Coronavírus: uma epidemia na era da visão sistêmica

Coronavírus: uma epidemia na era da visão sistêmica

Claudia Miranda Gonçalves

04 de fevereiro de 2020 | 10h00

Texto por Livia Zillo, Ph.D.

Invisível a olho nú, o novo coronavírus (2019-nCoV) ou informalmente conhecido como coronavírus de Wuhan, já infectou mais de 20 mil pessoas na China, onde causou 426 mortes e uma morte nas Filipinas. Mundialmente, outros 24 países já confirmaram casos da doença, elevando para 146 os casos fora da China. No Brasil foi decretado “estado de emergência de saúde pública nacional” e seguimos com 14 casos suspeitos, distribuídos em São Paulo, Paraná, Ceará, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

O vírus de apenas 125 nanometros (0,000000125 metros) e 32 vezes menor do que o diâmetro da seda de uma teia de aranha vem abalando o planeta em todas esferas do sistema: econômica, social, ambiental e política. 

É curioso observar como um microorganismo tão pequeno possa ser o causador de tanto rebuliço mundial, e com razão.

Nós, a humanidade, os seres mais inteligentes e desenvolvidos da cadeia alimentar, inventores da lâmpada, de bombas nucleares, curas de doenças, estamos submetidos a um organismo invisível a olho nú. 

Neste blog, estamos frequentemente desafiando vocês leitores a fazerem uma reflexão a respeito das relações, incentivando e provocando que utilizem a visão sistêmica para terem mais clareza de causas e soluções para alguma questão ou problemática. O convite hoje é olhar para essa epidemia com um viés biológico e sistêmico. 

A primeira coisa que precisamos lembrar é que somos parte do todo, planeta e humanidade estão conectados em diversos níveis. Vivemos em um enorme ecossistema com vida própria, e embora algumas esferas da nossa sociedade tenham dificuldade em aceitar, muita coisa está fora do nosso controle e vivemos em um mundo que frequentemente testa a natureza, levando-a a situações extremas. 

A família do Coronavírus foi inicialmente caracterizada por infectar apenas animais, no entanto, supõe-se que a convivência muito próxima entre animais e homens tenha provocado uma mutação nessa família de vírus, permitindo que essa infecção fosse transmitida para nós humanos. E não é a primeira vez que o Coronavírus é tema de alarde mundial, em 2003 esse vírus foi causa de mais de 700 mortes, com mais de 8 mil casos de infeção em 17 países, ficando conhecida como epidemia SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome). Assim como nesta epidemia, cientistas identificaram que os primeiros casos de infeção pelo novo Coronavírus tenham acontecido em trabalhadores de um mercado de comercialização de animais vivos para consumo e que provavelmente morcegos foram os hospedeiros para esse novo vírus. Sendo esta a primeira evidência biológico-sistêmica que nos mostra que a manipulação e o consumo de espécies animais exóticas e selvagens podem reservar surpresas desagradáveis.

O que nos leva à pergunta, quando para nós homens, será suficiente?

Criamos gado, aves, porcos, e ainda sim temos a necessidade de submeter outras espécies animais para nosso sustento, quando será suficiente? No artigo “Ser e ter suficiente em 2020” a Cláudia Gonçalves fala mais sobre isso. Será que teremos lições aprendidas após esses “avisos” através destas epidemias ou estamos esbarrando em questões culturais e até econômicas na comercialização desses animais considerados exóticos para consumo? Qual é esta relação do homem com o alimento e suas fontes de sustento para sobrevivência? 

São muitas as questões e reflexões, porém agora que já tivemos um olhar sobre o aspecto biológico, vamos olhar para os impactos econômico e político dessa epidemia. O fenômeno da globalização não globalizou somente os mercados, mas também as doenças. As facilidades de viagens e de importação e exportação influenciam diretamente na disseminação de enfermidades. E atualmente, é pouco provável olharmos com uma visão cartesiana para o problema de um país, é essencial termos uma visão sistêmica, não só para nos ajudar com soluções mas também com a prevenção de cenários globais desfavoráveis.

Estima-se que as bolsas de valores perderam US$ 1,5 trilhões com o avanço da epidemia, e no Brasil a bolsa teve a maior queda mensal em 11 meses, também influenciando o câmbio do dólar e os trâmites de exportação para a China. O congresso se depara com a questão de resgatar os brasileiros na China e está desafiando o sistema de saúde para a detecção e tratamento da doença, e enquanto tudo isso acontece é necessário tentar manter a população calma para não gerar histeria.

Todas essas consequências, por que a 16.622km de distância, em um mercado chinês um vírus sofreu uma mutação que desencadeou a disseminação de uma infecção ainda sem cura.

Conseguem perceber a interligação desses eventos através das relações das partes – hábitos culturais, relação homem-animal, políticas de exportação e importação, turismo, globalização, entre muitos outros aspectos? Qual é a lição aprendida que podemos tirar do funcionamento deste sistema? Uma vez que essa consciência é criada podemos nos comportar de diferentes maneiras frente à problemáticas e desconfortos similares, e isso acontece também para nossas questões pessoais e profissionais.

E socialmente, quais são os impactos? 

Nunca uma cidade de 11 milhões de habitantes foi colocada em quarentena.

Nunca um hospital foi construído em 10 dias. Temos pessoas na China em isolamento domiciliar, algumas que não saem de casa há 10-15 dias, aqui no Brasil também temos os casos suspeitos mantidos em isolamento, temos as incertezas tanto do ponto de vista dos negócios quanto do ponto de vista individual, em alguns lugares já é visto o uso de máscaras e qualquer tosse e espirro já é motivo de preocupação nas pessoas. Alguns países já restringiram a entrada de pessoas vindas da China, o que causa uma disrupção em planejamento pessoal e profissional, novamente se conectando à questão econômica e política da epidemia. Na China os funerais das vítimas do coronavírus foram proibidos, a cremação é obrigatória.  E o que acontece quando uma epidemia dessa é vivenciada em uma era de smartphones e redes sociais? O caos e a insegurança podem ser facilmente instaurados através de notícias que não são confirmadas e que são propositalmente disseminadas para gerar ibope e pânico, isso levou inclusive o Facebook, o Google e o Twitter a reverem sua estratégias de comunicação para conter as notícias falsas. O medo já foi instaurado. 

Com estas perspectivas podemos observar a teia de conexões de padrões, crenças e ações que levaram o sistema a colapsar, sintomatizando uma epidemia como o coronavírus.

Estamos vivendo uma era onde pensamento, estudos e práticas sistêmicos já foram reconhecidos como parte importante dos processos de clareza, de solução e de quebra de padrões (com algumas técnicas já reconhecidas pelo SUS e pelo sistema Judiciário brasileiro) o que nos permite ir além e utilizarmos esse conhecimento sistêmico para prevenir, aprender e até ajudar a solucionar questões globais, como a que estamos vivendo neste momento.