponto inegável e salutar. Por outro lado, ninguém em sã consciência negará que se apropriar de uma propina de dezenas de milhões de dólares num contrato entre uma estatal e uma empresa privada é um evento qualitativa e quantitativamente diferente de uma infração de trânsito de média gravidade.

Portanto, a gravidade do estelionato eleitoral se define pela escala em que é cometido. Que um político eleito descumpra até certo ponto promessas de campanha é geralmente tolerado pelo eleitorado, embora evidentemente isso não contribuirá para a sua popularidade. Já uma situação como a de 1998 e 1999, quando a campanha de Fernando Henrique Cardoso dizia que não havia nada de errado com a economia e prometia manter o regime de câmbio semifixo, para depois deixar o real flutuar e enfrentar um ano de crescimento nulo e alta inflação, acarretou uma punição. Mesmo com a rápida recuperação em 2000, outras crises sobrevieram, e o PSDB perdeu o Executivo federal em 2002 para nunca mais recuperá-lo.

O estelionato eleitoral de Dilma em 2014, porém, teve dimensões espantosas, pois reuniu ao mesmo tempo a garantia de que tudo estava bem com a economia e que não haveria ajuste doloroso; e uma campanha extremamente agressiva contra os principais adversários, segundo a qual estes, sim, fariam um ajuste recessivo. Ainda em 2014, depois do resultado das urnas, Dilma escolheu como ministro da Fazenda Joaquim Levy, um quadro altamente respeitável e com credenciais técnicas irretocáveis, mas que era conhecido por esposar visões e ideias exatamente iguais às dos economistas dos candidatos de oposição, que Dilma na campanha acusara de fazer terrorismo econômico e de ter a intenção de fazer um ajuste recessivo – que Levy imediatamente se pôs a tocar.

A forma gritante e cínica com que o estelionato ideológico e programático foi explicitado chocou a Nação e envenenou irremediavelmente o ambiente político, somando-se à interminável novela de escândalos do Petrolão para criar o atual ambiente de polaridade acirrada e nervos à flor da pele.

Evidentemente, o colapso econômico – junto com os escândalos de corrupção – foi o fator mais determinante da perda vertiginosa da popularidade da presidente. Mas o estelionato minou a governabilidade e provavelmente contribuiu para que o ajuste fosse (e continue sendo) muito mais duro e sofrido do que poderia ser.

Com o estelionato, Dilma desagradou todo mundo, mas de maneiras diferentes. As camadas mais ricas da população, que davam apoio a uma visão mais liberal de governo, enfureceram-se ao verem como a mentira deslavada foi usada para destruir os candidatos de sua preferência. Isto inclui uma parte da esquerda que apoiou Marina Silva.

O argumento de que, com Levy, Dilma estaria fazendo o que o eleitorado tucano queria e este, portanto, não teria razão para reclamar, é cínico também. Ficou claro para a maioria das pessoas que essa seria a pior maneira de aplicar as ideias certas, no contexto de um governo apoiado por partido que repudia a ortodoxia liberal, desmoralizado politicamente e corroído por escândalos. Na verdade, esta parece mais uma receita para desmoralizar do que para aplicar uma determinada política econômica.

Do outro lado do fosso social, o estelionato também provocou estragos. Como indicou recentemente Renato Meirelles, presidente do instituto Data Popular, parte substancial das classes populares voltou-se contra Dilma exatamente porque ela não cumpriu a promessa de não desacelerar as políticas de inclusão social, como mais gastos em saúde e educação e programas como Minha Casa Minha Vida, Fies, Pronatec e ProUni.

A aprovação da abertura do impeachment ontem pela Câmara não acende ainda, nem de longe, a luz no fim do túnel da atual crise. A agenda que o novo presidente (caso o Senado vote por receber o processo) terá que enfrentar é terrivelmente difícil em termos econômicos, políticos e sociais. Não há a menor indicação, por enquanto, de que Temer será bem-sucedido. Mas se um fator salutar pode ser extraído da votação de ontem na Câmara, este seria que foi dado mais um doloroso passo no aprendizado democrático do sistema político e da sociedade brasileira: mais uma vez, ficou provado que estelionato eleitoral não compensa. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 18/4/16, segunda-feira.

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