Werther Santana/ Estadão
Ações com exposição ao mercado americano e ligadas a commodities são atrativas Werther Santana/ Estadão

Após novo aumento da Selic, veja como ficam as principais aplicações

Investimentos pós-fixados se beneficiam do cenário, mas renda variável bate inflação, apontam especialistas; já a poupança ostenta uma das piores remunerações da atualidade

Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 05h00

Investimentos pós-fixados tendem a se beneficiar de ciclos de alta de juros, como ocorre agora. Essas operações são corrigidas por algum indexador que flutua, como a Selic, a taxa básica de juros; o CDI (Certificado de Depósito Interbancário, a taxa de juros cobrada nos empréstimos entre bancos); ou o IPCA, o índice oficial de inflação do País. Especialistas, no entanto, ainda indicam a renda variável para aqueles que querem ter alguma possibilidade de ganhos acima da inflação. 

Analistas afirmam que a metade final de 2021 será mais volátil por causa das preocupações com a variante delta do coronavírus, da inflação generalizada e persistente no Brasil, do buraco fiscal exposto pelas disputas em torno dos precatórios, da crise de energia e também dos prejuízos causados ao agronegócio pelas ondas de frio no País.

“Além do período de geadas e da estiagem, que já naturalmente deixa o preço da carne e o do leite mais alto, porque tem menos pasto para o gado, temos também a crise hídrica mais acentuada. Mesmo que o preço das commodities e do petróleo ceda, tem uma inflação mais generalizada”, disse o professor de Finanças da FGV-SP Fabio Gallo. Nicolas Borsoi, economista da Nova Futura Investimentos, completa: “E o câmbio não desarmou. Chegou a operar abaixo dos R$ 5, mas depois o dólar voltou a subir. Poderia ser uma fonte de alívio da inflação, mas não aconteceu”. 


 

Renda variável

Ainda assim, há otimismo em relação à Bolsa. Especificamente para este mês, Borsoi cita quatro “temas”, como ele chama, nos quais o investidor deve prestar atenção. O primeiro é uma carteira com exposição ao mercado acionário americano. Segundo ele, por mais que a variante delta esteja causando preocupação no exterior, não seria o caso de haver uma suspensão da retomada, mas apenas uma desaceleração. Sem contar que, por lá, há muitas empresas de tecnologia que podem não ser afetadas por essa perda de ritmo. 

As outras carteiras são ligadas a commodities – produtos básicos, como alimentos, minério de ferro e petróleo, cotados no mercado internacional em dólar –, que desde o começo do ano estão indo bem nas exportações, e as ligadas à reabertura da economia, como empresas do varejo físico e concessionárias de rodovias. 

Poupança

A poupança é um dos investimentos com a pior remuneração atualmente. O rendimento é de 70% da Selic (caso a taxa esteja no máximo a 8,5% ao ano) mais a taxa referencial (TR), que está zerada, ou de 0,5% ao mês mais TR, quando a Selic for superior a 8,5%. Por outro lado, a caderneta tem liquidez diária. Ou seja, é possível resgatar o dinheiro a qualquer momento, sem multa. 

Se o investidor colocar R$ 1 mil na poupança hoje, daqui a um ano terá rentabilidade líquida de R$ 36,75. Mas a rentabilidade real, que é o valor descontado pela inflação, será de R$ 33,64 negativos. Quem quiser uma alternativa parecida e mais rentável pode tentar o Tesouro Selic ou o CDB com liquidez diária, indicou Bernardo Pascowitch, fundador do buscador de investimentos Yubb. “Qualquer investimento pós-fixado se beneficia do ciclo de alta da Selic, mas, mesmo assim, não tem sido o suficiente para bater a inflação”, disse Pascowitch. 

Renda fixa

O analista de soluções financeiras da Ativa Investimentos Rodrigo Beresca analisou como alguns dos principais investimentos mais conservadores se comportam no atual cenário. 

  • CDB. Valem a pena papéis pós-fixados no DI, especialmente aqueles que pagam 100% ou mais do CDI, porque a taxa de juros está subindo forte. Lembrando que existem CDBs com liquidez diária e também aqueles com prazos mais rígidos para resgate. 
  • Debêntures. Papéis de dívida emitidos por empresas, sejam elas sólidas e bem ranqueadas em agências internacionais, ou que não são bem ranqueadas. Estas últimas costumam pagar um prêmio maior por causa do risco. 
  • LCI e LCA. A vantagem desses instrumentos (Letras de Crédito Imobiliário e Letras de Crédito do Agronegócio) é a isenção do IR, portanto, há um retorno maior do que aplicando em outro ativo que não tenha essa opção, como é o caso do CDB. A lógica para as letras é a mesma: mais atrativo se for no longo prazo porque, com a previsão de novos aumentos para a Selic nos próximos meses, o investidor terá mais chance de embolsar um ganho real (acima da inflação). As boas opções são as taxas pós-fixadas. 
  • Fundos DI. É uma boa opção porque tendem a seguir o CDI, que acompanha a Selic. Em momentos de alta dos juros, são uma opção interessante. Mas é cobrada uma taxa de administração, o que diminui o ganho final.
  • Tesouro Direto. Os títulos indicados dessa categoria neste momento são o Tesouro Selic e IPCA + (em caso de este apresentar um prêmio mais elevado). 
  • Fundos imobiliários. As cotas de alguns fundos tendem a sofrer um pouco com o cenário de alta de juros. Mas o investidor pode comprar papéis que investem em empreendimentos e locações sólidas que pagam bons proventos de aluguéis ou papéis atrelados a taxas pós e de inflação. Empreendimentos sólidos são aqueles que não apresentam taxa alta de vacância, que investem em balcões logísticos de empresas como varejistas ou que investem em lajes corporativas em locais bem estabelecidos.
  • Fundos multimercado. Opção interessante, porque os gestores têm liberdade de investir em diversos ativos. Por exemplo, se ele vê que vai haver uma forte alta da taxa de juros, ele pode alocar os recursos em ativos atrelados a taxas flutuantes. Se o cenário mudar e a taxa cair, ele realoca em prefixados.

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'Estamos à deriva do ponto de vista da economia', diz ex-diretor de política monetária do BC

Para Luís Eduardo Assis, o ciclo de aumento da taxa de juros ocorre num momento em que a economia ainda está fragilizada em razão da pandemia

Entrevista com

Luís Eduardo Assis

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 05h00

O ciclo de alta da taxa básica de juros, a Selic, ocorre em um momento delicado para a economia, que ainda se encontra fragilizada em razão da pandemia e com o desemprego atingindo cerca de 14,8 milhões de brasileiros. Com a proximidade das eleições, dificilmente a taxa de câmbio poderá aliviar as pressões na inflação, o que pode fazer o Banco Central continuar elevando os juros em 2022. Esta é a avaliação do economista Luís Eduardo Assis, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central. Em entrevista, ele afirma que os juros mais altos tendem a prejudicar as famílias mais endividadas e a falta de um plano econômico do governo prejudica ainda mais a situação. "Nós estamos à deriva do ponto de vista da economia", diz.

Na avaliação do sr., qual o impacto da alta da Selic para a economia?

A principal questão é que o Banco Central teve que iniciar um ciclo de elevação dos juros com um desemprego acima de 14%. Isso não acontecia antes. A última vez que ele começou a subir juros foi em 2013, e o desemprego estava na faixa de 7% ou 8%. Esse é o grande dilema. Tivemos um choque no ano passado absolutamente excepcional. Em geral existe uma correlação negativa entre preço de commodities e a taxa de câmbio. No ano passado, essa correlação não prevaleceu. A elevação do preço das commodities foi muito significativa. E houve também uma desvalorização cambial. O aumento do preço das commodities medido em reais foi de 72%, somando esses dois efeitos. É um choque gigantesco.

Essa inflação tende a persistir na sua avaliação?

É isso que veremos daqui para frente. Podemos torcer, e só torcer, para que os preços internacionais das commodities caiam. Mas é só uma questão de torcer. E o real, bem ou mal, está em linha com a moeda de outros países emergentes. Acho difícil esperar uma valorização maior, com o dólar abaixo de R$ 5, por exemplo. 

Por que não? 

Por causa da turbulência política, que está encomendada (com a proximidade das eleições). A gente está numa situação única. Qual é o projeto da política econômica hoje? Qual é o plano? Não existe plano. Não existe porque não existe plano de governo. O único objetivo do governo é evitar o impeachment, conseguir chegar até o final do mandato e eventualmente ser um candidato competitivo. Mas isso não dá espaço para planejar a política econômica. Ao contrário. Abre espaço para o populismo fiscal. Na falta do que fazer, o que a gente vê hoje é a tentativa de arrumar subterfúgios no Orçamento para engordar o Bolsa Família no ano que vem e tentar combater a impopularidade. Isso não tem nada a ver com planejamento econômico ou um plano de retomada do crescimento. Nós estamos à deriva do ponto de vista da economia.

Nesse ambiente, quais os efeitos dos juros mais altos para o consumo e o governo?

A elevação de juros pega as famílias e setor público mais endividados. A dívida pública subiu mais do que R$ 1 trilhão no ano passado. Sem falar no impacto dos juros altos para a desigualdade. Porque a pandemia também serviu para aumentar o fosso entre as pessoas de renda mais alta e das pessoas que ganham menos. Isso tem um impacto que vai muito além da retomada da economia. É um impacto duradouro, que vai reverberar pelos próximos anos. Porque é uma estrutura de renda absolutamente concentrada. 

O sr. vê este ciclo de alta se estendendo no ano que vem?

Vejo. Acho que a alta é maior do que o mercado está precificando. À medida que o setor de serviços retome a demanda, a pressão sobre a inflação de serviços, que representa cerca de 37% do IPCA e hoje está baixa, vai gerar uma tensão adicional sobre a inflação. A não ser que haja uma valorização do real e uma queda forte das commodities. Mas isso não está no mapa. Principalmente no câmbio, com a turbulência política que está encomendada. 

É difícil ter um otimismo nesse cenário.

O otimismo está no fato de que vamos ter uma longa campanha presidencial e poderemos debater os projetos, coisa que não foi feita em 2018. Se o Brasil tiver sorte, poderemos forjar dois, três projetos para o País. 

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Entenda como o aumento de juros influencia a vida do consumidor

Além de afetar os investimentos, novo reajuste da taxa Selic, atualmente em 5,25%, também pode deixar os empréstimos mais caros

Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 05h00

A taxa básica de juros, Selic, subiu pela quarta vez consecutiva e está atualmente em 5,25%. Assim, novos empréstimos vão ficar mais caro para o mutuário. Ale Boiani, gestora do 360iGroup, de assessoria financeira, e Lorena Farias, planejadora financeira pela Planejar, responderam algumas perguntas de como a Selic influencia a vida do consumidor. 

Na hora de definir os juros que vou pagar no meu empréstimo, a Selic é tão importante assim? Mais importante do que o meu score?

A Selic é a taxa básica de juros. Ou seja, é o valor mínimo que uma instituição utiliza para cobrar o dinheiro emprestado. Mas, além da Selic, existem outros critérios utilizados na hora de calcular os juros, como o score, que mede se uma pessoa é ou não boa pagadora. Quanto maior a pontuação de boa pagadora, menor será o valor de recompensa por emprestar o dinheiro, chamado de spread.

Tenho um bom score. Mesmo assim, recebi a proposta de uma taxa alta. Por quê? 

Veja o exemplo. Se eu já mantenho operações num determinado banco e peço um empréstimo, o banco poderia estabelecer uma taxa mais baixa no contrato de financiamento por conhecer o meu perfil. Eu posso consultar uma outra instituição atrás de condições melhores, mas essa instituição não tem meu histórico e, em tese, vai cobrar um spread maior. Sabendo disso, o meu banco não muda a sua taxa. Com o open banking, deve começar a acontecer o contrário, porque as instituições estarão concorrendo em igualdade de conhecimento do cliente. 

Durante ciclos de alta da Selic, qual é a melhor linha de crédito?

Os empréstimos com taxas prefixadas são os melhores para ciclos de alta, pois, mesmo que a Selic continue subindo – o que é esperado até o fim do ano, quando deve atingir 7% –, o juro combinado contratualmente com a instituição financeira não poderá ser alterado. Mas não adianta pegar uma taxa prefixada ruim. Por exemplo, como a Selic está a 5,25%, o ideal é que o spread não esteja muito acima disso. Tente cotar em mais de um banco e verifique as garantias exigidas pela instituição. 

A Selic deve continuar subindo. Devo tentar um empréstimo o mais cedo possível ou esperar a taxa voltar a cair?

O ideal é não precisar pegar dinheiro emprestado. Mas, se não houver outra maneira, a Selic hoje está menor do que o previsto para encerrar o ano, que é em 7%.

Peguei um empréstimo no mês passado. Os juros que eu pago vão aumentar agora que a Selic subiu ou eu pago o valor antigo?

Para os contratos prefixados, o valor fica inalterado. Já para os contratos pós-fixados, os juros vão flutuar conforme o indexador. 

O que muda no cartão de crédito? Vai ficar mais caro parcelar a compra numa loja?

O juro do cartão de crédito é prefixado. No cartão de crédito, não se costuma ter muitas mudanças no porcentual de juros, até porque ele já é bastante alto. 

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