Monica Zarattini/Estadão
A expectativa é de que os dados de março – a serem divulgados apenas no fim de maio – mostrem endividamento ainda maior nas famílias. Monica Zarattini/Estadão

Antes da crise, endividamento dos brasileiros já era o maior em quatro anos

Dados de fevereiro divulgados pelo Banco Central mostram que 45,5% das famílias estavam endividadas com os bancos

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 15h27

BRASÍLIA - A crise provocada pela pandemia do novo coronavírus pegou os brasileiros em situação financeira mais vulnerável, com alto nível de endividamento. Dados divulgados nesta terça-feira, 28, pelo Banco Central mostram que, em fevereiro, o endividamento das famílias com os bancos atingiu 45,5%. O porcentual é o maior desde os 45,8% verificados em outubro de 2015, quando o Brasil enfrentava a crise fiscal do governo Dilma Rousseff.

O cálculo do endividamento leva em conta o total das dívidas bancárias, dividido pela renda das famílias no período de 12 meses. Se for considerado o endividamento sem as operações de crédito imobiliário – geralmente de valores mais elevados para as famílias –, o porcentual de fevereiro ficou em 26,8%, também acima do verificado em anos mais recentes. 

Os dados de fevereiro ainda não refletem o acirramento da crise provocada pelo novo coronavírus. Isso porque foi no fim de março que o isolamento social se intensificou nas cidades brasileiras, afetando a atividade econômica, a renda e o emprego. E crise acabou recaindo sobre famílias já naturalmente mais endividadas.  

“Temos trajetória de crescimento do endividamento das famílias já há algum tempo”, disse o chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, durante entrevista coletiva virtual. “Esse desenho do endividamento é consequência do que víamos no mercado de crédito (antes da crise): o crédito livre para pessoas físicas puxando (as operações).” 

A expectativa é de que os dados de março – a serem divulgados apenas no fim de maio – mostrem endividamento ainda maior nas famílias. Com o desemprego maior e a renda menor, os brasileiros tendem a fazer menos dívidas para aquisição de bens como veículos e imóveis. Por outro lado, é natural que a demanda por crédito pessoal ou emergencial aumente. 

Durante a coletiva, Rocha evitou comentar se o nível de endividamento das famílias preocupa o Banco Central. 

Os números do BC mostraram ainda que, em fevereiro, o comprometimento da renda das famílias com dívidas bancárias ficou em 20,0%. O porcentual é próximo do verificado no fim de 2019, mas superior ao visto em anos anteriores. Se o financiamento imobiliário for excluído da conta, o comprometimento da renda com dívidas bancárias estava em 17,6% em fevereiro.

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Concessões de crédito para empresas disparam e juros caem, diz BC

Em março, crédito bancário teve a maior expansão mensal desde setembro de 2008

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 11h11

BRASÍLIA - Em meio aos efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre a economia, as concessões de crédito para empresas dispararam em diversas modalidades.

Este movimento foi acompanhado, ainda segundo informações oficiais, por uma queda na taxa média de juros cobradas pelas instituições financeira.

Entretanto, isso não aconteceu em todas as linhas de crédito. No cartão de crédito rotativo das pessoas físicas, a taxa de juros avançou no mês passado.

Dados divulgados nesta terça-feira, 28, pelo Banco Central (BC) mostram que as concessões de crédito via desconto de duplicatas e recebíveis subiram 42,3% em março ante fevereiro, para R$ 44,901 bilhões.

No caso do desconto de cheques, houve alta de 14,0% e, na antecipação de faturas de cartão, ocorreu elevação de 48,6%.

Os dados do BC mostraram ainda que, em março, a concessão de crédito para capital de giro subiu 86,6%. Dentro desta rubrica, o capital de giro com prazo inferior a 365 dias disparou 148,9%, enquanto operações com prazo maior tiveram alta de 63,8%. Já o capital de giro na modalidade teto rotativo avançou 47,0%.

Conforme o Banco Central, no caso da conta garantida para empresas, as concessões avançaram 29,2% em março ante fevereiro. Já o cheque especial para pessoas jurídicas registrou aumento de 5,7% nas concessões no mês passado.

Os dados apresentados nesta terça-feira, 28, pelo BC são influenciados pelos efeitos da pandemia, que colocou em isolamento social boa parte da população, reduzindo a atividade das empresas e elevando o desemprego. Em meio à carência de recursos, as empresas aumentaram a demanda por crédito nos bancos, o que influencia os números de concessões.

Maior expansão do crédito desde 2008

No total, o crédito bancário apresentou um aumento de 2,85% em março, na comparação com fevereiro, para um volume total em mercado de R$ 3,587 trilhões. No mês retrasado, estava em R$ 3,487 trilhões.

Segundo informações do BC, essa foi a maior expansão mensal deste indicador desde setembro de 2008 - quando cresceu 3,68%.

Os números divulgados revelam que o crescimento aconteceu no crédito para as empresas, que registrou alta de 6,4% no mês passado, para R$ 1,5 trilhão, enquanto que o saldo total para as pessoas físicas avançou bem menos: (0,3%), para R$ 2,1 trilhões.

"Em março, ocorreu expansão tanto nas modalidades com influência sazonal (desconto de duplicatas e recebíveis, antecipação de faturas de cartão) quanto nas relacionadas a fluxo de caixa (capital de giro), e nas de comércio exterior (adiantamentos sobre contratos de câmbio, financiamentos a exportações)", informou o BC.

No caso das concessões de crédito, houve uma alta de 28,6% no mês passado - quando elas somaram R$ 396 bilhões. Em fevereiro, o volume de novas operações de crédito concedidas havia somado R$ 308,5 bilhões.

Custo do crédito cai em linha com juros básicos

De acordo com o BC, houve queda nos juros médios das instituições com recursos livres (sem contar BNDES, crédito rural e imobiliário) fevereiro para março.

A taxa média total (pessoa física e jurídica) passou de 34,1% ao ano, em fevereiro, para 33,2% ao ano em março.

Os juros nas operações com pessoas físicas passaram de 46,7% ao ano, em fevereiro, para 46,1% ao ano, em março deste ano.

Já a taxa média cobrada das empresas caiu de 17% ao ano, em fevereiro, para 16,6% ao ano, no mês passado.

A queda dos juros bancários médios, e nas operações com pessoas físicas, acontece em um momento de redução também da taxa básica da economia. Em março, a Selic foi baixada pelo BC para 3,75% ao ano - o menor patamar da história.

De acordo com o BC, os juros bancários caíram mais do que a taxa básica no mês passado. Com isso, o "spread" bancário (diferença entre o que os bancos pagam pelos recursos e o que cobram de seus clientes) médio passou de 28,9 pontos percentuais, em fevereiro, para 27,5 pontos percentuais em março.

Nas operações com pessoas físicas, houve redução de 41,3 pontos em janeiro para 40,1 pontos em fevereiro deste ano. Com isso, mesmo com a redução no mês passado, o "spread" bancário ainda segue em patamar elevado para padrões internacionais.

O "spread" é composto pelo lucro dos bancos, pela taxa de inadimplência, por custos administrativos, pelos depósitos compulsórios (que são mantidos no Banco Central) e pelos tributos cobrados pelo governo federal, entre outros.

Taxa do cartão de crédito rotativo sobre para 326,4% ao ano

A redução nas taxas de juros bancárias, entretanto, não foi generalizada no mês passado. Os números do BC mostram que houve elevação na taxa cobrada no cartão de crédito rotativo.

Segundo a instituição, a taxa média dessa modalidade de crédito passou de 322,6% ao ano, em fevereiro, para 326,4% ao ano, em março - o maior valor desde abril de 2018 (328,1%), ou seja, em 22 meses.

O crédito rotativo do cartão de crédito pode ser acionado por quem não pode pagar o valor total da sua fatura na data do vencimento, mas não quer ficar inadimplente.

Para usar o crédito rotativo, o consumidor paga qualquer valor entre o mínimo e total da fatura. O restante é automaticamente financiado e lançado no mês seguinte, com juros.

Essa é uma das linhas de crédito mais caras do mercado e, segundo analistas, deve ser evitada. A recomendação é que os clientes bancários paguem todo o valor da fatura mensalmente.

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Com pandemia, Brasil teve 150 mil pedidos de seguro-desemprego a mais que em 2019

Estimativa do governo federal considera trabalhadores demitidos que ainda não solicitaram o benefício e tem como base o período entre o início de março e 15 de abril

Lorenna Rodrigues e Thaís Barcelos, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 13h01

BRASÍLIA e SÃO PAULO - O governo federal estimou nesta terça-feira, 28, que a crise gerada pela pandemia do novo coronavírus provocou, até agora, cerca de 150 mil pedidos de seguro-desemprego a mais que no mesmo período de 2019.

De acordo com dados divulgados pela equipe econômica do governo, 866.735 trabalhadores deram entrada no pedido do seguro-desemprego entre o começo de março e a primeira quinzena de abril de 2019. Em 2020, no mesmo período, foram 804.538.

Entretanto, o governo estima que aproximadamente 200 mil trabalhadores demitidos durante a pandemia ainda não pediram o benefício  devido ao fechamento de agências do Sine, embora estejam funcionando de forma remota . Isso elevaria o número de pedidos de seguro-desemprego, entre o início de março até a primeira quinzena de abril de 2020, para pouco mais de 1 milhão, ou seja, cerca de 150 mil pedidos a mais que em 2019.

"Tendo em vista fechamento dos sistema Sine, temos demanda reprimida. Ainda temos pequena fila que estamos dando conta rapidamente, mas essa demanda reprimida não passa de 200 mil em março e abril em conjunto", disse o secretário de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco, em entrevista coletiva no Palácio do Planalto. Ele disse que a fila dos pedidos não ultrapassaria 150 mil pedidos.  "Temos aumento do desemprego, mas o Brasil está conservando muitos empregos", afirmou

"São resultados de políticas econômicas bem feitas e bem sucedidas desde o início do governo Jair Bolsonaro, que mostram o quão importante são as bases de política econômica e os resultados que se pode ter, seja em um ambiente de normalidade, seja de anormalidade, como temos hoje."

Esses são os primeiros dados divulgados pelo governo a respeito dos efeitos da crise sobre o emprego no Brasil desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia do novo coronavírus, em 11 de março.

A criação ou fechamento de vagas de trabalho no País, propriamente, é divulgada pelo governo com base do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Entretanto, o governo suspendeu a divulgação desses números sob a justificativa de que as empresas, afetadas pelas medidas de restrição impostas pelo combate à pandemia, deixaram de enviar os dados.

No acumulado de janeiro até o dia 15 de abril, o número de pedidos de seguro-desemprego, sem considerar a fila dos que ainda não conseguiram dar entrada no benefício, caiu 7,4% e chegou a 1,856 milhão.

Bianco disse que o governo deverá publicar novas medidas para auxiliar na manutenção do emprego nos próximos dias, incluindo a permissão de que empresas “emprestem” trabalhadores umas para outras.

Secretário-executivo do Ministério da Economia, Marcelo Guaranys afirmou que o dado do seguro-desemprego está “razoavelmente estável”. “Por enquanto, neste primeiro instante de crise, passado já mais de um mês, nós não verificamos um aumento do número de pedidos de seguro-desemprego, o que demonstra para nós que a situação está parecida com o que havia no passado, um ligeiro aumento, mas não é nenhuma explosão perto do que pensávamos, o que todos esperavam que poderia acontecer”.

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